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Envelhecer sem conhecer comboio

Por admin
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Que nasci em Nipepe, na província de Niassa, muitos sabem. O meu progenitor tinha o hábito de levar a viajar os seus filhos quando atingissem os 10 anos de idade, para conhecerem novas pessoas e novas terras, justificando que isso ensinava respeito aos petizes.

Coube a minha vez em principios de Setembro de 1973, com 11 anos de idade. A ideia era ir a Nampula, fundamentalmente para conhecer comboio, um meio de transporte que entendia nao poder se alojar no subconsciente de meninos da minha idade.

Para falar daquele meio de transporte, éramos levados a casa dum velho da aldeia que tinha um pedaço de cerca de meio metro de linha férrea, sobre o qual eram limados machados e enxadas. O peso do material servia para nos “ameaçar” que se tratava de algo inimaginável e conforme pudessemos levantar ou nao, poder-se-ia  calcular a idade real do menino.

Nampula era o caminho mais acertado para conhecer o comboio, porque de Nipepe para Cuamba, apesar de relativamente perto, nao havia meios de transportes que nos levassem. As viaturas existentes eram do Padre ou do Chefe do Posto, mais umas poucas de dois comerciantes que só conheciam negros assimilados.

Era preferivel pegar o caminho, atravessar o rio Lúrio, escalar Lalaua, já na  margem  direita, provincia de Nampua,  ir “crescendo”, primeiro ao ver um enorme carro fechado, com cadeiraslá dentro e em Ribáuè, colidir com o monstro chamado comboio, cujo cumprimento nao acabava. Era uma autentica loucura vinda como conhecimento em moldes literalmente violentos para quem estava a vir de Nipepe.

Depois chegava-se à cidade de Nampula, para ver diferentes carros de diminutas dimensoes, principalmente de marca Lancer e Volkswagem, que o velho Siquero disse certa vez que nao eram tantos assim, mas sim,  poucos que andavam depressa nos mesmos lugares.

De regresso a Nipepe dizia-se ter crescido: conheceu machimbombo, viu comboio e uma imensidao de viaturas, na cidade de Nampula.

Acontece que depois da Independencia, já para o caso da linha Cuamba-Lichinga, houve a guerra movida pelos mesmos que hoje dizem lutar para o bem do povo e, em 1992, alcançou-se uma paz, dezasseis anos depois. Durante este periodo nenhuma criança tinha visto o comboio, vivendo embora junto à linha férrea, que os mais velhos nem sabia explicar para que servia. Uma estrada de ferro, muito estreita, mas que se dizia servir a um monstro cujo cumprimento nao se media pelos braços.

Em Abril de 2014, numa entrevista ao Engenheiro Catutula, director dos CFM-Norte, disse, para que eu o ouvisse bem: estamos a falar de uma criança que nasceu e atingiu a idade de 16 anos sem conhecer o comboio, apesar de viver junto à linha!

Comboio, sobretudo para o sistema ferroviário norte, continua a ser, acima de tudo, civilizaçao, independencia no sentido mais lato, esclarecimento e menos pobreza.

Esta quarta-feira, imaginei uma criança de  Mavago, que nao tenha tido um pai como era o meu, por isso nao terá conseguido ir “crescer” andando para Nampula, cuja referencia de comboio fosse, por exemplo, a linha que estava a ser reaberta pelo presidente da República no mesmo dia, em Lichinga.Com quantos anos está ou vai conhecer aquele monstro chamado comboio?

Estou a falar de todas as crianças do interior do Niassa, incluido as de Metangula, a menos de 100 km de Lichinga, onde até este ciclo de goeraçao havia um matagal no lugar de uma estaçao de comboio, este que voltou a apitar pela terceira vez depois da Independencia nacional. Nao gostaria que fosse verdade que haja quem há-de conhecer comboio, já velho!

Pedro Nacuo
nacuo49nacuo@gmail.com

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