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CONFLITO DE TERRA: Camponeses burlados pelo respectivo presidente

Por admin
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Camponeses da Associação Samora Machel, no bairro de Guava, distrito de Marracuene, província de Maputo, sentem-se traídos pelo seu presidente, que o acusam de ter vendido as suas machambas sem consultá-los.

Os campos agrícolas dos associados encontram-se numa cintura verde, precisamente na parcela que separa o distrito de Marracuene e a cidade de Maputo. A partir do ano 2000 aquelas terras começaram a ser cobiçadas por empresários e estrangeiros.

A procura daqueles campos intensificou nos últimos tempos com a construção da Estrada Circular que passa por aquelas bandas tanto para Zimpeto, assim como para Macarruene.

Em 2013 apareceram dois empresários, dos quais um de origem asiática. Solicitaram ao presidente da associação dos camponeses que lhes vendesse aquelas machambas para construírem infra-estruturas comerciais e educacionais.

Os camponeses contam que o seu presidente, tentado pelos valores da compra, não vacilou e imediatamente entrou em negociação com os empresários, sem, contudo, auscultar os proprietários das machambas. 

Numa breve conversa com a nossa Reportagem, os camponeses, que estão revoltados com a atitude do seu representante, referiram que o negócio sempre decorreu no maior secretismo, falando-se de pagamento de 50 meticais por cada metro quadrado.

Nenhum dos agricultores aceitou envolver-se neste negócio obscuro. Entretanto, depois de várias tentativas, sem sucesso, de levar as terras, o presidente da associação adoptou uma nova estratégia. Começou a ameaçar os agricultores dizendo que quem não aceitar receber o valor vai perder a terra definitivamente.

A ameaça fez com que alguns agricultores, na sua maioria idosos, começassem a aceitar receber os valores.

Entretanto, a revolta dos camponeses acentuou-se a partir de Junho do presente ano, 2016, quando o empresário começou a exigir aquelas parcelas.

Aliás, o empresário deu na última segunda-feira um ultimato para que dentro de três dias lhe entregassem o espaço. Na altura foi questionado sobre o preço de compra das terras que foi acordado. Ele, sem falar das quantias, disse que pagou muito dinheiro que serviria para os serviços de limpeza.

Na passada quarta-feira movimentou máquinas para aquelas bandas para iniciar a abertura de vias. Os camponeses ficaram revoltados e não permitiram que as máquinas operassem. Para acalmar os ânimos foi necessária a intervenção da Polícia da República de Moçambique.

Dados revelados pelos camponeses indicam que o empresário informou que já pagou 75 por cento do valor acordado. O remanescente seria entregue mais tarde.

“FOMOS ENGANADOS”

Os camponeses consideram que foram enganados pelo presidente da sua agremiação, pelo empresário e pelos funcionários do círculo de Guava.

Alguns lembraram-se que em Maio do presente ano, 2016, o administrador do distrito de Marracuene orientou um comício naqueles campos de cultivo. Na ocasião, o governante anunciou que aquela parcela é cintura verde e que não deve ser usada para construir casas nem estabelecimentos comerciais, o que, infelizmente, não está a ser cumprido, pois actualmente estão a surgir habitações no meio das culturas agrícolas, há estaleiros, entre vários estabelecimentos comerciais.

Segundo os nossos entrevistados, na altura o administrador apelou aos camponeses para tratarem o DUAT dos seus campos. No dia a seguir ao do encontro com o administrador, a maior parte dos agricultores dirigiu-se para a administração a fim de tratar os documentos sugeridos pelo governante. No local foram informados por um dos funcionários que não havia fichas para o processo.

Osias Soto herdou a machamba do seu pai, trabalha aquelas terras desde o ano de 1996, produz alface, repolho e couve. Uma parte desta produção vende aos revendedores dos diferentes centros comerciais da cidade de Maputo e outra serve para o seu consumo.

Soto não concorda com a venda da sua machamba porque é a fonte do seu sustento. O nosso entrevistado acha que a negociação do espaço deve ser feita entre o empresário e o dono da machamba.

“O preço que acordado entre as duas partes é muito baixo. Esta machamba é o garante da minha vida. O que produzo aqui serve para resolver muitos problemas. Cinquenta meticais por metro quadrado é falta de respeito. Queremos uma conversa com esse empresário porque a informação que temos é que o valor corresponde apenas à compra da terra. E as nossas plantas quem vai pagar?”, interrogou Soto.

Por sua vez, Ângela Lambo, proprietária dum estaleiro que funciona naqueles campos, disse que está preocupada com a situação porque fez recentemente um grande investimento para proteger o seu material naquela zona pantanosa.

Ângela Lambo disse que o empresário apareceu na última segunda-feira e deu-lhe três dias para retirar a sua mercadoria.

“Não me vou retirar porque aquela machamba é dos meus avós. Não temos planos de a vender, quero desenvolver a actividade comercial ou produzir comida”,disse.

João Machine acrescentou que muitos camponeses aceitaram vender os seus campos porque foram ameaçados pelo presidente.

“Eu fui abordado mas decide não vender porque aquela é a minha fonte de renda. Deve haver troca de serviço justa. Nós devemos ficar com algo que nos vai permitir sustentar a nossa vida nos próximos tempos”,disse.         

EMPRESÁRIO INCONTACTÁVEL

Camponeses da Associação Samora Machel solicitaram uma reunião, que contou com a participação de organizações da sociedade civil, tendo como agenda as ameaças proferidas pelo suposto proprietário das machambas.

Os agricultores acorreram em massa ao encontro, contudo, para a sua frustração, o empresário, suposto proprietário das machambas, não apareceu.

Aliás, facto testemunhado pela nossa equipa de Reportagem é que o facilitador do negócio entre as duas partes, nomeadamente, empresário e a associação dos camponeses, dirigiu-se ao local combinado para a reunião, mas não desceu da sua viatura.

Entretanto, a nossa equipa de Reportagem entrou em contacto, na semana antepassada, via telefone, com o suposto empresário e comprador daquelas machambas. Ele disse que estava na África do Sul mas que podíamos procurá-lo numa outra altura.

Mais tarde, tentámos por várias vezes contactá-lo, mas sem sucesso. O seu telemóvel estava desligado até ontem. 

ADMINISTRADOR PROMETE AVERIGUAR

Pronunciando-se em torno deste imbróglio, o administrador de Marracuene, Avelino Muchine, disse que não tem informação pormenorizada sobre o sucedido.

Sublinhou que desconhece a existência de um DUAT sobre o projecto do empresário asiático.

Num outro desenvolvimento, Muchine referiu que brevemente vai mandar uma equipa averiguar o processo junto das partes envolvidas.

Texto de Abibo Selemane
abibo.selemane@snoticias.com

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