Início » QUADRA FESTIVA: Festa de Natal no povoado de Mahubo

QUADRA FESTIVA: Festa de Natal no povoado de Mahubo

Por admin
179 visitas
A+A-
Reset

O Natal chegou, e Mahubo comemora à sua medida. É tempo de festejar em família sem se importar com a abastança. “Aqui fazemos as coisas à nossa maneira”, afirmam os moradores. É mesmo assim. Prova disso é que o xidangwana, uma bebida tradicional do sul de Moçambique, vai à mesa, melhor, à esteira, no lugar da cerveja. As substituições não param por aqui. Entra a xima e sai o arroz. Motivo? “A xima vai bem com o mal-coado”, defendem alguns festeiros.

As comemorações do Natal e do Fim de ano carregam consigo um significado simbólico incomensurável. Os motivos religiosos aparecem em medida significativa como um importante factor para a sensibilização das massas, e mostram-se como pretexto para união dos indivíduos, para a manifestação de amor.

Por estas alturas, uma fronteira abstracta, porém significativa, separa uma era da outra, deixando para trás acontecimentos que se repartem entre agradáveis e não agradáveis.

A escassos dias da linha imaginária do 2017, os habitantes de Mahubo, distrito de Boane,província de Maputo, apartam-se do difícil ano de 2016 marcado por seca e fome, resolvem as suas equações e lançam-se às festividades à sua maneira, sem árvore de Natal ou sequer qualquer outro enfeite que faça jus ao momento.

domingo esteve lá e traz depoimentos de cidadãos que, não obstante as dificuldades sob ponto de vista social, político e económico, restauraram os ânimos e ajustaram os paus para garantir festas felizes.

A nossa reportagem ouviu e registou dos seus interlocutores de Mahubo que, hoje em dia, já não há tanta fartura como antigamente, quando “as nossas festas eram sinónimo de muita carne assada, de todos os tipos e gostos”, diz Paulo Nhantumbo, de 66 anos, pai de dezasseis filhos.

Aquele lugar, conforme testemunhou, já foi a ‘terra do gado’: “eu próprio tinha mais de cinquenta cabeças”. Mas a vida mudou, de tal forma que, para decepção da maioria dos produtores, “compramos carne na vila de Boane para garantir a quadra festiva”.

Lá se foram os tempos das vacas gordas, “tínhamos carne à fartura”, para dar e vender. Nada que pudesse ser substituído pelas oito galinhas conseguidas para dar conta dos mais de trinta elementos da família Nhantumbo, que se juntam para estas comemorações.

Afinal, “é um momento importante para mim e para os meus. Unimo-nos nesta data em nome de Cristo. Não sei argumentar o porquê disto, a verdade é que fazemos a festa e deixamos para trás todas as nossas desavenças”, garante.É o Khisimusi operando maravilhas na vida das pessoas. A magia expande-se e toca as famílias, injectando alegria e enterrando de preferência as mazelas, que passam a fazer parte do passado.

 

 Amélia Tembe, de 47 anos, mãe de quatro filhos e avó de seis netos, encontra no Natal o momento “certo” para a purificação de todas as suas desvirtudes.

A partir do dia 23 transformo-me espiritualmente, preparo-me para lavar a minha alma e aceitar, igualmente, os outros com todos os seus defeitos. Quando se trata de parente vale tudo”, considera, “e o dia da Família é o momento preparado para perdoar e ser perdoado”.

E tratando-se de uma ocasião festiva, “preparei o meu bolinho e três franguinhos. É mesmo isto que vai à mesa. Já não há muita carne por aqui. Nos últimos anos passamos o Natal na privação. Estamos em crise. A chuva dificulta a nossa vida, mas os roubos também, há muitos marginais que nos tiram os nossos bens”.

Falta o à vontade para criação ou produção. Mas, sobretudo, cria-se limitações no direito de ir e vir… de brincar. “Os homens-catana actuam a partir das primeiras horas da noite. Já não nos divertimos à vontade. Inclusive nestas comemorações recebemos a orientação de não tocarmos música em volume alto, pois devemos estar atentos para acudir os vizinhos que, eventualmente, possam ser atacados”.

De qualquer forma, lá estão os habitantes daquele pedaço de Moçambique de pedra e cal, animados e motivados para cair na galhofa.

Aurélio Mandlaze, de 47 anos, pai de dois filhos e avô de duas crianças, iniciou os seus passos nesta agradável dança com uma semana de antecedência.

Debaixo de uma frondosa árvore de canhu, bebe, há vários dias, aos sorvos o seu “gostoso mal-coado”, uma bebida tradicional preparada carinhosamente por Teresa Machina, outra moradora da região.

Mandlaze preparou para a ceia um pato e duas galinhas. “Isto é suficiente para a minha família”, até porque não convidou nenhum outro elemento, pelas suas parcas condições financeiras.

À mesa vai a carne branca acompanhada de xima e da sua bebida de eleição, xidangwana. Aliás, em grande parte das famílias visitadas pelo domingo foi dispensada a cerveja e abraçado o líquidoanimador.Já Teresa Machiana, de 42 anos, mãe de três filhos, fabricante da bendita bebida, ressalta a sua contribuição no Natal de um elevado número de famílias das redondezas, uma vez que, “muita gente vem comprar em cinco litros ou mais, para garantir a festa em suas casas”, e congratula-sepor ser a fonte do líquido que garante a sua própria felicidade: “eu também bebo desta, diariamente, na companhia do meu marido, e neste Natal assim também o é”.

 

Entretanto, o cardápio natalício da sua família cinge-se a uma “Nyangana (verdura) e xima”. Não passa disso, até porque “já não há solidariedade entre os vizinhos. Cada um fica na sua!”.

Teresa refere que antigamente havia troca de presentes e de mimos. “Andávamos de um lado para o outro, comíamos da panela do vizinho e dos demais”. Mas esses tempos, refere, exauriram-se no passado.

BAIXO PODER DE COMPRA

Por estas alturas do ano, a azáfama é grande em centros comerciais e inclusive em pequenas bancas de venda de produtos alimentícios e de vestuário.

Em Mahubo, a população movimenta-se, por seu turno, nesse sentido, contudo a uma marcha de camaleão.

Comerciantes locais registam algum movimento, mas nem por isso suficiente para esfregarem as mãos de contente. Falta dinheiro nos bolsos do povo, quem garante é António Arouca, que pratica negócio de venda de diferentes produtos alimentícios há seis anos.Há, sim, algum movimento, até pela quadra festiva. Procura-se um pouco de tudo, mas o poder de compra é baixo, pois maior parte destas pessoas vive do que a terra dá, tanto para comer como para revender e obter dinheiro para suprir as suas necessidades”.

 

Mas, conforme aponta, “a terra zangou-se”, consequentemente, “as pessoas não têm quantias monetárias razoáveis para comprar o que necessitam; a produção não tem dado grandes rendimentos pela falta de chuvas”. As compras não passam de mil meticais, aliás, tampouco roçam esse valor.

De qualquer forma, há sempre um reforço vindo de outras bandas, pois “esta é terra de madjoni-djoni (trabalhadores da África do Sul) e de outros emigrantes que trabalham em países como a Suazilândia. Trazem consigo comida e bebidas e reforçam o brilho no olhar dos seus familiares”, conclui. 

 

Texto de Carol Banze

Artigos relacionados

Focus Mode