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AFINAL SÓ OS NEGROS SÃO CORRUPTOS?

Por admin
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Estava eu a assistir a um filme de guerra com um dos meus netos, onde a cena retratava um grupo militar de assalto composto por 7 personagens, dois dos quais negros, onde esse grupo é surpreendido por um ataque que os emboscou e sofreu uma baixa de duas unidades, curiosamente dos dois personagens negros, continuando em cena os restantes brancos. Confesso que já habituado mantive-me tranquilo no meu sofá. 

A minha tranquilidade durou pouco, meu neto, mais irreverente e com a mania de revoluções perguntou em cólera porque é que só tinham de morrer os negros e porque é que estes não eram os “artistas”, personagens principais, repliquei com uma risota, mas o miúdo continuava inconformado e desconfortado com a cena e triste porque o avô não saciava a sua inquietação, visto não poder resolver a situação, impondo que o papel principal ou os papéis principais fossem interpretados pelos negros.

Entre a tristeza do meu neto e o meu próprio silêncio, a minha mente levou-me a viajar por África e pelo mundo e de rompante o complexo do Tribunal Penal Internacional, onde são julgados maioritariamente negros africanos acusados de diversos crimes e um punhado de cidadãos ditos brancos são jugados, mas mesmo aí há que ter atenção, porque os que para lá vão são oriundos de países ditos periféricos ou pobres do velho continente, no lugar de ver Bush, Blair, Barroso, Aznar, Collin Powell ou Condoleeza Rice que forjaram provas para atacar o Iraque, dizimar vidas e propiciar que outras mais vidas sejam dizimadas em benefício de exploração dos recursos iraquianos por empresas de pessoas como Dick Cheney, antigo Vice-Presidente dos EUA.

A minha mente recordou-se que não tinha visto para essa viagem, regressou e pus-me em contacto com o meu neto, para quem fitei os olhos e continuava incrédulo e triste, nisso pus-me a viajar para a nossa realidade, onde não precisava de visto, mas sim de um pouco de atenção para ver que o bastardo e o infeliz do preto sofre também por ter e por não ter.

Recordei-me de um tema da actualidade, a corrupção e perguntei-me, será que só o negro por cá é corrupto? Outra parte da minha mente tentou mandar-me calar e chamou a outra parte indagadora de racista, que tentou calar, mas depois perguntou, quantos não negros já foram condenados por corrupção, a outra parte calou.

Continuando o diálogo, deu para reflectir e descortinar que qualquer negro que detenha alguma riqueza é sempre conotado com a corrupção ou então com crime, não podendo o negro dispor de acções em banco, quotas em sociedade, empreender por aí fora, deixando claro que o processo de colonização que durou 500 anos ainda perdura em certas mentes.

Em sentido contrário, no nosso país todo aquele que é não negro quando pode ostentar ou deter alguma riqueza está tudo bem e decorre de um natural trabalho, mas a minha inquietante mente trouxe outros mais paradigmas, quem são aqueles que detêm acções em bancos e que numa sentada se tornaram magnatas do imobiliário, dos bancos, que detêm inúmeras licenças mineiras guardadas na gaveta e já fora de prazo? Não deixando de ser importante que se pergunte como é que indivíduos então comunistas, defensores da partilha aritmeticamente igual podem de repente se terem tornado magnatas?

Quando olhamos para o imobiliário outrora do Estado, podemos ver que não há negros, entre os jornalistas que hoje se lembram de atacar um negro categoricamente escolhido por moçambicanos de vários credos, também têm inúmeros imóveis nas principais capitais provinciais do país.

Minha mente me leva a questionar porquê quando o filho de um negro, jovem, cria riqueza se pensa logo que está a branquear capitais dos pais e quando o filho de um não negro, também jovem, o fizer se é obrigado a pensar que é tudo fruto do trabalho?

Depois de não ter podido responder ao meu neto e ter-me feito inúmeras questões, confesso não ter respostas, não por burrice, mas por que os factos não me ajudam a concluir e porque não são coerentes. Fiquei a olhar para o meu neto, chamei-o e pus-lhe no meu colo e disse a ele que um dia teríamos respostas, mas que ele não desesperasse por ser negro, e expliquei que ele tal como outros é um ser humano e que os outros que pensam o contrário eram parvos e mamparras e só assim ganhei um sorriso do meu neto que me confortou e me surpreendeu e disse, vovô, “va tsike, va hanta[1]!    

 

Avô, deixa-os, são tolos.

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