Muita carne, frangos incontáveis, azeite de muitas marcas, presunto, chouriços, caixas de cerveja, vinho alentejano, vinhos de Dão, para além dos nossos vizinhos Nederburg, etc…casas e viaturas alugadas, água mineral, pouca chima, mas muita massa esparguete e batata abundante, beber e comer em cima dos capôs, etc. Demais?
Há mais: roupa de natal e de passagem do ano, para além dos bolsos cheios da mola durante pelo menos três dias, período durante o qual fizemos de contas que vivemos bem.
Contradizemos, inclusive, a ideia inicial de que a depreciação do Metical haveria de entrar nas nossas casas, de tal modo que, exactamente nessa altura alguns moçambicanos exportavam muito dólar, para a terra do Rand, tendo caído nas malhas policiais daquele país. Muita opulência circunstancial!
Ainda estamos em festa, mas a vida postiça já está a mostrar o que na verdade vale. Que de facto é postiça! Estamos a voltar para a nossa realidade, alias, um pouco abaixo da nossa realidade. Dormimos até as 11 horas não tanto por causa do cansaço natalício, porque, ainda na cama, não sabemos o que fazer depois de nos levantar. Não há ideias uteis.
Quando pensamos em acordar, ainda de calcões de dormir e espreitar a geleira, colidimos com uma realidade nua e crua: deparamos com apenas uma lite, não gelada, mas a transpirar, por falta de energia, porque ao longo da noite ela se foi. Afinal, havíamos deixado todos aparelhos eléctricos ligados e a Credilec não aguentou mais.
Quando descobrimos que mais vale água do que uma cerveja não gelada, mais uma verdade se impõe: já não há água mineral. Ontem usávamo-la para lavar mãos, mas hoje nem para beber, voltamos aos nossos bidons inclinados, já que também, por falta de energia ela também deixou de gotejar.
Fica a ideia de usar os chinelos, arrastar-se até à barraca vizinha, mas antes de sair apercebemo-nos que as quinhentas restantes, de acordo com as autoridades domésticas, estão reservadas prioritariamente para a compra de energia, pelo menos para que a crise passageira não seja sentida pelas crianças, que continuarão a assistir os programas infantis das televisões.
Quando nos reunimos de coragem de ir pedir ao vizinho que “feche o olho” encontramo-lo a lamentar por tantas vezes ter “fechado o olho” desde que amanheceu, a pedido de outros vizinhos.
Se a ideia é deslocar-se ao encontro de um amigo, um pouco distante, que no dia em que estivemos bem, nem sequer enviamo-lo uma mensagem de boas festas, pensando que, provavelmente lá poderíamos, não matar, mas assustar a babalaza, chega-nos ténue, visível, mas dolorosa informação: o ponteiro de combustível baixou desde ontem e não se levanta.
Formam-se pequenas nuvens de discussões caseiras, à procura de quem não foi prudente, sendo que ainda temos pela frente (apenas 4 dias) a festa mais consensual de todas- a passagem do ano.
Quer-se desabafar para quem não está na casa, mas é familiar e que deve saber em primeiro lugar que não estamos bem. Na falta de combustível recorre-se ao telemóvel que entretanto nos brinda com esta mensagem: desculpe o teu saldo não dá para efectuar a ligação que deseja.
Acabamos indo de boleia e descobrimos que a ausência de movimento ameaça nas ruas, a polícia rodoviária está a descansar, afinal há pouco combustível nas viaturas dos cidadãos que anteontem eram todos opulentes. Na verdade, a maioria voltou à estaca zero, bem assim as cifras de entrados no hospital de referência diminuíram, porque os acidentes tiveram a mesma tendência.
Voltamos à nossa realidade de sempre. Aquela em que nos fazemos de esquecidos que já a seguir são as matrículas, os uniformes, o reconhecimento de vários documentos, o regresso aos nossos locais de trabalho, lá onde todos os dias buscamos a dignidade de sermos como seres importantes para a Sociedade. O que é postiço é mesmo postiço!



