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Páscoa celebrada com apelos à paz e ao diálogo

Por admin
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As celebrações do Domingo de Ressurreição (Páscoa) que hoje se assinalam em todo mundo devem servir para o nosso país como um momento oportuno para os cristãos em particular e os moçambicanos no seu todo reflectirem sobre os caminhos a trilhar para a preservação da paz e reconciliação nacional, não obstante as crises social, económica e a tensão político-militar que se registam em algumas regiões do país.

 

Como celebrar o Domin­go da Páscoa numa altura em que o país regista a degradação de valores morais, calami­dades naturais e a tensão políti­co-militar é a pergunta que fize­mos às lideranças religiosas, as quais em uníssono responderam que era necessário abandonar o egoísmo e reconhecer o outro como peça fundamental para a harmonia social e política.

Semana finda, as igrejas estiveram repletas de gente de todas as idades, ávida em rezar, pedir perdão e sobretudo para rogar a Deus para que interceda no sentido de restaurar a moral que nos últimos anos tende a fi­car para trás.

Até pessoas que há bastante tempo não pisavam numa igre­ja, na Semana Santa deram-se tempo de visitar uma capela, paróquia para reconhecerem que Jesus Cristo tem o poder de salvar a humanidade.

Em razão disso, as igrejas ficaram abarrotadas de fiéis que para além de rezar pretendiam ouvir do prelado mensagens típi­cas destas ocasiões e sobretudo a sua visão face à degradação dos valores morais.

As lideranças religiosas não defraudaram as expectativas do seu rebanho tendo tocado no âmago dos problemas que se registam, mas recomendando o recurso à oração como única for­ma de vencer esses males.

Tais enchentes, de que esta­mos a falar foram constatadas nas igrejas de São Joaquim da Munhuana, Presbiteriana do Chamanculo, Evangélica Assem­bleia de Deus do Alto-Maé, An­glicana São Cipriano, Metodista Unida da Malanga, só para citar alguns exemplos.

Nessas confissões religiosas a nossa Reportagem não perdeu oportunidade de colher junto das lideranças e alguns leigos a opinião no concernente às crises social, económica financeira e a tensão político-militar no país.

FALTA DEUS NO CORAÇÃO DOS HOMENS

O Arcebispo da Arquidiocese de Maputo, Dom Francisco Chi­moio afirmou que a degradação de valores morais prende-se com o facto de as pessoas pre­tenderem edificar a casa de Deus que é igreja sem a presença dele (Deus) nos seus corações.

“Se você reconhece o outro como tendo sido criado à ima­gem e semelhança de Deus, não há motivo para o ódio e não partilha das riquezas, até por­que se fizer mal ao outro está a fazer a si mesmo. Portanto, o problema é a falta de Deus no coração dos homens, que con­corre para a deterioração de valores morais, falta de trans­parência, coerência de respeito.

Devemos ser humildes…

– José Manteigas, católico

José Manteigas despiu a camisola da sua formação política e na Sexta-feira Santa foi rezar na Paróquia de Nossa Senhora das Vitórias, onde participou na Via-sacra, o centro da celebração da Paixão do Senhor.

Para ele, o desvio moral que se verifica na sociedade deve-se ao facto de os moçambicanos ainda não se terem reconciliado, por um lado, e por outro, por o Estado não exercer devidamente o poder instituído constitucionalmente.

“Portanto, o país tem que estar reconciliado para se celebrar no verdadeiro sentido a Páscoa. Ou seja, as pessoas deixarem de ser orgulhosas, porque a Sagrada Escritura nos ensina a sermos humildes e sobretudo no seio dos políticos e governantes, porque querem salvaguardar o interesse pessoal”, disse Manteigas, para quem é preciso parar e ouvir o clamor do povo para que a celebração da Páscoa tenha verdadeiro sentido.

 

 entre as pessoas, porque cada um pensa que é o centro de tudo, quando na verdade Deus é que é o centro de tudo”, disse Dom Francisco Chimoio.

Aquele prelado acrescentou que o mais grave é que as pes­soas preocupam-se com coisas materiais deixando Deus para depois. “Portanto, quando nós queremos construir a nossa casa, cidade, o país, esque­cendo a presença de Deus, somos condenados a sempre falhar. Se saímos das mãos de Deus é a ele que devemos voltar e deixarmos das des­confianças que existem nos homens”.

