
O distrito de Majune localiza-se no centro da província de Niassa, a cerca de 200 quilómetros da capital provincial, Lichinga. A sede do distrito leva o sugestivo nome de Malanga. Em Maputo, a mais de dois mil quilómetros, a sul do país, existe um bairro e um mercado com o mesmo nome. Mas, é completamente diferente.
O mercado da Malanga, de Maputo, tem vida, agitação, mercadoria a rodos. É um “formigueiro” de gente. Entretanto, na Malanga de Majune nem pó! O comércio definhou porque quase toda a gente faliu devido ao negócio de tabaco que deu para o torto.
O distrito de Majune goza do privilégio de estar no centro de Niassa. A partir dali se pode ir para quase todos os cantos da província. Pena é que a única estrada asfaltada, sem buracos, lombas ou valetas, que se pode usar por ali é a que liga a capital provincial, Lichinga, a Marrupa, e que corta Majune pelo meio.
Quem se desloca directamente de Malanga para os restantes distritos com os quais Majune faz fronteira, nomeadamente Muembe, Mavago, Maúa, Mandimba e Ngaúma, enfrenta a turbulência das longas e dolorosas vias de terra batida, atravessa rios com pontes “duvidosas”, entre outros. Para evitar dores reumáticas, o ideal é dar a volta para Lichinga ou Marrupa e seguir por estradas mais ou menos bem tratadas.
À nossa equipa de Reportagem coube a felicidade de fazer uma paragem de “reanimação” na vila de Malanga, quando regressávamos de Mecula, outro distrito com características peculiares, e sobre o qual nos debruçamos recentemente. Ao vermos a placa com a inscrição “Malanga” e a respectiva seta para a esquerda, a curiosidade invadiu-nos.
Naquele curto trajecto que separa a placa do centro da vila, a conversa rodopiou em torno da razão de ser daquele nome. Infelizmente, os colegas de profissão estabelecidos em Niassa, com quem seguíamos, não faziam ideia do significado ou origem daquele nome na língua local, Jawa.
Por causa disso, fixámo-nos na teoria segundo a qual, aquele nome podia ter sido levado de Maputo aquando da “Operação Produção”, feita lá para a década 80, quando o governo de então decidiu povoar Niassa com supostos improdutivos recolhidos nas estradas de Maputo e não só.
Fruto daquela operação, parte da população residente nas cercanias de Lichinga e, por vezes, lá mais para o interior, leva apelidos típicos do sul do país, tais como Macuácua, Bila, Cossa, Nhanala, Magaia, Mahumane, Sitói, Muianga, Timane e até Rungo, Nguila e Mbata. Ali há Unidade Nacional propriamente dita. É comum ouvir gente a falar Changana, Ronga, Tswa, Chope e Guitonga nos mercados, bares e filas de ATM, hospitais e lojas.
Mas, ainda em torno do nome “Malanga”, para a população de Maputo e Gaza, este significa “Verão” e, ali onde está localizada aquela vila, em Majune, não consta que o Verão seja tão quente a ponto de merecer tamanho destaque. Mas, porque não havia resposta para as nossas dúvidas, contentamo-nos com a visita ao local.
Vila com rosto rural
Entramos na vila por volta das 10 horas da manhã. Estava fresquinho e o movimento de pessoas era fraco, fraquinho mesmo, a ponto de transitarmos por ruas inteiras completamente despovoadas. Dirigimo-nos à Administração do Distrito onde havia algum movimento de funcionários e de um punhado de cidadãos que procuravam tratar de questões administrativas.
O governo distrital estava reunido num alpendre para delinear novas estratégias de desenvolvimento, combate à pobreza, entre outros desafios que o distrito enfrenta. Para não perdermos a nossa manhã à toa, decidimos fazer um passeio pela vila. Haveria alguma nota de Reportagem solta por ai.
Porque naquela manhã não tínhamos acertado as contas com o estômago, juntamos o útil ao agradável. Empreendemos uma “caça” a um restaurante, “take away” ou algo de género para tomarmos um pequeno-almoço. Dada a nossa experiência de circulação pelo meio rural, não inventamos nada. Dirigimo-nos ao mercado. Em condições normais, há sempre uma casa de pasto com algo pronto a comer nas imediações.
