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EDM em “saia justa”

Por admin
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A Electricidade de Moçambique (EDM) tem em mãos uma autêntica “batata quente”. Precisa desenrascar e investir rapidamente cerca de dois biliões de dólares no reforço das linhas de Alta Tensão (AT), subestações e rede de distribuição de Média Tensão (MT) para que apagões como os que aconteceram recentemente nas províncias de Manica e Sofala, e os que se dão em outros pontos do país nunca mais voltem a acontecer.

A equipa gestora da EDM está às voltas para ver se arranja dois biliões de dólares que, segundo contas feitas, e a que o domingo teve acesso, são vitais para evitar colapsos de corrente eléctrica, daqueles que deixam os clientes da empresa a experimentarem a amargura da vida, a escarnecer e maldizer da empresa.

Conforme apurou a nossa Reportagem, aquele montante deve ser investido num intervalo máximo de cinco a dez anos nas três regiões do país onde 815 milhões de dólares devem ser aplicados no reforço das linhas de transporte, subestações e rede de MT da região norte do país, 570 milhões de dólares para a região centro e 600 milhões de dólares para resolver os problemas de Maputo, Gaza e Inhambane.

Fonte do Conselho de Administração da EDM revela que todo aquele dinheiro, que agora está a ser angariado dentro e fora do país, não inclui projectos de electrificação rural, ou seja, a expansão da rede eléctrica a localidades, postos administrativos e aldeias.

O que torna a situação “barbuda” é que todos os componentes que hoje garantem o fornecimento de energia eléctrica, nomeadamente as centrais de produção, linhas de AT, subestações e linhas de MT parecem gémeos uniovulares no que se refere à falta de capacidade e estado de conservação. Está tudo velhinho e bem cansado.

Só para se ter uma ideia, as subestações que se encontram ao longo da linha que vai de Caia, em Sofala, até Nacala, em Nampula, tem mais de 30 anos de funcionamento, não possuem cabos de guarda, funcionam acima do limite, enfim. Na zona centro, é preciso garantir que as obras de reabilitação das barragens de Chicamba e Mavuzi sejam concluídas com êxito.

Por seu turno, na região sul impõem-se a reabilitação da central de Corumana, é preciso reforçar a capacidade de linha de Maputo-Matola-Infulene, resolver o problema da linha de transporte que vai de Maputo a Lindela, na província de Inhambane, pois esta funciona acima da capacidade e não possui cabo de guarda. 

Para agravar a situação, algumas das linhas de transporte que alimentam o território nacional são das mais longas do mundo, como é o caso da linha que vai de Songo, em Tete, onde se localiza da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), até à cidade de Awasse, a norte de Cabo Delgado.

Conforme se pode depreender, esta linha possui mais de 1500 quilómetros de extensão, o que a torna vulnerável a tudo e mais alguma coisa, como por exemplo, perdas de corrente, derrube para roube de cantoneiras, força do vento, relâmpagos, queimadas descontroladas, entre outros.

Aquela linha é a mesma que bifurca para Nacala, onde chega depois de percorrer cerca de 1200 quilómetros, e também vai até Lichinga, depois de seguir por mais de 1100 quilómetros. Como se o gigantismo destas linhas fosse pouco, todas elas transportam corrente eléctrica acima da sua capacidade e não tem cabos de guarda ou redundância

Por causa disso, se há um problema ou se se pretende fazer uma manutenção algures ao longo do traçado da linha, as províncias da Zambézia, Nampula, Cabo Delgado e Niassa ficam simplesmente às escuras e devem esperar até que os técnicos da EDM resolvam o problema.

Para fazer face a este quadro, a Electricidade de Moçambique deve construir uma segunda linha que deve ligar Caia à cidade de Nacala e construir centrais ao longo daquele trajecto, que podem estar localizados em Nacala, algures no rio Lúrio ou em Palma, distrito que está a acolher avultados investimentos na sequência da descoberta de jazigos de gás natural na chamada Bacia do Rovuma que se localiza no mar, ao largo de Palma e Mocímboa da Praia.

 

Défice de energia

Para as províncias de Manica e Sofala, o problema de qualidade de corrente eléctrica será resolvido quando as obras de reabilitação das barragens de Chicamba e Mavuzi, agora em curso, forem concluídas. É que, apesar das cidades de Chimoio e Beira serem alimentadas por estas duas barragens e por uma linha da Rede Nacional de Energia (RNE), que traz energia eléctrica da HCB, os sobressaltos de qualidade são frequentes e só enervam à clientela.

 

Conforme foi noticiado, recentemente, as barragens de Chicamba e Mavuzi foram colocadas fora de acção para permitir que as obras de reabilitação decorressem em condições de segurança. Entretanto, a subestação de Chibata, por onde entra a energia eléctrica vinda da HCB para as cidades de Chimoio e Beira, teve uma avaria grossa e aquela região passou semanas às escuras.