No concernente à tensão polí­tico-militar, o timoneiro da Igreja Católica no país mostrou-se op­timista quanto à sua solução, o mais breve possível pedindo que as partes em conflito saibam fa­zer cedências mútuas.

“A paz é um processo que leva o seu tempo. Portanto, celebramos a Páscoa dese­jando de facto que as pessoas envolvidas nesta situação te­nham a necessária atenção e respeito pelas suas próprias vidas e das outras pessoas”, disse.

“Nós estamos confiantes de que o sofrimento que es­tamos a enfrentar associado ao de Cristo possa levar as pessoas a terem a atenção e a procurarem os meios indis­pensáveis para chegar a paz que tivemos a possibilidade de desfrutar durante mais de vinte anos”, explicou Dom Francisco Chimoio, ressalvando que o apelo ao cessar-fogo feito no encontro com o Chefe do Es­tado em Dezembro último contI­nua válido.

“Estamos esperançosos que as pessoas envolvidas no processo hão de pôr a mão na consciência e dizer basta de violência em seguimento ao nosso apelo em que disse­mos não à violência armada. Nestas celebrações pascais reiteramos a necessidade do abandono absoluto do uso das armas e opção por um di­álogo profícuo e eficaz”, reite­rou aquele prelado sublinhando que a mensagem não é dirigida apenas aos políticos, mas tam­bém a todos cidadãos para que promovam paz nas suas famí­lias, “porque quando as pes­soas fomentam confusão nas suas residências não estão a respeitar a vontade de Deus e muito menos a criar a paz. Todos devemos dizer basta a guerra”.

A PÁSCOA TRAZ-NOS ESPERANÇA

Joaquina Nhanala, bispa da Igreja Metodista Unida de Mo­çambique entende que ao cele­brar a Páscoa, os moçambicanos de um modo geral e os cristãos em particular devem ter nas suas mentes, “que esta cele­bração traz-nos a esperança, o castigo ao pecado e o per­dão aos pecadores. Isto é, é um evento que nos mostra a fraqueza da própria morte e a vitória de Jesus Cristo ressus­citado”.

Para ela, os problemas so­ciais que se registam é porque as pessoas abandonaram a cren­ça e o sentido da igreja. “Temos que celebrar a Páscoa tendo nas mentes que Deus é con­trário à perseguição de pes­soas albinas, raptos e tráficos de órgãos humanos”.

Relativamente à tensão po­lítico-militar, Joaquina Nhanala diz que é chegado o tempo de as pessoas perceberem a irrelevân­cia do derramamento do sangue entre os moçambicanos.

A Páscoa é o cerne da fé cristã, sem esta festa a fé é vã. Portanto, esta celebração é o fulcro das nossas vidas. É neste período que temos que levar esperança e consolação às vítimas da guerra e denun­ciar todos aqueles que aten­tam contra a paz ao mesmo tempo que os persuadimos a promover a tolerância e har­monia social”, disse Joaquina Nhanala.

Sublinhou que as partes em conflito têm que dar passos em frente e que não basta um di­zer que está disponível e outro impor as pr -condições. “ Com diálogo ambas as partes saem vitoriosas, pelo que tem que haver abertura em que cada um saiba negociar o disponí­vel e fazer cedências para che­gar ao consenso em relação às divergências”.

AS NOSSAS CONVIÇÕES CHOCAM

COM A VERDADE DIVINA

Por seu turno, Marcos Maca­mo do Conselho Cristão de Mo­çambique diz que Deus também sofreu traição, inclusive das pes­soas religiosas que o seguiam, mas que veriam a ser perdoadas através da sua morte e ressur­reição.

“Às vezes, as nossas con­vicções pessoais chocam com a verdade divina. Deus é pela justiça, amor e verdade e o homem foge dessas coisas. Não é porque em Moçambi­que não sabemos onde está a solução dos problemas, mas o homem pela sua essência foge da verdade”, disse Marcos Macamo, para quem a ressurrei­ção Jesus Cristo vem obrigar as pessoas a uma reflexão profunda sobre os problemas do país.

