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Energia chega ao Niassa mais profundo

Por admin
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Electrificar os distritos da província do Niassa deve ter sido o exercício mais desafiador que a Electricidade de Moçambique (EDM) teve nos últimos anos. A sede do distrito de Mecula, por exemplo, localiza-se a cerca de 400 quilómetros da capital provincial, Lichinga, e é a mais recente beneficiária de corrente eléctrica.

 A obra foi erguida em território habitado maioritariamente por elefantes, búfalos, entre outros animais bravios. A partir das 18.00 horas ninguém entra ou sai deste distrito. A cancela é encerrada para se evitar pelejas nocturnas entre os bichos e o Homem.

Niassa é uma província com características peculiares.Paisagens fabulosas, terra fértil a cada metro quadrado, clima temperado, densidade populacional muito baixa, mas bastante trabalhadora, enfim. Peca por ainda carecer de ligação eficaz por estrada e via-férrea com as províncias vizinhas, nomeadamente, Nampula, Cabo Delgado e Zambézia.

No que se refere a investimentos, a EDM está claramente na dianteira dos esforços visando elevar a qualidade de vida das populações locais, pois, a cada ano, cresce o número de distritos abrangidos pelo fornecimento de electricidade, que é um motor seguro de desenvolvimento em qualquer território do planeta.

Só no ano passado (2013) aquela empresa investiu um total de 51 milhões de meticais em projectos de ligação a novos distritos e melhoria da qualidade da rede com intervenções em bairros das cidades de Lichinga e Cuamba, e nas vilas de Marrupa e Metangula.

Dados colhidos junto de Luís Salomão, director da EDM a nível do Niassa, indicam que os trabalhos realizados durante o ano passado incluíram a instalação de cinco Postos de Transformação (PTs), reabilitação de 30 quilómetros de Baixa Tensão (BT) e a montagem de cerca de 250 candeeiros de iluminação pública nas zonas de cimento de Cuamba, Metangula, Marrupa e Lichinga.

O que vale para o Niassa é que as subestações de Cuamba e Lichinga ainda operam a meio da capacidade instalada, coisa que não acontece com as subestações das províncias vizinhas. Aliás, as linhas que alimentam a Zambézia, Nampula e Cabo Delgado há muito que clamam por reforços de peso.

Luís Salomão aponta que a subestação de Cuamba tem 16 Mega Volt Amperes (MVAs) de potência instalada e a ponta de consumo se situa em 4,4 Mega Watt (MW), o que perfaz 34 por cento da capacidade instalada. Para o caso de Lichinga, a potência instalada é de 16MVAs e a ponta é de 8,8 MW, que corresponde a 69 por cento da capacidade instalada.

A linha Centro-Norte, que parte da subestação de Matambo, em Tete, e alimenta Zambézia, Nampula, Niassa e Cabo Delgado, está sobrecarregada mas as nossas subestações ainda estão em condições de acolher mais consumidores e é por isso que continuamos a expandir o fornecimento de energia a mais distritos”, disse Salomão.

Apesar da tranquilidade que as subestações oferecem, a EDM no Niassa começa a fazer contas ao futuro na medida em que estão a surgir indústrias que consomem quantidades cada vez maiores de corrente eléctrica. Trata-se de uma fábrica de farinação de trigo, duas pedreiras e a serração industrial em perspectiva de ser implantada em Lichinga.

Para além destas indústrias que já estão fora do papel, Luís Salomão aponta que as cidades e vilas desta província crescem a olhos vistos pelo que a capacidade instalada das subestações poderá ser atingida em 24 meses, altura em que poderá ser necessário trocar os transformadores ali montados.

NAS “ENTRANHAS” DO NIASSA

Dos 15 distritos do Niassa, apenas Nipepe, Mavago e Mandimba é que não estão conectados à Rede Nacional de Energia (RNE) da EDM, cenário que poderá ser revertido ainda este ano, tendo em conta que o Governo e aquela empresa “apostaram” em concluir a electrificação de todas as sedes distritais no presente ano de 2014.

Para o caso de Muembe e Ngaúme, Luiz Salomão afirma que já foram realizados ensaios das linhas, pelo que o fornecimento propriamente dito poderá acontecer em poucos meses. Em relação a Mandimba, a nossa fonte indica que decorre a conclusão da construção das linhas e na sede do distrito de Majune a energia chegou e decorre a celebração de contratos, montagem de baixadas, instalação de contadores, havendo famílias que já deitaram fora as velas e candeeiros para beneficiar de luz eléctrica da RNE.

Mas, nesta província, o caso do distrito de Mecula é o que mais impressiona, dada a sua localização geográfica. Se a linha de transporte de energia que leva corrente eléctrica até à subestação de Lichinga é tida como uma das mais longas do mundo, por ter mil e 100 quilómetros (km), imagine-se com o acréscimo que foi feito para chegar àquele destino.

De Lichinga a Mecula, a EDM estendeu uma linha de MT que percorre cerca de 350 km até à sede do distrito de Marrupa e depois derivou a mesma linha por mais uns 152 km até Mecula, perfazendo aproximados 400 km, num investimento estimado em pouco mais de quatro milhões de dólares.

