
“O Salvador nasceu em Tete. Nunca tinha visto o mar. Viu-o pela primeira vez quando foi viver para Nampula.” Esta é uma citação do livro de leitura da disciplina de Português usado na era colonial aqui na ex- província ultramarina de Moçambique.
Nós, do domingo, também nunca tínhamos visto o mar, ou melhor, a praia do Wimbe amarrar uma capulana. Vimos pela primeira vez no passado sábado (19), em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado.
A festa foi linda. As mulheres abriram o baú e de lá retiraram as melhores e mais coloridas capulanas para a festa. Cingiram as ancas. Gingaram. Pavonearam-se. Calcorrearam o alcatrão da marginal, enquanto iam puxando pelas canções do folclore local e não só. Tudo isso debaixo de um sol escaldante. Cerca de 34 graus centígrados.
Porque cada mulher, lá bem no fundo do seu íntimo, esconde um pouco de vaidade, todas esmeraram-se na decoração dos respectivos rostos. O M’siro fez a vez de pó do arroz e o resultado foi uma sinfonia de beleza sem fim. Uma mais bela que a outra. O resultado foi simplesmente belíssimo.
A estatística vale o que vale. Aventa-se a hipótese de durante os dois dias do evento terem passado pela Festa da Capulana cerca de 15 mil pessoas; é possível que sim e é possível que não, mas verdade cristalina é que as pessoas que presenciaram a festa tão cedo não se esquecerão do colorido do espectáculo, da beleza das mulheres exibindo brincos e cordões também de rara beleza, bem como da coreografia apresentada.
Depois, a presença de fotojornalistas e simples apaixonados pela fotografia funcionou como elixir de energia. A cada click, elas se esmeravam no tufo, esticavam a coluna vertebral para trás, qual barriga de um barco a vela, para gáudio da assistência.
Porque a festa não era só para mulheres, os homens lá deram o ar da sua graça. Uns amarraram capulana. Outros optaram por um par de calças, casacos, até t-shirts e camisas da mesma peça.
Agora, e em definitivo, a capulana é uma peça que à semelhança da aspirina tem mil e uma aplicações. Tem razão a cantora Neyma quando apela aos homens e mulheres a amarrarem a capulana dançarem a marrabenta (também pode ser ngalanga, ximgomana, tufo, xiparatwana) para fazer Tchiki-tchiki, tchiki-tchiki,….
Estão de parabéns os organizadores da iniciativa. Foi dado o primeiro passo para que esta festa possa entrar para o cardápio das principais escolhas turísticas do país.
E assim também se assinalou o 19 de Outubro!
– Reportagem fotográfica de Alfredo Mueche
André Matola



