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“Camiões-banco” fazem milagres nos distritos

Por admin
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Em todo o mundo as carroçarias de camiões servem para o transporte de carga. É para isso que são destinadas. Entretanto, no interior da província de Tete e de Manica circulam camiões cujas bagageiras foram transformadas em agências bancárias e que oferecem todo o tipo de serviços, desde abertura de contas, depósitos, levantamentos, transferências e concessão de créditos. Trata-se de uma inovação que está a tirar milhares de pessoas das trevas no que se refere ao acesso aos serviços financeiros.

Para quem vive nas capitais provinciais, aceder a serviços financeiros é moleza. Na capital do país, Maputo, essa facilidade é extraordinariamente superior na medida em que há quarteirões inteiros com mais balcões e máquinas de pagamento automático (ATM) do que mercearias e padarias. As agências se enfileiram como bancas de tomate, cebola e batata em mercados grossistas.

A título de exemplo, no quarteirão onde se localiza a sede da Sociedade do notícias, que vai da Avenida Karl Marx até à Rua da Imprensa e da Avenida 25 de Setembro até Timor Leste, foram implantados cerca de 15 ATM´s e seis balcões, alguns dos quais a ombrear quase ao estilo “homem-a-homem” do basquetebol.

Igual cenário se assiste na zona do Alto Maé, entre a estátua de Eduardo Mondlane e a zona da Belita (ao longo da Avenida Eduardo Mondlane), num percurso de menos de um quilómetro, onde existem outros seis balcões e cerca de duas dezenas de ATM´s, que, pela quantidade, só competem com casas de moda e pastelarias.

Dados em nosso poder indicam que Maputo sozinho possui cerca de 240 agências bancárias, o que corresponde a quase metade do total de agências que existem no país todo (perto de 500 agências). Entretanto, Nampula e Zambézia, que são as províncias mais populosas do país andam na casa das 50 agências cada.

Por causa disso, crianças, jovens e adultos de muitos distritos das províncias de Gaza, Zambézia, Manica, Tete, Nampula, Cabo Delgado e Niassa continuam convencidos de que dinheiro só se guarda debaixo do colchão, em latas ou se enterra algures no quintal.

Para desespero de quem vive por lá, a maior parte destas agências estão concentradas nas capitais provinciais, o que deixa distritos inteiros despidos de serviços financeiros formais e concorre para a inércia económica e um autêntico êxodo rural de funcionários públicos, quando chega a época de salários do Aparelho do Estado.

Exemplos de superação

No caso de Gaza, e conforme um mapa a que tivemos acesso, a presença de agências bancárias se faz sentir nos distritos da zona sul da província, quando as populações de Mabalane a Chigubo, Massangena, Chicualacuala e Mapai, que ficam no norte, ainda não cogitam a data em que um banco irá se estabelecer por lá.

Em Inhambane, idem. Os distritos de Mabote, Funhalouro e Panda continuam mergulhados nas “trevas” bancárias e todo o funcionário público, agente económico ou simples cidadão que reside nestes distritos deve viajar por, no mínimo, 100 quilómetros para alcançar um banco em Maxixe, Morrumbene ou Vilankulo, onde nem sempre lhe esperam facilidades.

Depois de uma estafante viagem é preciso enfrentar as comunicações que complicam o afamado “sistema”, as filas de dar a volta ao quarteirão, inventar um local para a acomodação e alojamento, entre outros.

A província que vai precisar de mais algum tempo e paciência é Niassa, que possui à volta de 10 agências, mas, as cidades de Cuamba e Lichinga “abocanharam” a maior parte, deixando as restantes sedes distritais “a ver navios” de forma bem nítida.

Para quem se desloca a Muembe, Ngaúma, Nipepe, Mavago, Mecula, entre outros pontos desta província, o recomendável é fazer um “stock” de dinheiro, em notas básicas (20, 50, 100 e no máximo 200 meticais) para enfrentar a realidade local. Aliás, os vendedores de recargas de telefonia móvel raramente aparecem com “vouchers” que custam mais de 100 meticais. “Desistimos, porque ninguém compra. Preferem recargas pequenas”, afirmam.

Tal como relatamos em edições anteriores, a falta de banco produz situações que soam a escândalo aos ouvidos de quem tem balcões “aos pontapés”. Nos distritos do interior, por exemplo, um funcionário (professor, enfermeiro, polícia ou administrativo) recolhe os cartões de débito dos colegas e respectivos códigos (PIN) e empreende uma viagem, que pode ser de mais de 300 quilómetros, para levantar os salários no ATM mais próximo, digamos assim.

Porque as tecnologias por vezes pregam partidas, este professor, e outros idos de outros cantos da província, é forçado a permanecer na fila por um, dois ou três dias até que o famoso “sistema” opere nos conformes. Na semana de pagamento de salários, pára tudo. Aulas, enfermarias, esquadras e administrações, porque metade dos funcionários viajou para receber o seu merecido salário.

Mas, há que observar que o cenário que se vivia até 2006 era bem mais negro pois, até aquele ano só existiam 228 agências distribuídas por 28 distritos, contra cerca de 500 agências que hoje existem em mais de 60 distritos. Por exemplo, até 2007, o sistema financeiro da província de Inhambane tinha cinco instituições bancárias e actualmente tem oito bancos.

Em termos de expansão da rede bancária em Inhambane, verificou-se um aumento de balcões de 13, em 2007, para 30 em 2013, significando um incremento em 87,5 por cento. Actualmente, esta província dispõe de 502 meios de pagamentos, sendo 440 POS e 62 ATMs”, refere uma nota do Banco de Moçambique a que o nosso jornal teve acesso.

