Há-de ser porque tenho poucas referências? Será que estas é que me tocam no dia-dia? De qualquer modo, vai ser a segunda vez em menos de um mês que cito o velho Alberto Viegas, já falecido, mas que deixou poucos escritos, apesar de bastantes ditos.
Nos dois casos deixou registado que “cada um comporta-se conforme o comprimento da sua esteira”. Desafiou, até morrer, a quem quer que fosse, a justificar que a sua cabeça ou pernas estariam postadas no chão em virtude do tamanho diminuto da respectiva esteira. Nunca aceitou que houvesse quem, em função desse tamanho, deixasse essas partes de corpo tao desprotegidas quanto abandonadas fora da esteira.
Por essa via, defendia que quem tivesse esteira era naturalmente obrigado a ajustar-se à ela, ao seu tamanho. Que não haveria quem voluntariamente abandonasse a cabeça ou as pernas no chão sob o pretexto de que a respectiva esteira (cama) era de pequenas dimensões.
Voltou a bater-me essa ideia nesta quadra festiva que hoje termina, com sinais oficiais de que se prolonga até amanha. Antes falamos muito sobre um alegado mal-estar derivado do facto de estarmos metidos numa crise que para alguns é a primeira que conhecem neste país.
Outros fizeram o mesmo por, de propósito, terem-se feito esquecer dos rigores que tempos não muito longínquos nos presentearam. Quando até as lojas eram segregadas, conforme os cidadãos fossem da “estrutura” ou da população.
Aqui no Alto-Maé, na avenida Eduardo Mondlane, já fiquei na Pastelaria Paris, numa bicha apenas para tomar chá. Entretanto nunca abandonamos a cabeça ou as pernas fora da esteira. Não é bom recordar-se do repolho enquanto principal fonte de alimentação duma capital do país… até que chegou o momento em que isso ficou história.
Hoje por hoje, não há notícias de que haja quem não passou as festas, alegando unicamente a crise, a não ser que, tal como se pensa por estes lados da capital, movidos pelo facto de ser também a capital da fofoca e, curiosamente, da ignorância. É aqui onde é fácil pensar que o país é apenas aqui, nesta cauda terminal dum país corpulento e comprido. Sem ter em conta que a maioria do povo moçambicano está lá onde nunca fomos. E mesmo assim festejou!
As teorias sobre festas acabam hoje, e amanhã procuraremos quem não as passou, para logo a seguir levantarmos a cabeça, desta feita à guisa de como passá-las doutra (de preferência melhor) maneira no próximo ano.
Que o diga a minha redacção, que há dois dias mobilizou duas garrafas de champanhe, uma garrafa descomunal de refresco e duas saquetas de batata- frita (infelizmente importada) e bateu nas taças possíveis e vários copinhos de papel, desejando-se um feliz 2017.
Alguém dirá que não houve um brinde e será que este ano que começa (por isso) zangar-se-á connosco a ponto de condicionar a nossa vida profissional? Definitivamente, não!
Esses pequenos sinais, na falta de melhor termo, chegou um tempo em que se chamaram confraternização, festa ou, porquê não, ESTEIRA, para a qual não nos podemos alhear, simplesmente porque, na nossa opinião, não são como tínhamos ouvido que eram. Cada um, conforme o tamanho da sua esteira, disse Alberto Viegas.
Pedro Nacuo



