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COMBATE À SIDA: Não sou hipócrita: Falo do meu estado serológico

Por admin
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Se eu me guiasse pelo que as pessoas pensam ou dizem dos infectados, a minha vida seria um inferno. O dia-a-dia de um portador do vírus da Sida é um calvário: a sociedade retira-nos todo o prestígio.

Artemiza Sitoe, de 37 anos de idade, funcionária pública, residente em Maputo, resiste, deste modo, aos ataques que amiúde causam dolências e ressentimentos em quem caiu nas malhas da pandemia da Sida.

A sua fórmula de vida nem de perto oculta o seu estado serológico, não obstante as sevícias por que passa decorrente da sua condição: “não sou hipócrita, falo da minha realidade, sou muito aberta, o que as pessoas pensam a meu respeito é problema delas. Considero-me uma pessoa normal e procuro ser amiga de mim mesma”, sublinha.

O ano de 2003 foi de todo vilão na sua vida. As constantes recaídas na saúde do seu esposo serviram de termómetro que indicava perigo:sofria de malária que nunca se esvaecia.

Com uma pulga atrás da orelha, Artemiza intensificou a vigilância nos passos do marido, que, não obstante a sua prostração, teimava em dispensar a companhia de quem quer que fosse em todas as circunstâncias que procurava ajuda médica.“Isso espantou-me porque ele estava extremamente debilitado, sem forças para nada. Portanto, precisava da minha ajuda”. Mas a verdade é que o seu esposo comportava-se de maneira duvidosa, pois já tinha tomado conhecimento da doença que o acometia (Sida) e pretendia ocultar o facto.

De qualquer forma, rendido às evidências e aos apelos da sua esposa, no dia 18 de Outubro de 2003, o casal dirigiu-se ao Centro de Saúde do Alto Maé e, para o espanto da mulher, surgiu uma ordem da parte do doente, segundo a qual“eu devia esperá-lo num espaço distante da sala onde receberia assistência”.

Mas uma luz flamejou na mente de Artemiza e, de forma sorrateira, foi parar àquele gabinete médico, que afinal tinha sido disponibilizado para atender pacientes com HIV e Sida. “Quando lá cheguei,para minha felicidade, o médico estava à porta chamando pelo meu marido”.

No mesmo instante, Artemiza apresentou-se como esposa do paciente, o que deixou o seu marido intrigado, ao mesmo tempo que afirmava que não havia necessidade de algum familiar presenciar o seu contacto com o médico.

Mas o bom senso reinou: “Foi ordenada a minha entrada e durante a consulta fiquei a saber que o meu marido corria risco de vida. Naquele momento, não foi feita alguma referência ao seu estado serológico, a não ser que o sangue que circulava nas suas veias não chegava sequer a um litro”.

Este elemento, somado a outros que Artemiza ia anotando, fez com que esta cidadã ganhasse coragem e voltasse, num outro dia, sozinha, ao mesmo centro de saúde para efectuar o teste de HIV e Sida.

A desconfiança estava instalada, saber do seu estado serológico transformou-se em um imperativo. “Eu precisava de aclarar algumas dúvidas, e veja-se que já notava algo estranho em mim: tinha feridas na cavidade bucal”. Pior, quando ingeria alimentos, a boca ardia, um ardor que se estendia até ao estômago.

… E VEIO A CONFIRMAÇÃO

Apoiada por um activista e conselheiro de testagem, após a colecta do seu sangue, recebeu o resultado. Na ocasião, para estupefacção de todos, Artemiza estava preparada para o que viesse. As notícias não foram nada animadoras: o resultado deu HIV positivo.

Reunindo forças que, normalmente, ultrapassam a tolerância de qualquer ser vivente, a partir daquele momento, “passei a vigiar a minha saúde, e vivi sem nenhum susto ao longo de alguns anos da minha vida, cumprindo o tratamento de primeira linha”.

Entretanto, uma nova etapa da sua vida levou-a ao desmazelo e a odisseia começa quando perde o seu marido, vítima de Sida.

Na tentativa de confortar o seu coração, Artemiza abriu espaço para a felicidade ao lado de outro parceiro, uma relação que nasceu dos convívios realizados num cantinho de conforto, que havia sido criado no Centro de Saúde do Alto Maé, para dar alento aos infectados e afectados pelo vírus da Sida.

Dessa união veio o segundo filho desta mulher e o que se seguiu foi uma relativa baixa da sua imunidade, para a sua infelicidade e do pessoal médico. “Ficaram muito chateados comigo e ameaçaram dar-me a segunda linha de medicamentos, que é mais difícil de se suportar”.

O pessoal médico alertara à paciente sobre a indispensabilidade de administrar devidamente os comprimidos, cumprindo estritamente o horário e as dosagens. Mas, anote-se que o seu descarrilamento não partiu do nada. O novo companheiro afectivo foi o culpado de tudo, pois impeliu-a a levar um estilo de vida que contrastava totalmente com as recomendações médicas.

UM PARCEIRO FORA DA LINHA

O segundo marido de Artemiza desencaminhou-a e quase a levou para o abismo. “Era uma pessoa negligente, indisciplinada. Queria sexo sem preservativo”. Esta relação foi sustentada por dez anos, e teve um ponto final há pouco tempo, pois era regada de desleixo e induzia à morte.

Consciente, Artemiza alerta que “é preciso que os infectados entendam a importância de usar o preservativo, pois a carga viral é diferente. Para além disso, uns podem ter o vírus activo, e outros adormecido. Então corre-se o risco de agravar a saúde, ao se descartar a protecção nas relações sexuais entre dois seropositivos. Creio que este foi o motivo que levou à debilitação da minha”, alerta.

TRANSFORMADA

EM PARCEIRA SEM PALAVRA

A vida de Artemiza não tem sido fácil. A verdade é que alguns parceiros com quem se relaciona ou se relacionou não a levam a sério quando afirma que é HIV positivo.“Os homens não gostam de usar preservativo”, acusa.

Fixam-se na ideia segundo a qual sexo sem preservativo dá mais prazer.“Eles tapam-me a boca na hora H, e envolvem-se na volúpia, mergulhando de cabeça na relação sexual. Este é um dos factores que contribui para os índices elevados de infecções”.

Outra causa,“talvez muito mais importante, é o facto de as pessoas ocultarem o seu estado serológico, mesmo sabendo que estão contaminadas”. Entretanto, neste caso, aponta o dedo acusador para ambos os sexos: “tantos os homens, como as mulheres ficam mudos, dão prioridade à sensação e, consequentemente, espalham o vírus da Sida”.

“Mesmo assim, garante, sempre me posicionei de modo a não prejudicar a ninguém. Não sou maldosa e orgulho-me disso”, concluiu.

Texto de Carol Banze
carolbanze@snoticias.co.mz

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