Início » SAÚDE OCUPACIONAL: Postura incorrecta no trabalho pode entortar a coluna vertebral

SAÚDE OCUPACIONAL: Postura incorrecta no trabalho pode entortar a coluna vertebral

Por admin
76 visitas
A+A-
Reset

domingo dá a conhecer alguns factos da vida profissional de Djallo, um alfaiate de elevada reputação que labuta nos arredores da cidade de Maputo. Os seus 39 anos de experiência nesta lida, fazem com que o seu atelier se encontre abarrotado de tecidos, manequins e pedidos de mulheres por modelitos maioritariamente de capulana. Quem acompanha de longe esse sucesso não imagina que, aquele profissional, por ficar horas a fio à máquina de costura, quase ficou com a coluna deformada para sempre.

Há alguns meses, Djallo, de 56 anos de idade, enfrentou complicações sérias de saúde, que chegaram mansamente e foram se agravando à medida que o tempo passava.

A cada dia, sempre que se sentava à máquina de coser para atender às inúmeras solicitações das suas clientes, as dores intensificavam-se. “Era a coluna, a perna…”. A saída foi procurar ajuda médica. Não podia ser diferente, pois “a dado momento não conseguia fazer movimentos básicos, as dores eram fortes. Fiquei um mês, deitado, sem trabalhar. Para resolver o problema, fui submetido a uma máquina de fazer massagem, para além de outra assistência medicamentosa. Passei dias de muito sofrimento”, contou o alfaiate.  

Actualmente, após o tratamento intensivo, afirma que ainda sente dificuldades de se levantar após algumas horas confinado no seu trabalho. “Não consigo o fazer num ímpeto, e uma vez em pé não dou passos imediatamente. Mas estes são resquícios do grave problema que tive e, confesso, por culpa minha persistem, pois interrompi o tratamento”.

Esta e outras posturas no trabalho foram apontadas pelo especialista em Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho como sendo incorrectas.

Carmônio Ngale, fisioterapeuta e professor daquela área, alertou, entretanto, para a existência de riscos sérios em todas as profissões.

 “Todo o tipo de trabalho tem riscos, daí que existem certas técnicas e posturas a adoptar, a pedido do próprio corpo humano, e a par disso do regulamento de Saúde, Higiene e Segurança no Trabalho”.

De qualquer modo, a experiência levou-o a afirmar que na vida real todo o indivíduo corre risco por ignorância, por desleixo ou por falta de opção.

A lista dos vulneráveis é extensa: “os dentistas, que adoptam posturas inadequadas, muitas vezes por dificuldades na forma como desenvolvem o seu trabalho; os alfaiates, que ficam em posições incorrectas ao dobrar a coluna e se sentam várias horas, tal como os camionistas de longo curso; os funcionários administrativos que se sentam à mesa equipada de computador, sendo que manipulam este instrumento de trabalho sem um suporte para o punho, para além de fazerem um esforço nos ombros e no pescoço o que pode desencadear bursites, isto é, inflamação da bursa (ligação das articulações); os engenheiros de construção, por estarem expostos a ruídos e vibrações; os seguranças que ficam muito tempo em pé, o que pode provocar a inflamação do tendão que suporta os músculos; os camponeses que ficam encurvados e para agravar a situação, alguns usam a enxada de cabo curto que acentua o ângulo da curvatura; os cortadores de cana que sofrem irradiações solares; carregadores de mercadoria que levantam um peso superior ao recomendável (nas mulheres 10 a 15 quilos e nos homens 15 a 30 quilos).

Para aquele especialista, ao violarem estas recomendações, os carregadores criam problemas de saúde, essencialmente por carregarem um peso superior a sua massa corporal.

Aos latoeiros, carpinteiros, serralheiros, entre outros, é lhes, igualmente, enviado o alerta, uma vez que correm o risco de contrair doenças como tuberculose ao não fazerem uso de máscaras adequadas para prevenir esta doença, para além de complicações na saúde da vista, na falta de óculos, e nas mãos quando não se equipam de luvas.  

EMPREGADORES INSENSÍVEIS

Ismael Ibraimo, de 44 anos de idade, trabalha há 10 anos como camionista. Faz longas distâncias: Maputo/Beira/Quelimane e vice-versa e também Maputo/Nampula, ida e volta.

