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DEFICIÊNCIA VISUAL: O quinto sentido de Rafael Bata

Por admin
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Revela-se perfeccionista. Gosta de ser bom no que faz. Ainda que tenha perdido um dos sentidos, a visão, o seu elevado nível de auto-exigência fê-lo resgatar o seu quinto sentido através da audição. Rafael Bata afirma que ouvindo a voz das pessoas consegue desenhar no seu imaginário a aparência física, e verdade seja dita: poucas vezes falha…

Rafael Bata ficou deficiente
físico aos 19
anos quando cumpria
o Serviço Militar em
1984, em Chibuto,
concretamente em Maqueze.
Recorda que no trágico dia estavam
ele e os colegas numa
trincheira, quando um projéctil
lançado por um morteiro caiu
próximo deles. Os outros colegas
tiveram morte instantânea.
"No momento até pensei que
fosse areia nos olhos que me
impedia de ver. Fui levado
para o Hospital Militar para
tratamento". Quando melhorou
foi levado de volta para a casa
dos seus pais em Maputo.
Aquela tragédia trouxe muita
frustração para a família. "O
meu pai era gordo, mas perdeu
peso em pouco tempo.
Mandou tirar das paredes da
sala os desenhos feitos por
mim. Traziam-lhe muita agonia.
Por causa da sua nova
condição mandou chamar a
família e declarou que quando
ele morresse a casa ficaria
minha".

Segundo ele, o que mais lhe
preocupava é que naquela altura
era raro ver jovens deficientes
visuais. No caso de adultos,
a maioria transformava-se em
pedintes nas ruas. "Eu não
queria aquele tipo de vida
para mim. Queria sentir-me
uma pessoa normal como as
outras".
Afirma que não foi fácil aceitar
a nova condição, mas fazia
de tudo para não mostrar a sua
fragilidade à família. "Se eu
fosse o primeiro a ceder ou a desistir de mim, imagina o
que os outros fariam?… vesti
a capa de homem forte para
consolar a minha mãe, particularmente".
Para consolá-la, compôs
uma música agradecendo aos
pais pela dádiva da vida.
A vida no seu leito familiar
não durou muito tempo. "Seis
meses depois, agentes do
Ministério do Interior vieram
levar-me em casa para frequentar
o ensino especial na
Beira. Mas, primeiro, passei
pelo Centro dos Mutilados de
Guerra na Matola".
A vida no Centro
dos Mutilados de
Guerra
Entretanto, nem tudo se ficou
pela tragédia. Com o passar
do tempo foi adaptando-se à
sua nova forma de viver.
No Centro dos Mutilados de
Guerra Quarto Congresso, sito
na província de Maputo, ficou
dois anos. A convivência naquele
centro contribuiu para que ele
se tornasse menos dependente
de terceiros.
Diz que foi uma espécie de
treino para a vida autónoma,
acrescentado à formação tida
no Instituto dos Deficientes
Visuais na Beira, província de Sofala, onde fez formação profissional
de PBx em Braille.
Com o passar do tempo foi
adaptando-se à sua nova forma
de viver. "Passei a centrar-me
e a apurar a audição e com
ela descobri que me podia
tornar uma pessoa normal",
conta.
As novelas
ensinaram-ME a
memorizar as vozes
das pessoas
As novelas ensinaram-no a
conhecer as personagens através
das vozes e a memorizá-las.
"Havia pessoas que me pediam
que lhes contasse os episódios
passados, pois eu já conhecia
todas as personagens só pela
voz", comenta entre risos.
"Quando pego nas mãos
das pessoas, tacteio-as e
memorizo o seu formato. Daí
que se aperto a tua mão ou
escuto a voz, já sei com quem
estou a falar", disse o nosso
entrevistado". Mais adiante
acrescentou que "desenho o
perfil físico das pessoas consoante
a sua voz. É assim que
guardo as pessoas na minha
memória. Gosto de abraçar as
pessoas porque assim sinto o
seu corpo e encaixo-o na imagem
que criei na minha mente",
explica.

Nem todos se
apercebem que sou
cego
Diz que nem todas as pessoas
se apercebem que ele é deficiente
visual. "Os cegos normalmente
andam de cabeça
para cima, mas eu não".
Quando voltou da Beira, o
seu irmão João Bata já era conhecido
nos meandros da música.
Muita gente frequentava a
casa deles para aprender com
ele a tocar viola-baixo.
"Lembro-me que um jovem
amigo do meu irmão que
frequentou durante um mês
a nossa casa não se apercebeu
que eu era cego. Um dia
tentou comentar um desenho
que estava estampado numa
das partes da casa. Tive de
lhe dizer que não via. Ficou
tão chocado que não voltou
mais", conta Bata.
Pa ra me ca sar tive
de falar com Deus
"Sonhei com o rosto da minha
esposa antes de a conhecer".
Bata é casado há 15 anos.
Mas confessa que na juventude
teve o receio de um dia se tornarsolitário por causa da deficiência
que contraiu na tropa.
Entretanto, estes receios
foram contrariados com o passar
do tempo quando esteve
na Beira a fazer a sua formação
profissional no Instituto de
Deficientes Visuais. "Quando
estava na Beira tive duas raparigas
pretendentes que um
dia lutaram por minha causa.
Confesso que me senti privilegiado.
Nunca pensei que
alguém fosse lutar por minha
causa um dia", confessa, entre
risos.
Revela que foi um jovem
muito namoradeiro. Quando
voltou para Maputo entrou no
mundo da religião e foi neste
ambiente que conheceu a sua
esposa. Quando quis casar teve
de estreitar mais ainda a sua
intimidade com Deus. Diz que
orava todas as noites pedindo
que o Altíssimo lhe mostrasse
a mulher com quem devia partilhar
a vida.
Segundo as suas palavras,
a resposta não tardou a vir. Sonhou
com o rosto da esposa antes
de a conhecer, afirma com
convicção."Eu ensaiava uma peça teatral
na minha igreja. Por motivos
alheios à minha vontade,
fiquei duas semanas sem
ir acompanhar os ensaios. Ao
longo desses dias, numa noite
sonhei com uma mulher clara,
de olhos grandes e bonita, a
fazer o papel de anjo Gabriel,
na peça teatral".
Quando retomou os ensaios
percebeu que as personagens
tinham sido trocadas e o papel
de anjo Gabriel estava a ser feito
por uma mulher, como havia
sonhado. Para Bata aquele facto
era o primeiro sinal do Criador
em resposta aos seus pedidos.
Segundo ele, teve de pedir a
Deus que lhe provasse que era
ela a mulher com quem devia
casar. "Na igreja que frequento
quando as pessoas adoecem
ficam internadas na
igreja. Desafiei a Deus que
se a mulher fosse aquela,
adoeceria naquela semana e
seria internada na igreja. E
ela ficou mesmo doente e foi
internada na igreja. Aí não
tive dúvidas. Era mesmo obra
de Deus". Conhecemo-nos e depois
casámos.
Contudo, nesse romance nem
tudo correu bem. Bata enfrentou
a família da sua companheira
que não concordava com aquela
união. Porém, o tempo encarregou-
se de convencê-los. Hoje é
pastor na sua congregação.

Texto de Luísa Jorge
luisa.jorge@snoticicas.co.mz

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