
O Vale do Zambeze, que se estende por Tete, Manica, Sofala e Zambézia, é uma imensidão de terra fértil, com água a escorrer “de 1 a 30”, como sói dizer-se. Tem gente pronta para produzir e infra-estruturas quase em condições de apoiarem a produção.
Entretanto, os rendimentos por hectare sempre mantiveram-se pequenos, como os cabos das enxadas ali usadas. Para dar a volta a este quadro, decorre um intenso programa de modernização de técnicas de produção com vista ao aumento da produção e produtividade.
O território coberto pelo Vale o Zambeze é vasto e rico. É a maior reserva de água doce da África Austral e, dado o seu potencial agro-climático, tem potencial para tudo. Agricultura, pecuária, turismo, produção de energia, enfim. Porém, no domínio agrícola só se cultiva o suficiente para não se morrer à fome, quando a terra pode dar o dobro ou mesmo o tripo do que tem dado até aqui.
Ao nível da produção de arroz, por exemplo, os camponeses desta região raramente colhem duas toneladas e meia por hectare, porque usam técnicas medievais com custos de produção elevadíssimos que tornam o arroz muito mais caro do que o importado.
A nossa equipa de Reportagem percorreu vários centros de produção das províncias da Zambézia, Sofala, Manica e Tete, todos prenhes de potencial, mas, onde a lavoura e sacha é feita com recurso a enxada, usam-se sementes com baixo índice de produtividade, a quantidade de água para a rega é determinada pelo olhar, enfim.
Por aquelas paragens, a utilização de adubos, insecticidas e outros químicos não obedece a regras científicas e até mesmo o espaçamento entre as plantas (compasso) é feito ao acaso, concorrendo de forma activa para fazer agravar a situação.
No somatório, a produção nacional, estimada em 230 mil toneladas, só dá para alimentar o povo durante uns quatro a cinco meses. Para fazer face aos restantes meses, é preciso importar 260 mil toneladas que nos chegam a partir da Indonésia, Paquistão, China, Vietname, entre outros da Ásia, onde as técnicas de produção são de domínio até da pequenada em idade pré-escolar.
À saída da cidade de Quelimane, em direcção ao distrito de Nicoadala é possível observar áreas que noutras partes do mundo estariam votadas à produção permanente, mas que carecem de intervenções de máquinas e de insumos para se tornarem muito mais produtivas e rentáveis.
Aumentar a produtividade
Porque este é um problema conhecido pelas autoridades do sector agrário, não foram necessários seminários e “workshops” para se identificar os passos a seguir para resgatar a produtividade daquelas terras. Um dos primeiros exercícios consistiu na identificação de parceiros e o mais cintilante é o Banco Mundial, segundo indicam fontes da Agência do Zambeze.
Do levantamento feito, concluiu-se que era necessário intervir em pelo menos 13 distritos da província de Tete, 10 da Zambézia, sete de Sofala e quatro distritos da província de Manica, onde estão a ser aplicados cerca de 210 milhões de dólares em várias acções orientadas para um único fim que é de assegurar a produtividade da terra e alavancar o desenvolvimento local.
Aqui, o Governo construiu parques de máquinas dotados de tractores e respectivas alfaias, casa de insumos, recinto para o treinamento dos camponeses, laboratório para a análise de solos e foram contratados especialistas vietnamitas que se ocupam de áreas como a selecção de sementes, técnicas de produção, irrigação, transferência de tecnologias e criados fundos para financiar a campanha agrícola e as operações de comercialização.
A título de exemplo, no interior do distrito de Maganja da Costa, os camponeses, nos actuais regadios de Munda-Munda e Intabo, limitavam as suas actividades a áreas não superiores a meio hectare, mas, perante este novo cenário em que dispõem de equipamento, acreditam que, até 2015, as machambas passaram a ter um tamanho mínimo de 10 hectares.
A par do desejo de ampliar as áreas de produção, decorre um trabalho de divulgação de técnicas mais apuradas que vão permitir que se passe das actuais duas toneladas e meia para cerca de cinco toneladas de arroz por hectare. “Para o efeito, contamos com o apoio da investigação de sementes, adopção de novas técnicas de lavoura, uso de insumos, entre outros”, disse Luís Kwengwe, técnico da Agência do Desenvolvimento do Vale do Zambeze.
Naquele distrit, foram testadas 14 variedades de arroz e, apesar de se estar perante resultados preliminares, pelo menos cinco parecem ter chegado a um “casamento” feliz com a terra, nomeadamente, “Limpopo”, “Macassane”, “ITA312”, “Chupa” e “Mocuba”, que apresentam uma elevada rentabilidade durante a fase de colheita e, sobretudo, de processamento industrial.
Para que estes programas não falhem, um grupo de jovens extensionistas nacionais beneficiaram recentemente de formação no Vietname e Filipinas e foram destacados para encabeçar grupos de camponeses a quem transmitem informações relacionadas com o uso de novas técnicas e tecnologias de produção para reduzirem custos e aumentar os ganhos.