Ao final de uma longa viagem, não obstante as paragens que efectua, sente “cansaço, dores da coluna”, agravado pelo facto de o estado de algumas estradas não ser dos melhores, conforme referiu.

Com efeito, os problemas de saúde decorrentes do seu ganha-pão requerem um tempo para a sua resolução. No entanto, esta condição está longe de ser satisfeita por Ismael Ibraimo: “o patrão não quer saber de paragens e muito menos de assistência médica. Eu gostaria de fazer um check-up (exame geral), mas não consigo arranjar um tempo para tal. Veja que o cérebro também sofre, é muita pressão por parte do meu empregador… e sou obrigado a cumprir todas as suas recomendações para preservar o meu emprego. E vale lembrar que aqui trabalhamos duro, debaixo de insultos, sem direitos a férias”, denunciou.

Outro caso destacado pela nossa reportagem é de Nampula Alberto, trabalhador de bombas de combustível, há 19 anos.

O movimento desusado no seu posto de trabalho, “aqui não se pára, entram e saem carros a cada minuto”, faz com que a saúde já reclame de alguma recauchutagem. “Sinto dores na coluna e nas pernas; já cheguei a marcar consulta no hospital, mas por iniciativa própria. O empregador alheia-se dessas questões. Aqui, simplesmente, dá-se alguma ajuda de custos hospitalares, algo insignificante para a dimensão dos problemas que desenvolvemos pela natureza do nosso trabalho”, lamentou.

As recomendações médicas no desempenho de qualquer profissão é que se observem alguns cuidados, de acordo com as especificidades de cada ocupação. Alguns exercícios como “simplesmente levantar-se e esticar-se, caminhar, dar voltas, não insistir, descansar por alguns minutos”, conforme disse o fisioterapeuta Carmônio Ngale, fazem toda a diferença.

No entanto, a nossa reportagem soube de outra fonte, que não se quis identificar, que alguns empregadores transformam-se em verdadeiros carrascos quando a intenção dos seus trabalhadores é preservar a sua integridade física e psíquica. “Trabalhei numa loja de grande reputação de venda de vestuários e calçados, que faz parte de uma cadeia de estabelecimentos espalhados pelos centros comerciais da cidade de Maputo. Lá não permitem que o atendente se sente por algum tempo ou que o funcionário da caixa se levante. O ambiente é de terror, mas os empregados cumprem as ordens para preservarem o emprego, mesmo se tratando de situações totalmente desumanas”, referiu.  

A lei protege o trabalhador

Ernestina Chirindja, Inspectora-chefe da cidade

Reagindo às reclamações apresentadas por alguns trabalhadores que afirmaram enfrentar problemas de saúde, em decorrência da profissão que exercem, e, mesmo assim, se sentirem desguarnecidos pelos seus empregadores, a Inspectora-chefe da cidade no Ministério do Trabalho, Emprego e Segurança Social, Ernestina Chirindja, anotou que existe um regulamento que estabelece o regime jurídico de acidentes de trabalho e doenças profissionais, o decreto número 62/2013, que protege o trabalhador.

Aliás, de acordo com Chirindja, os empregadores são obrigados a ter um seguro colectivo previsto na Lei de Trabalho, no seu artigo 230, que cobre os acidentes ou doenças que o trabalhador possa sofrer, no exercício das suas actividades profissionais.

Ainda assim, o que cabe ao trabalhador “é apresentar a junta médica que atesta que o seu problema de saúde é resultante da sua profissão ou ocupação. Em situações de desmazelo por parte do empregador, o caso pode ser levado à procuradoria onde segue procedimentos que culminam com a indemnização do prejudicado”.

Entretanto, ao nível do ministério, têm sido desenvolvidos trabalhos de inspecção dentro das empresas, sendo que, nessas visitas, se faz a verificação de como têm sido acauteladas questões relativas à Saúde, Higiene e Segurança no trabalho.“Procuramos, dentre vários aspectos, avaliar a limpeza e segurança. Quando se detecta alguma condição que coloca o trabalhador em risco, ou seja, quando há perigo iminente e grave, suspendemos as actividades e damos um prazo para que se corrijam as infracções”, garantiu Ernestina Chirindja.

Texto de Carol Banze
carolbanze@snoticias.co.mz

Foto de Carlos Uqueio

Artigos relacionados

Focus Mode