E acrescentou: “não são as pessoas que detêm o poder sobre a palavra paz. Ela em si é o poder, como diz o Apóstolo São Paulo que o Evangelho é o poder. Portanto, a palavra de Deus não volta vazia. Irá tocar muitos corações através dos actos benéficos.

No seu entender, o país de­senvolveu-se rápido nas infra­-estruturas e noutros sectores, mas esqueceu-se de edificar o interior do homem que é o tecido social sendo resultado disso a degradação de valores que esta­mos a assistir.

Num outro momento, aquele líder religioso disse que nunca ouviu quer as lideranças religio­sas, dirigentes a vários níveis a pedirem desculpas a Deus ou a Nação pelos erros cometidos

“Nós rejeitamos a fé e a igreja. Há os que dizem que lutaram e libertaram o país sem ajuda de Deus, pelo que são capazes de tudo. Daí que esquecem que onde termina a sua força, começa a suprema que traz a solução que não conseguimos com as nossas forças limitadas”.

Segundo Marcos Macamo, os moçambicanos ainda não se li­bertaram do passado tenebroso do colonialismo português.

Marco Macamo diz não com­preender como é que algumas pessoas não aceitam ser cha­madas de “camaradas”. Ainda transportamos alguns vestígios do tempo colonial. “Temos o termo “camarada” por exem­plo, que é restrito para um grupo de pessoas, mas seria bonito que esta palavra fos­se para todos nós, incluindo todos os partidos políticos porque Jesus Cristo com a sua morte mostrou camarada­gem e solidariedade, pelo que temos de rebuscar aqueles termos que foram usados no tempo da revolução que não percebíamos a sua riqueza, para não criar ilhas entre nós, uma vez que são essas ilhas que culminam nas tensões políticas”.

 

 Não ficar indiferente ao sofrimento do outro

 

 – António Laice, leigo da Paróquia Nossa Senhora das Vitórias

 

 António Fernando Laice é outro leigo que encontramos a participar na Via-sacra, “nas Vitórias” e para ele, ao celebrar a Páscoa, os moçambicanos devem ter esperança de que as dificuldades do momento serão resolvidas através da sua fé e crença em Deus.

“Não podemos ficar indiferentes perante o sofrimento dos nossos irmãos. A ressurreição de Jesus Cristo representa a vitória da vida sobre a morte, do bem sobre o mal, portanto, os males que estão a acontecer, acreditamos que com a oração e vigilância, reconciliação, esperança, poderão ser ultrapassados a breve trecho”, disse António Laice sublinhando que sendo os cristãos o sal e luz na terra devem optar pela justiça em seguimento aos ensinamentos de Jesus Cristo.

 

 Nyusi saúda cristãos

 

 Por ocasião da Semana Pascal, o presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi, saudou os cristãos de todo o mundo e, de forma muito especial, as comunidades cristãs moçambicanas, no País e na Diáspora.

Para o estadista, a Páscoa é um dos mais importantes acontecimentos do calendário cristão que celebra a ressurreição de Jesus Salvador e um momento em que os cristãos exaltam valores nobres como o perdão, a tolerância, a solidariedade e a paz.

Neste processo de introspecção, sacrifício e purificação iniciado na Quaresma, encorajamos a Comunidade Cristã, e não só, a celebrar a Páscoa como a luz para as nossas vidas e para os nossos caminhos”, lê-se a dado passo na mensagem do chefe do Estado moçambicano.

Inspirados no espírito Pascal, Nyusi apela aos moçambicanos a cultivar o amor ao próximo e a reconciliação, a afastar a vaidade e a violência, vivendo em harmonia e construindo o projecto de nação.

Falando em nome do seu governo, Filipe Nyusi disse que “continuamos firmemente empenhados na busca da Paz efectiva, uma Paz que deve residir no coração de cada um de nós, acima de quaisquer diferenças que possam existir”.

Para ele os clamores pela Paz do nosso Povo superam o ódio e todos os argumentos que possam ser evocados para sustentar o seu adiamento, pelo que insta que “a razão da Páscoa viva em todos nós, fazendo brotar a esperança de que unidos e em Paz construiremos uma Nação que todos festejamos como uma pertença comum”.

 

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