Trata-se de um investimento assegurado por fundos do Estado e aquela linha compreendeu uma rede de BT com 20 km, instalação de 14 PTs e a ligação a cerca de 100 clientes, parte dos quais residentes nas aldeias localizadas ao longo do traçado da linha. De igual modo, foram montados 130 candeeiros de iluminação pública na vila-sede e nas aldeias abrangidas.

A electrificação de Mecula impressiona também, e pela positiva, por abraçar populações que vivem num distrito que é coberto em 100 por cento pela Reserva Especial do Niassa (REN) e que, de outro modo, estariam condenadas a viver nas trevas e na total insegurança, dada a circulação de animais bravios.

Mecula possui cerca de 14 mil habitantes distribuídos por dois postos administrativos e algumas aldeias dispersas e há indicações de que, se os elefantes ali existentes fossem oferecidos a cada habitante, sobrariam muitos. Há também búfalos, girafas, de macacos nem se fala. Podem ser observados ao longo da via de acesso.

FELIZES DA VIDA

Porque beneficiar de electricidade lá nos confins do Niassa é muito mais do que um sonho realizado, as populações beneficiárias celebram até o facto de poderem consumir um refresco gelado. Luís Sanúdia, residente do Quinto Bairro, na vila-sede de Mecula, diz estar a viver um sonho. A corrente eléctrica chegou àquela vila há cerca de duas semanas.

É a realização de um sonho. Estamos muito satisfeitos, porque a nossa vida mudou. Nada mais nos limita e nos deixa sentir inferiores. Já nos entretemos até tarde, informamo-nos pela televisão, consumimos bebidas geladas, congelamos alimentos, fazemos negócios e estamos a investir em moagens, carpintarias e oficinas. Nem imaginas como estamos felizes”, disse.

Cândido Awasse é gestor de uma das barracas da vila de Mecula e concorda em pleno com Luís Sanúdia. Porque a chegada da corrente eléctrica é uma festa para aquela população que parecia condenada a morrer na escuridão, até o governo distrital está “aos pulos”.

Manuel Paulo, Secretário Permanente de Mecula, afirma que o governo local está em vaivéns, reuniões e remessas de expedientes para introduzir o curso nocturno e garantir financiamentos para a aquisição de equipamentos hospitalares para melhorar a qualidade do atendimento no hospital local. “A nossa meta inicial é de fornecer energia a 800 famílias”, disse.

Deslocámo-nos à sede do distrito de Majune e a administradora, Lurdes Massingela, não escondia o seu contentamento. Mal soube que estavam jornalistas no átrio do edifício do governo distrital, interrompeu a reunião que dirigia e acedeu a uns minutos de conversa connosco. “Estamos ansiosos. Temos 725 pedidos de ligação porque a população acredita que chegou a sua vez de dar um salto na qualidade de vida”.

Para Lurdes Massingela, a corrente eléctrica será usada para muito mais do que ligar e desligar lâmpadas, gelar bebidas, congelar alimentos, engomar a roupa ou tocar música. “Queremos que a energia seja usada para a rega. Temos dois rios grandes e condições para a construção de regadios. Queremos captar água para a produção. Essa é a nossa aposta”, enfatizou.

NO NIASSA ROUBAM-SE CONTADORES CREDELEC 

Enquanto a população festeja a chegada da corrente eléctrica em locais remotos e, quiçá, de difícil acesso, uns e outros andam à socapa a roubar contadores CREDELEC. Engenheiros da EDM, que estudaram como funcionam aqueles contadores, não conseguem perceber o que os tais meliantes fazem com aquelas peças nos pontos de destino.

É que, quando o cliente comunica a ocorrência àquela empresa, fenómeno que tem acontecido instantes depois do roubo, os técnicos vão ao sistema desactivar o aparelho e este torna-se uma caixa inútil. Apesar disso, os roubos já totalizam 10 em toda a província.

Pensamos que os que roubam os contadores vendem-nos para cidadãos que roubam energia. Estes instalam os contadores nas suas residências para dar a entender que são consumidores legais e, desta forma, iludirem potenciais denunciantes. De outro modo, não faz sentido porque desactivamos aqueles dispositivos”.

Em termos de prejuízos resultantes do roubo de contadores, a EDM no Niassa já soma mais de 25 mil meticais, aos quais se acrescem cerca de 350 mil meticais de roubo de diverso tipo de material nas linhas de BT, mais de 340 mil meticais fruto de derrube de postes e cerca de 290 mil meticais de consumo ilegal de energia. Ao final das contas, só em 2013, a EDM perdeu mais de um milhão de meticais devido a estas práticas.

Apesar destes prejuízos, a EDM mantém vivos os seus planos e projectos de melhorar a rede de BT de alguns bairros de Lichinga e Cuamba que se mantém precária e afecta a qualidade da corrente. Pretende também expandir a energia para os distritos que ainda estão nas trevas e aumentar o número de postos de venda de CREDELEC que só existem em Metangula e Lichinga.

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