Demos uma volta de reconhecimento visual e, nada. Desembarcamos e fizemos a incursão a pé. Nicles. Entabulamos conversa com este e aquele vendedor, ante o olhar curioso dos poucos compradores que por ali circunvagavam. Apontaram-nos um estabelecimento que habitualmente prepara refeições que se localiza para lá do mercado. Embarcamos e fomos ao tal sítio.
Por acaso, o espaço tinha cara de lugar onde se come. Mesas e cadeiras desbotadas, uma coluna e respectivo amplificador com marcas de bastante uso evidenciavam que em certas noites, aquilo vira “Coconuts”, de Maputo, “Ce q sabe”, de Nampula, “Monte Verde”, da Beira, Miau-miau” de Xai-xai ou “Sigana” de Tete. O chão não mentia. Havia marcas de rasgos de dança merecedores de aplausos e hurras!
Desviamos a nossa atenção para as prateleiras da casa, enquanto soltávamos um estrondoso “com licença”, já que até então não tínhamos visto vivalma por ali. Latas de sardinha e atum, saquetas de açúcar, pó de caril, massas, pacotes de fósforo, garrafas de cerveja e de óleo alimentar, e pouco menos.
Volvidos alguns instantes, apareceu o vendedor, um adolescente que nos confirmou que a casa preparava refeições mas, naquele dia só tinha ovos frescos. Pedimos sandes de ovos que engoliríamos com a ajuda de refrigerantes. Para nossa agonia, o rapaz repetiu que só tinha ovos, que os refrescos estavam quentes e que não nos aconselhava a comermos o pão local. “Não vale a pena. Não vão gostar”, disse.
Incrédulos e famintos abandonamos o local pois o rapaz sublinhou que seria difícil preparar algo àquela hora porque nem sequer tinha carvão. “Não tem bolachas”, insistimos. “Nada”, respondeu o vendedor. Engolimos em seco e, já sem rumo, recebemos indicações de que a administradora do distrito soubera que andávamos por ali e ofereceu um intervalo aos seus pares do governo distrital para nos atender. Corremos para o edifício da Administração.
Lurdes Massingele, administradora de Majune nem precisou que lhe colocássemos perguntas. Bastou a saudação de praxe e a apresentação para nos revelar que o distrito conta com cerca de 36 mil habitantes, maioritariamente camponeses que não se cansam de produzir milho, arroz, mandioca, batata-doce, mapira, tabaco, arroz e gergelim.
Disse ainda que o gergelim era uma cultura de rendimento introduzida em 2013, pelo que os resultados ainda estavam “assim-assim”, seria necessário mais algum tempinho para se ter a certeza de que o povo pode prosperar à custa daquela cultura.
Azares da “Malanga” de Majune
Mesmo a propósito de culturas de rendimento, Lurdes Massingele revelou que o tabaco era a cultura motora da economia local pois, os camponeses locais ganhavam algumas somas ao final de cada época e conseguiam realizar os seus sonhos de ter uma casa de alvenaria, coberta de chapas de zinco, adquiriam utensílios domésticos, móveis e, em alguns casos, electrodomésticos.
Mas, como não há bela sem senão, e segundo Lurdes Massingele, a empresa fomentadora impôs que os camponeses deixassem de produzir o tabaco “Barley” para produzir “Virgínia”. Mais do que uma mudança de nome, a troca de variedades tem implicações muito sérias em termos de tempo e esforço necessário para a sua produção.
É que, se toda a gente era capaz de trabalhar com o “Barley”, incluindo idosos e adolescentes, a nova variante exige uma força braçal e tempo que muitos adultos saudáveis não conseguem investir pois, é preciso estar o dia inteiro nas machambas a sachar, cuidar da folhagem, respeitar os horários de “medicação”, entre outros. De tão mimado que é o tabaco “Virgínia”, quando os camponeses souberam que tinham que passar a produzi-lo, a partir de 2011, apenas 79 camponeses aderiram.
