
O presidente do partido Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e do Conselho Municipal da cidade da Beira, Daviz Mbepo Simango, não afasta a possibilidade de se candidatar ao quarto mandato nas eleições autárquicas de 2018, segundo nos assegurou em entrevista concedida semana passada.
Simango diz que, mesmo tendo em conta o crescimento que se assiste no Movimento Democrático de Moçambique, ainda pode ser, simultaneamente, presidente do Conselho Municipal da cidade da Beira e do MDM, desde que os órgãos do partido assim o decidam quando se debruçarem sobre a matéria.
O autarca da Beira rebatia assim a tese dos seus detractores no interior do MDM que sugerem que o crescimento do partido não se compadece com um presidente, aparentemente, sem tempo de se dedicar exclusivamente a ele.
Ele fala da génese do partido, que, segundo defende, surgiu no âmbito da sua boa governação, que fez acreditar aos cidadãos no seu projecto submetido ao sufrágio nas eleições autárquicas de 2008, nas quais concorreu como independente à presidência da autarquia da Beira, depois de se desvincular da Renamo.
“A nossa prática de governação é que deu azo aos cidadãos moçambicanos a apostarem e acreditarem no nosso projecto, pelo que o que tenho estado a fazer é passar esse testemunho que é a capacidade da recolha de receitas e usá-las para a construção do bem-estar das pessoas e na edificação de bens públicos”,disse Daviz Simango.
Entretanto, Daviz Simango ressalva que concorrer ou não nas próximas eleições ainda não está nas suas contas. Contudo, se os órgãos do partido assim o decidirem nada fará a não ser seguir a decisão.
“A minha resposta é a seguinte: o partido tem estado a usar os órgãos em momentos oportunos para tomar certas decisões e a de concorrer é exactamente uma das prerrogativas dos órgãos do partido”.
Acrescentou que “se me perguntar directamente se vou concorrer ou não nas eleições de 2018, eu vou dizer que depende dos órgãos do partido”.
Na opinião do nosso entrevistado a grande desvantagem de ter uma faca de dois cumes“é que dum lado não se pode afiar muito, senão do outro dir-se-á que o chefe corre demais. Por isso, tem de haver pessoas que tomam decisões nos nossos lugares, apesar de sermos poderosos como somos”.
O nosso jornal perguntou ainda a Daviz Simango se tal decisão seria tomada no segundo congresso agendado para Dezembro próximo na cidade de Nampula, tendo respondido:
“Vamos realizar de 5 a 8 de Dezembro do ano em curso na cidade de Nampula o II Congresso do partido que vai, entre outros temas, debruçar-se sobre os aspectos ligados à governação, estratégias para os próximos pleitos eleitorais e as linhas de força que vão incluir a visão e os valores do MDM”,disse.
O “CASO AMURANE” REFLECTE
DEMOCRACIA INTERNA DO MDM
Instado a pronunciar-se sobre a ausência do edil da cidade Nampula, Mahamudo Amuranena, na reunião da Comissão Política e em outros eventos do partido, incluindo aqueles que preparam o já referido congresso, Simango disse tratar-se de questões inerentes à democracia e liberdade de expressão que reina no seu partido.
“Não sou extremista. Há que olhar as coisas como processos naturais. O importante é que os membros se organizem para a realização do II Congresso, até porque o evento podia ser realizado numa autarquia que não estivesse sob a gestão do MDM”,disse.
Daviz Simango concluiu que não via nenhum problema na ausência de Mahumudo Amurane, por não ser a primeira vez que membros do partido não participam em reuniões partidárias.
“Para mim não há problemas, até porque já tivemos várias reuniões do partido em que estiveram ausentes outros membros. No partido há uma democracia extremamente aberta em que as pessoas se expressam livremente”, sublinhou.
GESTÃO DO MUNICÍPIO DA BEIRA
Num outro desenvolvimento, domingoperguntou a Daviz Simango sobre que remédio tem em vista para fazer face aos problemas ambientais da cidade da Beira, localizada abaixo do nível das águas do mar.
Para responder a esta inquietação, o edil começou por explicar que aquela cidade é uma das sete cidades africanas mais vulneráveis às mudanças climáticas e das raras que não têm altitude, e extremamente plana, com a sua construção morfológica complexa, o que a torna vulnerável e está exposta às intempéries.
Contudo, segundo afirmou, a edilidade já tem disponível um plano para responder ao problema, designadamente, a reposição das dunas naturais, construção de um sistema de drenagem de águas pluviais, através de valas abertas ou enterradas, bem como o processo de aterros nas zonas baixas.
Em relação à reposição das dunas explicou que pode ser feita através da retirada da areia no mar e colocá-la junto à costa e depois bombeá-la para fora, “naquilo que chamaríamos de repulsão, uma vez que tirando essa areia podemos armazená-la em montes grandes e nesse contexto aumentar a altura das dunas e por cima delas colocarmos a vegetação que vai resistir formando-se assim uma protecção costeira muito barata, em vez de usar paredes de betão”.
