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SOBRE OS PAÍSES SOCIALISTAS

Por admin
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Durante a luta de libertação e depois da independência, houve excelentes relações com todos os países do leste. A Bulgária, a RDA, a Roménia, a Jugoslávia a Coreia do Norte sempre nos prestaram apoio militar, financeiro e logístico.

 O Vietname apoiou-nos, mais não fazendo a braços com a terrível agressão americana. Cuba, passado um período inicial de mal-entendidos, esteve connosco e de modo exemplar a partir de 1978. As relações com a Hungria desenvolveram-se apenas depois da independência e por mérito especial dos militares, com destaque para o então CEMG István Ollah e o Ministro da Defesa Lajlos Cineger.

A degradação do parque imobiliário nos nossos países merece uma referência. Uma tarde, com o Ministro Lajlos Cineger estava num jardim em Budapeste, junto a um centro comercial que as senhoras visitavam. Durante a nossa conversa, um cavaquear amistoso, elogiei a beleza da cidade e a excelente conservação da parte velha. Cineger diz-me então:

Ah, meu amigo, quando o povo começou a habitar estas casas, meteu galinhas nos guarda-fatos e terra nas banheiras para cultivar milho.

Desatei-me a rir às gargalhadas e, perante a surpresa do ministro, expliquei o meu riso:

Ministro, Samora mandou-nos explicar aos moradores, aos que haviam construído as casas e só podiam habitar as palhotas, como cuidar das casas. Galinha, milho, cabritos e porcos nos apartamentos, meu amigo, isso faz parte da lei do desenvolvimento das conquistas populares e do socialismo.

Mantiveram-se, porém, mornas as relações com a Polónia e a Checoslováquia pós 1968, que faziam o fornecimento de navios para o transporte de tropas ao Governo Português, no caso da Polónia, assim como no caso de Praga, camiões TATRA para as forças armadas coloniais. As explicações fornecidas por esses dois países de que se tratavam de meras relações comerciais violavam, frontalmente, as sanções decretadas pelas Nações Unidas, esvaziavam de conteúdo as mais que abundantes declarações de solidariedade.

Viajámos para Hanói em Setembro de 1971, com a Senhora Thin Binh, na altura Ministra dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório do Vietname do Sul e membro da direcção da Frente Nacional de Libertação. Hanói vivia sob a ameaça dos B52. Cada um largava sete bombas de 7 toneladas cada. Nunca vinha um só avião, mas dezenas. Cada bomba arrasava um espaço equivalente a dois campos de futebol na sua dimensão máxima. As casas dispunham de um abrigo, e ao longo das ruas multiplicavam-se abrigos individuais e colectivos. O Vietname vivia em abrigos. Fábricas laboravam sob a terra Construíram-se numerosas estradas por baixo da terra que ligavam os portos do Norte até ao Camboja, Laos e ao Sul do país. Os camiões com armas, munições e diversos abastecimentos logísticos circulavam durante os bombardeamentos, a mais conhecida a Estrada N.º 9 conhecia-se no Ocidente sob o nome de Pista Ho Chi Minh.

A Força Aérea dos Estados Unidos apenas atingia as machambas, florestas e as construções à superfície, assim como as pontes e vias-férreas. A Batalha da Estrada Número 9 ficará registada na história épica do Vietname e dos povos com o mesmo esplendor que a Batalha de Dien Bien Phu. O General Nguyen Vo Giap dirigiu ambas.

O dia do encontro com Pham Van Dong, 29 de Setembro, coincidia com os 38 anos de Samora. Pham Van Dong, já nos setenta e muitos, carinhosamente deu-lhe os parabéns e abriu champanhe.

A conversa. Retratou-nos a longa história de combates do Vietname pela sua libertação e unificação. Procurava tirar ensinamentos que pudessem mostrar-se úteis para nós. Insistia no imperativo de alargarmos as nossas bases de apoio internacionais, diminuirmos e minarmos os apoios internacionais ao colonialismo e aos sistemas racistas. Destacou o valor da Conferência Internacional de Roma em apoio aos Povos das Colónias Portuguesas e o encontro com o Papa Paulo VI. Repetiu-nos as observações de Chou En Lai sobre a fragilidade das retaguardas africanas e aconselhou-nos a não expormos publicamente os nossos princípios, pois, isso poderia isolar-nos em África e facilitar a acções inimigas. Mencionou, o Primeiro-Ministro Pham Van Dong, que cedo ou tarde, se resolveria para melhor o relacionamento entre a China e a URSS.

A RDA, a Bulgária, a Roménia, sempre enviaram delegações de alto nível do BP e do Estado ao nosso país e os seus dirigentes máximos vieram a Moçambique, Honnecker, Jivkov, Ceausescu. Nenhum país nos cobrou um único centavo pelo apoio prestado durante a guerra de libertação. Tudo donativos de solidariedade e sem qualquer exigência de contrapartida. Nada pagamos.

Ao avaliar as nossas relações com os países socialistas, recordo-me sempre dos ensinamentos de Samora a propósito desta questão:

Nunca devemos confundir os erros dos amigos, com as acções dos inimigos.Houve erros nossos e deles. Sobrestimamos a estabilidade deles, que só assentava na aliança com a URSS.

Um abraço ao dever de gratidão e amizade,

Sérgio Vieira

P.S. Discute-se se existe ou não um recuo da pobreza no nosso país. Para além das estatísticas e dos critérios que uns e outros utilizam, há que verificar vários dados, para que o quantitativo e o qualificativo se aproximem.

Pese a fraqueza da qualidade do ensino, há ou não um recuo do analfabetismo? Se isso se constata, então a pobreza diminuiu. Mas e resta o essencial: a qualidade do aluno com a 7.ª classe ou até um diploma de ensino superior. Diminuiu a distância média da casa na povoação para a maternidade e o posto sanitário?

Qual o número de bicicletas nas zonas rurais? Casas de alvenaria? Celulares? Aparelhos de TV? Refiro-me ao campo e não às cidades? Como comparamos estes números actuais com os de há 10 ou 20 anos?

Há que abraçar e saudar o progresso, embora o actual não nos satisfaça, 

SV

R.P.S. Compartilho com as preocupações do Mia Couto, na sua intervenção na recente Gala da STV. As vítimas dos raptos não são eles, mas todos nós.

Partilho a angústia semeada por ovelhas ranhosas na polícia, que destroem a nossa confiança na instituição. Há que purificar as fileiras e qualificar os agentes.

Espero que na revisão do Código Penal a Assembleia decida punir com a maior severidade os raptos, violações, crimes contra menores, tráfico de gentes e droga. O meu abraço a isso,

SV

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