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Descongestionar Maputo (2)

Por admin
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Quando em 1992 vim outra vez a Maputo,  sete anos depois daquela obrigatória, para me formar professor secundário(porque devia ser só aqui), o meu amigo de infância que fazia parte da tripulação do navio Liaze, António Lauchene Nauaca ou, como o chamávamos lá na terra, António Manuel Guerra, diz-me que estava a namorar com uma moça de um bairro chamado T3.

Nos três anos em que vivi em Maputo (cidade e distrito de Manhiça) tinha-me feito um bom conhecedor da capital do país, pois havia palmilhado os seus recantos tanto na zona de cimento quanto nos bairros que na altura eram novos, principalmente o Luís Cabral.

Hoje é pouco falado, mas Luís Cabral era o nosso ponto de travessia partindo da Rua de Resistência, passando por Vulcano, bairro Indígena, Xipamanine, a pé, em direcçao ao estádio da Machava, em quase todos os domingos, quando estávamos na cidade de Maputo.

Também passávamos por ele, correndo para a estação ferroviária, quando já vivíamos na Manhiça aonde íamos depois de assistir um bom futebol, para que às 20 horas nos fizéssemos presentes no Internato da Escola de Formação e Educação de Professores, em Chibututuíne.

Nessa altura (1981/1983) nunca tinha ouvido falar-se do bairro de que o meu amigo falava. Nauaca insistiu que havia, sim, T3 (três letras “t”) que significavam Tontonto, bebida caseira de alto teor alcoólico. Rendi-me e nessa altura já se adivinhava o que seria Maputo, quando se insistisse que fosse aonde todo o país fosse obrigado a ir.

Na única viagem de férias que fiz a Maputo, contrariando o meu costume Nampula/Tete/ Malawi/Niassa, colido com um espetáculo dos Kassav, no estádio da Machava. Eu não queria assisti-lo, embora quase todos os hospedeiros me dissessem que iam para lá naquele sábado.

Decidi “perder-me” para um bairro novo que se chamava Kongolote que, para atingi-lo devia ir de “chapa”, descer no Benfica e pegar um outro em direcçao à Ndlavela-Kocuene. Era mais um bairro novo que entrava no meu léxico, antes que Michafutene “morresse” dando lugar a Zimpeto, graças às cheias e consequente deslocamento das pessoas para ali onde hoje não parece e que nem se sabia acolheria o primeiro estádio nacional.

Não sabia que depois o Zimpeto viria a se subdividir em Matendene, Mogoanine…nem contava com a consequência directa da estrada circular que viria sob forma de Guava, Chiango e lá à frente, Nkobe, sei lá o que mais, ao encontro do que já conhecia, a Matola-Gare. Agora, todos os dias há novos nomes, tendo ontem sabido que havia também Mateque.

É a cidade de Maputo que está a ser sufocada, com os seus espaços totalmente ocupados, expulsando para muito longe a fauna que também defendia a capital do país. Há quem diz que se trata de desenvolvimento. Discutível.

Sou dos que não crê seja desenvolvimento haver muitas viaturas na estrada, mais nos dias de salários do que na maior parte do mês, sinal de que a maioria dos proprietários não tem combustível para muito tempo.

Sou dos que não acredita que seja desenvolvimento, ter muita gente a caminhar para o centro da cidade, havendo muitos famintos, que vão simplesmente tentar a sorte de se encontrar com qualquer distraído a quem lhe tiram algo para a sobrevivência, incluindo algum para pagar a renda, a escola, até a faculdade…

Sou dos que não acredita no desenvolvimento quando a maioria só foi a Maputo por soar historicamente bem. Chegados aqui, dedicam-se a vender recargas das operadoras de telefonia móvel a valores que variam entre 20 a 50 Meticais…vindos de muito longe, lá donde o país é suficientemente espaçoso.

Não acredito que o somatório de todos nós signifique desenvolvimento, se bem que, a maioria da juventude à vista está nas ruas a cobrar o estacionamento de viaturas, em concorrência desleal com o município. E falam línguas maternas de terras onde abandonaram muita riqueza, à guisa da fantasia de nome Maputo que a história nos criou.

Não vai ser desta vez que me vou convencer que haja mais gente em Maputo que não tenha soluções para o jantar do mesmo dia em relação àquelas com emprego garantido, mesmo assim, vivendo de gincanas que incluem o aperfeiçoamento de mentiras em cada dia que passa.

E se aceitamos que a história nos tenha enganado durante muito tempo e, sendo que ela é feita pelos homens, esperemos então, quem tenha a coragem de travar o congestionamento da cidade de Maputo, tendo em conta que o espaço não é elástico.

O assunto é que, a continuarmos a pensar que capital é onde todas as oportunidades estão incólumes, o país inteiro há-de vir a Maputo para tentar a sua sorte, incluindo vender recargas. 

Pedro Nacuo
nacuo49nacuo@gmail.com

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