
António Vasconcelos mora no bairro T3 e é professor do ensino primário no bairro da Liberdade, município da Matola. De casa ao local do trabalho são quase dez quilómetros, distância que de viatura particular podia cumprir em menos de meia hora. Sem carro próprio, faz uma reserva de pelo menos duas horas e ainda tem de fazer ligações, de contrário, o atraso é uma certeza.
O quotidiano de António Vasconcelos é semelhante ao de milhares de citadinos de Maputo e Matola, que semana finda viram a situação agravar-se com a paralisação de actividades pelos trabalhadores da Empresa Municipal de Transporte Público de Maputo (EMTPM), os quais queixam-se de atraso no pagamento de salários e retirada de subsídios estipulados em tempos de bonança.
O tempo agora é mesmo de cortes e os “chapeiros” estão também a encurtar rotas, obrigando a classe trabalhadora a pagar duas vezes pela mesma viagem.
Lá na Matola, no bairro T3, a situação é caricata: homens, mulheres e crianças acotovelam-se, empurram-se e até se chamam nomes menos recomendados para fazer as ditas ligações da paragem mais próxima da terminal. Pagam por uma distância de 200 metros os mesmos nove meticais que desembolsam para os 25 quilómetros que os levam à cidade de Maputo.
Gonçalves Tamele, morador daquele bairro, sugere a autorização pelas autoridades a todos interessados em transportar pessoas “porque os anos passam e não encontramos soluções para o transporte. Fazemos ligações na presença dos fiscais. Deviam autorizar pessoas sem licença a nos transportarem nas horas de grande procura”.
As lideranças das associações dos transportadores encolhem os ombros quando questionados sobre a ilegalidade e até atiram “pedras” para os utentes, acusando-lhes de promotores de ligações com o argumento de que podem pagar e quem pode manda.
Ricardo Muhave, presidente da União das Cooperativas dos Transportadores Semi-colectivos da Matola (UNICOTRAMA), não hesita em sublinhar que são os passageiros que promovem as ligações.
“Nós podemos penalizar o motorista e parquear a viatura. Já fizemos isso, mas os próprios passageiros viram-se contra nós e exigem que lhes autorizemos a fazer ligações porque é um direito. Sabemos que não é justo, mas é o que está a acontecer neste momento”.
Muhave até generalizou a situação afirmando que o mesmo cenário pode ser confirmado noutros bairros da Matola, como Machava-Socimol, Malhampsene ou Khongolote.
Ele respondia a perguntas colocadas pelo edil da Matola, Calisto Cossa, que foi ao bairro T3 realizar mais uma “Presidência na Terminal” para perceber de perto o que realmente estava a acontecer para famílias inteiras encurtarem o sono e fazerem-se às ruas à madrugada, quando o horário normal de trabalho inicia às 07.30 horas.
O líder da UNICOTRAMA argumenta que a melhoria da situação está dependente do aumento de meios circulantes, os quais, nas suas palavras, reduziram significativamente devido à danificação das vias por causa da chuva e também ao preço de transporte que não estimula os moçambicanos a investirem no sector.
Calisto Cossa diz que não é bem assim. No entender do autarca, o principal factor é a (des)organização dos próprios transportadores e passageiros nas terminais, mesmo reconhecendo que a oferta está longe de responder satisfatoriamente a demanda.
Sustenta que a situação é “preocupante” e enquanto não houver capacidade de comprar mais autocarros é importante definir e implementar soluções conjugadas para minimizar o problema.
“O aumento de meios, por si só, não vai resolver o problema. Devemos encontrar soluções conjugadas, como o crescimento da frota, a manutenção das vias de acesso e dos próprios autocarros. As associações e a Polícia Municipal também devem fazer o seu trabalho com zelo. Devemos unir esforços com o sector privado para encontrarmos soluções sustentáveis. O transporte ferroviário pode ser solução para muitos bairros da Matola”.
Entretanto, a Empresa Municipal de Transporte Público da Matola (ETM), à semelhança da sua similar de Maputo, está a experimentar dificuldades para cumprir com o seu programa de operações.
A tarifa social de sete meticais revela-se insustentável para suportar os custos de manutenção, pagar salários e fazer investimentos. Os cortes sucedem-se e as ligações idem.



