
″…no meu leito, quando de ti me recordo, e em ti medito, durante a vigília da noite…a minha alma apega-se a ti…”
Sempre que chega a vez do círculo do Zodíaco fazer-nos atravessar o signo dos Gémeos no mês de Maio, várias recordações se alevantam no meu cérebro, pois ele (Maio) lembra-me tanta coisa sobre a minha vetusta e “santa parvónia”.Com efeito, quis o destino que eu visse a luz do dia pela primeira vez, em Inharrime, debaixo duma frondosa sombra de uma velha Mafureira a servir-me de berçário, numa das aldeias que dista da Povoação Sede em estrada de terra batida, nada mais que Trinta exactos quilómetros e Dezoito em corta-mato, (atalho). Falo da Praia de Zâvora, ou simplesmente Forororni (Makanzeni). Conforme o documento intitulado “África Oriental”, atribuído ao militar, jornalistae escritor português,Major de Infantaria José Eduardo da Vasa César Alves de Noronha, ou simplesmenteEduardo Noronha,datado do século XIX (1887), a Povoação de Inharrime, começou por ser uma Quinta de um Europeu de origem Grega, à qual (quinta), ostentava o nome de ”Quinta Poelela″, deturpação de “Phwelela”, que era o nome porque era conhecida a Lagoa que circunda a Vila no seu extremo Sul, misturando as suas águas salobras resultado da junção dum braço do Indico, com as do rio “Nyadhimi”, que também por curruptela passou a ser conhecido por Inharrime. Mais tarde ainda nesse século, passou a ser um Posto avançado dum Destacamento Militar das tropas do facínora Afonso de Albuquerque sediado entre a longa e esgarçada chã que ia de Coguno a Chicomo (60 Kms de Inharrime-Sede). Por Portaria de 23 de Julho de 1912, a Povoação Comercial de Inharrime, passou a ser Sede duma Circunscrição com uma Superfície de 2149Km²,abrangendodois Postos administrativos, nomeadamente:Inharrime, com três Localidades: Inharrime-sede, Chacana (Txakaneni) eDongane, (Nyakowongueni); Mocumbi (Inkumbini) com duas Localidades: Mahalamba (Mahalambeni), e Nhapadiana (Nyapadyaneni. Já nessa altura a Povoação Comercial tinha uma dezena de Cantinas, Quatro petencentes a Portugueses nomeadamente Álvaro Galiza Matos, proprietário da única casa de Pasto que nessa altura exibia o pomposo nome de “Hotel Inharrime”. Foi avô, (não sei se ainda é vivo) do Deputado Edmundo Galiza Matos Junior. Explorava também a mina de brita em Nhassune; António Galamba de Oliveira, este com uma sucursal na Povoação de Mahalamba, (Mahalambeni);Carlos Castelo Branco, (Txikwembu), também com uma sucursal na Povoação de Chacana, este, viria a ser assassinado por ladrões na década Sessenta;Os asiáticos Gulamusein, Momad Bachir (Khapatile), Ismael Mussa (Guamba), Lalitikumar Naguindas (Malekenyane), Dramucy, (Dramuciane), (este ultimo cujo um dos descendentes ainda está em Inharrime, actualmente instalado na primeira loja do lado esquerdo de quem entra na vila proveniente de Maputo) e muitos outros, dominavam todo o tipo de comércio a grosso e a retalho na Vila Sede. Em 9 de Maio de 1972, a Povoação de Inharrime foi elevado ao estatuto de Vila. Escusado será recordar que nessa altura ninguém era achado a deambular na Vila adentro sem destino certo como acontece nos dias de hoje. Como se pode ver pela ilustração acima, contavam-se com os dedos duma só mão os colonos que ocupavam efectivamente as terras ditas “portuguesas”. Mesmo com aqueles presentes, quem mandava na verdade eram alguns Gregos que até hoje ninguém me soube explicar o porque da sua presença. Um deles de nome Kristosolos Kristus, (ou qualquer coisa do género), chegou a ter o monopólio de fabrico e venda de pão, inicialmente destinado apenas ao consumo dos poucos ″brancos” e asiáticos, sendo que, qualquer “Preto” que tentasse entrar na Padaria pretextando COMPRAR sublinhe-se, pão, não pedir, vejam só, levava um valente chuto no traseiro! Só nos finais da década Sessenta é que alguns assimilados reconhecidos, tinham acesso a aquisição do precioso alimento. Recordo-me de um dia em que o falecido marido da minha mãe mandou-me comprar pão tendo-me esquecido de levar comigo o seu (dele) Cartão de Identidade de Assimilado. Depois duns ásperos e grosseiros berros, foi preciso recorda-lhe que eu era o (filho do Cipai Kandiya, assimilado), para ser autorizado a comprar. Após a construção da Linha Férrea que ligava o Povoado à cidade de Inhambane, a Povoação ganhou outro estatuto. A zona baixa da actual vila passou a ser reconhecido por Txiporroni, (Txiporro – linha férrea). Para conhecimento dos leitores que não fazem ideia de onde fica essa Povoação, basta dizer que do Cemitério de Nhlangueni em Maputo para o Cemitério de Inharrime, no sentido Sul-Norte são nem mais de menos 400Kms. Que os Colonos fizeram todo o tipo de sacanice, disso ninguém deve nunca ignorar. Mas dos Administradores coloniais que passaram por Inharrime, que cada um dos quais recebeu uma alcunha, Mário Marques de Matos, (Mabulukwane, – calças à boca de sino), foi quem deixou a sua marca registada entre os anos 1959/62. Desenhou o actual traçado da Vila e construiu onze casotas tipo um para os Cipaios e concebeu um Jardim dividido pela principal Rua que nasce na N1, até à Sede do Governo Distrital (cerca de um km.) no sentido Leste Oeste. O Jardim, um encanto diga-se, estava a cargo de umJardineiro de nome Makhandanyane, trazido de Lourenço Marques (Maputo) onde trabalhava no Jardim ″Vasco da Gama” hoje Jardim Thunduru. Ai de quem ousasse arrancar uma única pétala das lindas flores que ornavam o Jardim mesmo no centro da Povoação Comercial e rente a EN1! Recordo-me com muita nostalgia que passávamos as tardes dos Domingos, com as nossas namoradas, tirando fotos e descansando nos bancos que lá se encontravam. Hoje, os dois locais que outrora eram Jardim, transformaram-se num verdadeiro “Antro” de vendedores informais e ambulantes. Com tanto espaço existente na Vila, aqueles “desgraçados” tinham de invadir e vandalizar aquele Jardim! Deixo bem claro meu amigo leitor, que é de livre arbítrio você se deixar levar ou não ao pensamento de que estou falando a verdade ou não. Acredito e deixo a minha mensagem para aqueles que fazem de sua vida o melhor de si em beneficio do bem-estar do próximo, que o desenvolvimento da Vila sede de Inharrime, passa necessariamentepela restituição do Jardim. Até porque os vendedores informais e ambulantes, diariamente correm o risco de atropelamento, pois da N1 passam por dia milhares de viaturas a velocidades perigosas. Espero que a nova liderança do Distrito consiga disciplinar aquela confusão que destoa grandemente a Vila. Bem hajam os Inharrimenses pelo seu dia e mais não disse!