“A nossa expectativa é de ver o dique do regadio de Intabo reabilitado e com a motobomba aplicada para que seja possível fazer duas campanhas por ano”, disse Aurélio Chenai, um dos extensionistas formado há pouco tempo na Ásia e que insiste com cerca de 250 camponeses para aderirem aos seus ensinamentos.
Entre as técnicas apreendidas no Vietname e Filipinas destaque vai para a necessidade de se nivelar o campo de produção, estabelecer um viveiro, melhorar a mecânica de transplante e as sachas. “É verdade que são métodos difíceis, por serem novos, mas, os resultados são muito bons e pensamos que vale a pena o sacrifício”, sublinha Chenai.
Mas, para o retorno de Maganja da Costa para centro do debate sobre a produção do arroz, e de outras culturas, tudo depende da conclusão das obras de reabilitação do dique de protecção do regadio de Nante que se rompeu aquando das cheias havidas nos princípios deste ano que culminaram com a destruição de cerca de 715 hectares de culturas diversas, incluindo a casa-motor, canais de irrigação, entre outros.
Inovação em pequena escala
Enquanto a província da Zambézia faz o melhor que pode para despertar as “terras adormecidas” dos distritos Chinde, Mopeia, Inhassunge, Maganja da Costa, Milange, Mocuba, Morrumbala, Namacurra, Nicoadala e cidade de Quelimane, que são marcadamente importantes para a produção de arroz, em Sofala briga-se pela identificação de sementes melhoradas, solos e sistemas de rega capazes de produzir batata-reno, milho, cebola, tomate, entre outros.
Caia, Chemba, Cheringoma, Gorongosa, Maringué, Marromeu e Muanza foram os distritos identificados, nos quais está a ser implementado o programa “Inovação de Pequena Escala”, sob a égide da Agência de Desenvolvimento do Vale do Zambeze (Agência do Zambeze), com o qual se pretende alavancar o desenvolvimento sustentável local.
Apesar de ser banhada pelo rio Zambeze, esta região do norte de Sofala enfrentava sérios problemas de acesso à água para a irrigação dos campos, pelo que um dos primeiros passos terá sido a abertura de furos com equipamentos manuais e a construção de “bombas de corda” para a rega.
Com as técnicas que agora estão a ser disseminadas entre os camponeses, acredita-se que num futuro breve será possível colher cinco vezes mais do que se colhe na actualidade, pois, para além dos sistemas de rega e de produção, também estão a ser testadas as próprias culturas.
“Não olhamos apenas para a produção. Também estamos a fazer um estudo da cadeia de valor para que alguns produtos possam ser processados localmente e tenhamos um mercado grossista em Caia (Sofala) e Mopeia (na Zambézia), que são os locais intermédios e de elevado potencial agrícola”, disse Sérgio Citora, oficial do projecto de Inovação de Pequena Escala.
No quadro da implementação desta iniciativa, o Governo entendeu envolver a Escola Profissional Agro-pecuária de Caia (EPAC), cujos estudantes trocam experiências com produtores locais em campos de ensaio de meio hectare cada, também designados núcleos de transferência de tecnologias.
Ainda neste contexto, Matilde Jott, chefe do Posto Administrativo de Murraça, em Caia, revelou à nossa equipa de Reportagem que naquela circunscrição está em curso um projecto de produção de arroz que envolve capitais moçambicanos e indianos.
Tal iniciativa prevê a construção de um laboratório e a constituição de um parque de máquinas e construção de um regadio com um total de 500 hectares que poderá beneficiar a cerca de dois mil camponeses que vão cooperar com o projecto através de um sistema de fomento da cultura do arroz.
Potencial do norte
de Tete na mira do Governo
Angónia, Cahora Bassa, Changara, Chifunde, Chiúta, Mágoe, Marávia, Macanga, Moatize, Mutarara, Tsangano, Zumbo e cidade de Tete são os pontos identificados para beneficiarem das actividades da Agência do Zambeze. Um pouco por todos estes distritos decorre a constituição de parques de máquinas, reabilitação de tanques veterinários e de todas as infra-estruturas.
Porque o Governo está ciente das dificuldades que os camponeses do norte de Tete enfrentam para escoar a sua imensa produção, decidiu adquirir máquinas para a manutenção de estradas terciárias que, para o caso dos distritos de Tsangano, Angónia e Marávia, constituem o principal entrave ao desenvolvimento.
De igual modo, foram realizados avanços na alocação de máquinas para o processamento de tomate e de fruta, com particular destaque para manga e pêssego, ao mesmo tempo que se espera que a fábrica de processamento de cereais construída em Ulóngue, vila sede do distrito de Angónia, dê um empurrão aos camponeses daquela região do país.