Porque em termos orçamentais aquela empresa está numa verdadeira “saia justa”, o apagão apareceu e, no local, não havia um transformador disponível para substituir o que estava avariado. Aliás, as mais de 120 subestações que a EDM opera não possuem transformadores de reserva por razões financeiras, conforme indica fonte daquela empresa. 

No caso das províncias de Maputo, Gaza e Inhambane, a situação é igualmente complexa e delicada. O contrato de fornecimento que a HCB possui com a sua congénere sul-africana, ESKOM, indica que a capacidade de transporte deve ser limitada a 300 Mega Watt mas, como é de imaginar, os níveis de consumo desta região sobem de hora em hora e já se situam em 430 Mega Watt, o que perfaz um défice de 130 Mega Watt.

Na verdade, a interligação entre Moçambique e África do Sul esgotou a capacidade de suportar consumos adicionais na região sul do país onde, coincidentemente estão em cursos vários projectos que demandam corrente eléctrica em quantidade e qualidade. Por exemplo, estão a ser projectadas e construídas fábricas de cimento em Matutuíne e Magude, na província de Maputo, e muitos prédios, cada um maior e mais moderno que o outro, na cidade de Maputo.

Curioso é que, para além de andar de “saia justa” em termos financeiros, para resolver os constrangimentos energéticos nacionais, a EDM também enfrenta um problema que poucos conhecem e que se relaciona com o preço de energia que a África do Sul pratica para vender energia excedentária.

Dados em nosso poder indicam que a ESKOM vende os 300 Mega Watt solicitados por contrato a um preço regular mas, a parte remanescente que a EDM adquire, que é estimada em 80 Mega Watt, é vendida a um preço que chega a ser 10 vezes mais caro. Os restantes 50 Mega Watt do défice são produzidos localmente pelas tais centrais velhinhas.

Consta que a solução deste problema está na construção de centrais que vão produzir energia eléctrica através do gás natural, como a central da AGGREKO, construída na região fronteiriça de Ressano Garcia, que tem estado a dar “um jeitinho” no reforço da quantidade de energia eléctrica que se consome em Maputo.

Sem este tipo de investimentos, os cortes e restrições de fornecimento vão continuar a acontecer, tendo em conta que o contracto de fornecimento que a HCB rubricou com a Eskom só caduca por volta de 2029 e, até lá, será preciso criatividade, vontade, coragem e, sobretudo, muito dinheiro para garantir que haja energia com qualidade para todos os moçambicanos.

É que, os projectos de produção de energia planeados para os próximos anos, nomeadamente Kuvaninga, Mavuzi, Chicamba, entre outros, minimizam mas não resolvem a questão do défice de energia para o país, pelo que “urge acelerar a construção de novas fontes de produção de energia bem com aprimorar as políticas de eficiência energética como forma de utilização racional da energia disponível”, aponta a nossa fonte.

 

Poupar para ir “aguentando”

Na verdade, o que se passa com a EDM é uma versão eléctrica de crise de crescimento na medida em que, nos últimos anos expandiu rede eléctrica para todo o território nacional, electrificando sedes de distritos distantes como Mecula, na no Niassa profundo, Funhalouro, lá no interior de Inhambane, Lalaua, em Nampula, entre outros locais onde a chegada da energia nem cabia nos sonhos.

 

Enquanto a energia eléctrica era levada por todos os cantos do país, a economia não ficou parada a ver a “banda a passar”. Vários investimentos públicos e privados se desenrolaram e a prova disso é que em 2008 a disponibilidade de energia estava acima do consumo e até havia energia excedentária para fornecer aos países vizinhos.

Entretanto, a partir de 2009, o país começou a registar um “boom” de iniciativas de investimento que demandaram energia que conduziu à inversão do cenário registado no ano anterior, incluindo a necessidade de se importar para satisfazer crescente procura.

Três anos depois, ou seja, em 2012, o incremento dos níveis de importação de energia foi ainda mais acentuado que quase não se fez perceber a entrada em funcionamento da central da AGRREKO. No ano passado, cerca de 15 por cento da energia consumida no país foi importada da África do Sul com recursos às tais tarifas que os sul-africanos praticam.

Observe-se ainda que como fruto da elevada procura, de 2005 a esta parte o consumo de energia no país tem estado a crescer na ordem de 70 Mega Watt por ano, o equivalente a 14 por cento, contra três por cento que os países da região registam, pelo que, se a EDM quiser seguir a esta pedalada, deverá investir pelo menos 150 milhões de dólares todos os anos em novas fontes de energia.

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