A outra parte da areia, segundo explicou, poderá ser aterrada, numa primeira fase, na chamada zona industrial, onde já estão identificados alguns terrenos, no âmbito do projecto-piloto de 50 hectares.
O município, entretanto, quer responsabilizar-se pelo trabalho, estando neste momento à espera duma licença ambiental que lhe autorize a fazer a dragagem do canal de acesso ao porto da Beira.
“Da maneira como está hoje a cidade da Beira em que cada um faz aterro segundo as suas capacidades financeiras não é possível resolver o problema das inundações, ou seja, não estamos a seguir o caminho correcto, é uma forma de sobrevivência, mas não ideal”,explicou.
Relativamente ao sistema de drenagem afirmou que para além do Chiveve já em funcionamento estão em construção outras valas, designadamente, os canais A0, A2, A3 que compreendem os bairros das Palmeiras, Munhava-Matope e a bacia de retenção de água de Maradza, com capacidade de 300 metros cúbicos.
“Para estas valas conseguimos o respectivo financiamento, mas fica de fora a vala A1 e A3 e outras tantas. Na segunda fase vamos construir outra bacia no Estoril para escoar as águas pluviais até a zona do régulo Luís, onde existe uma saída para o mar. Todas essas valas, incluindo a do rio Chiveve, inaugurada recentemente, é que nos vão aliviar das inundações, porque a cidade da Beira tem de coabitar com a água”,disse.
Entretanto, aquele político é de opinião que em algum momento as valas têm de ter um certo nível de água e explica-se a seguir: “Se a vala não tiver água, os solos começam a abrir fissuras lá em baixo e os prédios têm problemas, pelo que é importante que a cidade tenha água, tanto mais que há vezes em que a água do mar por si só renasce a partir de baixo, o que significa que nós temos de viver com água nas valas de drenagem”.
Ainda no que diz respeito às valas, explicou que quer as enterradas, assim como as de céu aberto, desempenham um papel crucial no escoamento da água das estradas para a boca do mar. Todavia, é um sistema que se afigurava bastante oneroso.
“Porque quando a estrada está cheia de água é natural que a vala também esteja nas mesmas condições. A água que está na estrada só poderá sair quando a boca do mar não estiver submersa, ou seja, se estiver livre e aí descarrega da estrada para a vala”,explicou dizendo que para o efeito há várias caixas com as respectivas comportas.
Os bairros mais críticos e propensos às inundações, de acordo com dados colhidos pelo nosso jornal, são Ndunda, Mungassa e uma parte de Macurungo, que estão próximos do mar, sendo que a água que cai de fora da cidade da Beira, incluindo do distrito de Nhamatanda, passa normalmente por Inhamizua, Muabvi e afectam aqueles, antes de desaguar no mar.
Em adição, segundo o nosso interlocutor, no bairro de Macurungo, o problema está relacionado com o nível diferenciado dos aterros.
LENÇOL FREÁTICO
QUASE À SUPERFÍCIE
O outro problema que inquieta os munícipes da Beira são as estradas e sobre este assunto o presidente do Conselho Municipal justifica a não eficácia da resposta ao facto de a cidade debater-se com o facto de o nível freático ser muito alto.
“Aqui na Beira, mesmo nos cemitérios, numa pequena escavação encontra-se água, razão pela qual em muitos casos os entes queridos são enterrados a vermos água, ou seja, tira-se água, mas ela volta à cova porque está lá. As nossas estradas são bastante movediças e por média estamos a falar de mais de 600 camiões de grande tonelagem que entram para o porto da Beira”,disse, acrescentando não estarem preparadas para o tipo de camiões que hoje circulam por elas e que havia a linha-férrea para o escoamento da carga pesada.
Daviz Simango diz que a edilidade não tem poupado esforços na reposição das estradas, sendo que a aposta vai para a construção de ruas com base em pavês que se mostra resistente à carga e às inundações.
“Essas estradas estão a resistir porque são blocos de pavês que mesmo estando com água permanece firme, enquanto no asfalto a primeira coisa que aparece é o buraco e com a última chuva a cidade ficou totalmente destruída em termos de infra-estruturas de estradas”,disse.
Só no ano passado, segundo a fonte, foram investidos no sector de estradas cerca de 450 milhões de meticais, para um orçamento de 850 milhões, o equivalente a quase metade do orçamento do município.
Para ele, a solução seria apostar em pavês em todas as estradas da cidade da Beira e não com base no asfalto. “Além de que temos a desvantagem de estarmos muito longe dos locais de extracção da pedra e de areia, o que encarece a sua construção. O asfalto não é para Beira. Com ele estaremos a gastar avultadas somas de dinheiro.”