O que leva os bancos a se “acotovelarem” em Maputo, segundo Joaquim Dai, presidente da Associação Moçambicana de Economistas (AMECON), é o facto desta região do país oferecer todas as condições que qualquer banco do mundo procura, nomeadamente energia eléctrica estável, acesso às comunicações e uma mão cheia de clientes que lhes garantem rentabilidade.

Por outro lado, os bancos olham para os custos operacionais pelo que devem ter um equilíbrio entre o número de clientes e de operações que esses clientes vão realizar. Penso que o Banco de Moçambique deve continuar a pressionar para que se abram mais agências mas, o governo, por seu lado, deve continuar a criações condições para que haja mais investimentos nos distritos para que os bancos se sintam motivados a abrir mais agências”, disse.

“A montanha vai a Maomé”

No quadro dos incentivos que o Governo tem estado a conceder aos bancos comerciais para se estabelecerem nos distritos, com o objectivo de ver alargado o acesso aos serviços financeiros e, por essa via, tornar a economia mais formal, vários bancos acenaram positivamente à ideia e se estabeleceram em locais onde lhes parece que o negócio flui.

Os bancos Terra e Oportunidade escolheram abrir agências em Ulónguè, sede do distrito de Angónia, área cuja vitalidade económica é simplesmente soberba. Por lá, os camponeses produzem para dar e vender a ponto de inundarem todos os mercados e esquinas com a sua produção.

Aqueles bancos também tinham na mira os produtores de tabaco que, no final da campanha agrícola, conseguem amealhar centenas de milhares de meticais que depois enterram ou “torram” em mais um casamento com uma “catorzinha” ou ainda em bebedeiras intermináveis.

Com agências estabelecidas naquela vila, os gestores destes balcões rapidamente se aperceberam que o distrito de Tsangano é outra “mina” por explorar, mas, a via de acesso, com escassos 75 quilómetros, a qualidade da corrente eléctrica, sistema de comunicações, entre outros, não ajudavam muito.

Depois de avaliados os prós e contras, ambos os bancos decidiram adquirir camiões e transformaram as carroçarias em balcões com todo o capricho em termos de medidas de segurança (blindagem e agentes de segurança), comunicações, meios informáticos, funcionários treinados para enfrentar um pouco de tudo, entre outros, e partiram ao encontro da clientela, seguindo a máxima que reza que “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”.

Segundo Dionísio Fungate, gerente do balcão do Banco Terra de Ulónguè, o camião sob a sua gestão percorre vários pontos dos distritos de Angónia e Tsangano, passando por postos administrativos e localidades e, em cerca de um ano de funcionamento conseguiu levar seis mil camponeses a abrirem contas bancárias, número ao qual se acrescem outros dois mil camponeses que se relacionam com o balcão fixo montado em Ulónguè.

O banco móvel faz todas as operações de um banco comum, nomeadamente abertura de contas, depósitos, concessão de créditos, transferências interbancárias, incluindo para o exterior. Pensamos que estamos a alcançar o objectivo de bancarizar a economia desta região”, disse Fungate.

Quem também celebra este feito é a administradora de Tsangano, Ana Beressone, que afirma que graças àquela inovação bancária, a população deste distrito já conhece o metical. “Reduziu o sofrimento da população que não tinha acesso a serviços financeiros. Hoje, já temos associações de camponeses a trabalharem com recurso a financiamentos bancários”.

Porém, para Ana Beressone, a circulação do banco móvel e o estabelecimento de ATM´s continua a saber a pouco. “Falta-nos um banco “fixo” no distrito, porque muitos funcionários têm as contas domiciliadas noutros bancos e, para algumas operações bancárias, são obrigados a viajar para outros distritos”, referiu.

Mas os balcões móveis não são pêra doce de gerir. Por exemplo, no mês de Janeiro passado, a gerência do Banco Terra viu-se forçada a suspender a circulação do camião porque chovia a cântaros e o piso argiloso levava-o a dirigir-se para falésias.

Por outro lado, estes automóveis circunvagam por terras por vezes inóspitas e isso causa quebras da suspensão. Tanto mais que a blindagem tem o seu peso, pelo que as molas devem ser adaptadas ao carro e às condições de estrada. Quanto à segurança, e pela experiência que Fungate diz ter acumulado, aqueles camiões possuem tudo o que é dispositivo anti-roubo, assalto e companhia.

Ideia para replicar

Julio Samo é um utente do sistema Ponto 24, que congrega vários bancos comerciais. Encontrámo-lo à saída do ATM montado no centro da vila-sede de Tsangano. “Penso que a circulação dos bancos móveis e o estabelecimento das ATM vai incentivar o desenvolvimento local e reduzir o risco de assaltos, pois, muitos eram saqueados durante as viagens que éramos obrigados a fazer para ir aos distritos vizinhos levantar dinheiro”, disse.

Pelos resultados alcançados pela agência do Banco Terra em Angónia e Tsangano, assim como o movimento que o Banco Oportunidade faz por aquelas bandas e também na província de Manica, com particular destaque para o distrito de Sussundenga, fica claro que com um pouco mais de empenho, dedicação e imaginação, os bancos comerciais podem levar muitos mais moçambicanos à banca formal e a economia pode sair a ganhar com isso.

Jorge Rungo

jrungo@gmail.com

Fotos de Jerónimo Muianga

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