Como resultado, a população local entrou em falência colectiva pois, na campanha de 2011 para 2012 poucos ganharam com a comercialização desta cultura, no ano seguinte o número foi reduzindo e por ai em diante. O fruto directo disso foi aquele que vimos no mercado da vila sede do distrito, ou melhor, na Malanga de Majune. “Muitos comerciantes encerraram as lojas e bancas por falta de compradores”, confirma Lurdes Massingela.
Preços asfixiantes
Porque os azares costumam andar sempre de mãos dadas, observamos que a vida por ali não é moleza. Os preços dos bens manufacturados são de tirar os olhos da cara. Aliás, a própria administradora do distrito enunciou uma frase que nos deixou mais do que claros dessa realidade. “Quem constrói uma casa aqui pode fazer um prédio em Maputo”. Nada poderia ser mais esclarecedor e sintomático.
É que, por ali, um saco de cimento custa 700 meticais quando há abundância. Imagine-se na época das “vacas magras”. Um quilograma de açúcar anda a volta de 50 meticais, e por ai em diante. Quase tudo o que é massa, bolacha, sumo, roupa, calçado e até lanterna é importado da Tanzânia ou do Malawi, porque produtos “Made in Mozambique” chegam lá com preços estratosféricos.
Bem dizíamos que o azar nunca anda só. Sem poderem apostar no tabaco os camponeses decidiram investir em culturas alimentares comuns mas, terão de enfrentar a imensa fauna que anda à espreita nas machambas. Segundo Lurdes Massingele, a partir do próximo mês de Março, haverá barulho nas margens dos rios na disputa pelo milho, melancias, abóboras, batata-doce, arroz, mandioca, entre outros.
Mas, nem tudo vai mal por ali. Pelo menos duas empresas de telefonia móvel já montaram as suas antenas por ali e é possível falar para o mundo sem ter que trepar em formigueiros de Muchém, ou em casuarinas. Por seu turno, a Electricidade de Moçambique (EDM) fez chegar a corrente eléctrica e, numa assentada registou um total de 725 potenciais clientes.
Apesar do governo distrital ter estado reunido à “porta fechada”, apuramos que um dos assuntos que se debatia era a possibilidade de se aproveitar a água do rio Lugenda e de um outro rio menor para produzir de forma permanente. Também estão em carteira projectos de estabelecimento de carpintarias e de introdução do ensino nocturno para melhorar a literacia dos funcionários públicos e não só.
Lurdes Massingele manifesta ainda o desejo de ver a linha que leva energia a Malanga a alimentar as aldeias e escolas localizadas ao longo do seu traçado. “Temos quatro povoados que devem ser abrangidos”, aponta.
Antes de abandonarmos Malanga, a sede de Majune, ainda demos uma volta pela vila à cata de algo comestível. A fome já agia de forma agressiva e fazia com que os estômagos rangessem a sério. Localizamos uma cantina onde tomamos de “assalto” o sector das bolachas, água e alguns refrescos que tinham tido uma passagem efémera pelo congelador.
Na saída, e já na estrada que liga Marrupa a Lichinga, vimos uma placa colocada em homenagem à rainha Bibi Achivanjiua, cujos restos mortais estão depositados na margem esquerda para quem segue naquela direcção, debaixo de uma árvore frondosa.
Os automobilistas locais e forasteiros são incentivados a abrandar a marcha, desligar a música, manter um silêncio total e, por vezes, caminhar descalços naquele pequeno troço tido como santuário. Conta-se que a tal rainha foi benfeitora para a população local, pelo que merece todas as honras. Há quem vá ao seu sepulcro depositar dinheiro e outros bens e, entre as preces de paz à sua alma, pedem a sua intervenção junto dos deuses e anjos, para dar sorte na vida.
Como é comum nestas circunstâncias, accionamos a máquina fotográfica para registarmos, nem que fosse, a enorme placa colocada na berma da estrada. O motorista, que diz ser useiro e vezeiro daquela via, tratou de impedir. “Nem sonhar”. Não valia a pena insistir. Regressamos sem a foto e sem saber o que teria acontecido se tivéssemos fotografado.



