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O Shopping da Morte

Por admin
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O alvo não foi escolhido por acaso. A al-Shabaab – os “Jovens” ou os “Rapazes” –  levaram a sua guerra santa ao mais luxuoso centro comercial da África Oriental, para atingir um modo de vida que abominam. Quem são os radicais que durante quatro dias aterrorizaram Nairobi?

Sangu Shah vinha a sair, com o marido, do centro comercial Westgate, um luxuoso edifício de quatro andares, com 80 lojas, preferido pelo turistas e situado no bairro  dos expatriados de Nairobi, no sábado,  21, pelo meio-dia. Entravam no carro, no parque de estacionamento, quando dois homens armados com metralhadoras AK-47 os interpelaram, um deles apontando-lhe a arma. “Então eu fiz assim”, contou a mulher à New Yorker, baixando a cabeça e pondo as mãos juntas, em sinal de oração. “Fechei os olhos. Não sei o que se passou mais.” A próxima coisa de que se lembra é do telemóvel a tocar. Um homem grita para que não se mexa. Tiroteio por todo o lado, pessoas a abrigarem-se atrás dos carros. Shah baixou-se e abriu a porta. Vê o marido, baleado, provavelmente na cabeça, deitado no chão. Vê a enorme poça de sangue e tentou agarra-lo. Ele ainda resiste uma hora: “Deixou de respirar à uma e trinta e cinco.”

O grupo de comandos que atacou o centro – seis americanos, dois britânicos, um finlandês, um sueco e russo do Cáucaso num total de 19, com idades entre os 20 e os 29 anos – por vezes alinhava as pessoas em fila e fazia-lhes perguntas antes de as executar à queima-roupa. Como se chama a mãe do profeta? (Fátima) Como se reza a Shahada? La´ilaha´illal´-lah an Muhammadur rasulu llah´: (Não há outro Deus além de Alá e  Maomé é o seu profeta)? Outras vezes os terroristas «atiravam granadas contra a multidão como quem atira milho às galinhas. Pelas quatro da tarde, já com o exército queniano (apoiado por conselheiros israelitas e americanos) dentro do edifício, havia centenas de pessoas cá fora a tentar saber dos seus familiares. As ambulâncias chegavam a um ritmo cadenciado e recolhiam cadáveres. Havia helicópteros no ar. Um fotógrafo queniano que se aventurara a subir uma rampa para automóveis contou 42 mortos. Um médico certificou 15 óbitos só no lobby, alguns ainda agarrados ao telemóvel. Uma mulher, grávida, jazia, no chão, abraçada a um homem.

Imediatamente as suspeitas caíram sobre a al- Shabaab. O grupo terrorista somali  já  se tinha aventurado no Quénia, no principio do mês. Esta milícia, que terá entre 5 mil e 7 mil combatentes, era o braço armado e mais radical da União dos Tribunais islâmicos (UTI), que, em 2006, deteve o poder na Somália, um dos Estados mais falhados do planeta. A al-Shabaab – os jovens ou os rapazes – foram o único grupo que não fugiu, aquando da invasão etíope de 2007.

 A confirmação veio no próprio sábado pela conta twitter da H.S.M. (Harakat al-Shabaab al-Mujaedine, o nome completo da organização): “A HSM avisou  várias vezes o Governo queniano  que a recusa de retirar as suas forças da Somália teria severas consequências (…) os mujaedines que estão dentro do centro comercial confirmaram à HSM que mataram mais de 100 kufar (infiéis) quenianos e que a batalha decorre.”

Etiópia: o califado à porta

A UTI era uma coligação informal de grupos que aplicavam a Sharia nas zonas que controlavam. Foi bem recebida pelas populações: qualquer forma de justiça é melhor do que o caos. A Somália está em guerra desde a queda do regime militar de Siad Barre, em 1991.

Assim, apesar de actuar sobre uma  população sufista – e portanto, mais liberal -, a UTI impôs um estilo taliban: as mulheres foram proibidas de usar soutien, os homens de fazer a barba. As meninas deixaram de poder ir à escola. A música, o futebol e outros “venenos” ocidentais foram banidos. “Não se ganha nada, nenhuma experiência positiva, em deixar a população ver um grupo de homens loucos  a correrem para cima e para baixo”, dizia, então, um porta-voz dos tribunais. Quando os etíopes –  maioritariamente cristãos, invadiram a Somália, preocupados  com o surgimento de um califado islâmico às suas portas, contaram com a bênção, o dinheiro e o apoio dos ocidentais. A Etiópia interveio a pedido do Governo Federal de Transição (TFG), uma estrutura saída da última das 15 tentativas de mediação e paz que a ONU efectuou.

O pedido de auxílio externo tornou o TFG impopular: o seu domínio limitava-se à pequena capital que escolheu, Baidoa. E, de acordo com o Center For Strategic & International Studies, a invasão etíope teve outra consequência: expulsou os chefes mais moderados e deixou a al-Shabaab livre para exercer a sua influência. Os “rapazes” retiraram-se para o sul, onde continuaram a exercer funções algo semelhantes às de um Estado – Justiça, polícia, administração, cobrança de impostos (ou extorsões). Financiados também, diz-se, com dinheiro de extremistas sauditas, ofereciam aos seus membros salários de 200 dólares, uma fortuna ali. Muitos juntaram-se-lhe apenas para arranjar um modo de vida.

Os ´islamofascistas´

 Outros vieram porque os “jovens” eram a única organização que lutava contra o invasor, o único reduto nacionalista. Assim,  a al-Shabaab cresceu, de uns míseros 400 membros, até à sua força actual. Estava criada uma organização nacional-islamita, ou “islamofascista” como por vezes lhe chama a direita americana, treinada no campo de batalha da guerra civil somali. Em Janeiro de 2009, as forças etíopes foram substituídas por tropas do Uganda e do Burundi, sob os auspícios da AMISON, a força mandatada pela União Africana.

Em 2010, a al-Shabaab internacionalizava-se: na final do campeonato do mundo de futebol fazia bombistas suicidas explodirem-se num restaurante e num clube de râguebi, em Kampala, matando 74 pessoas reunidas para assistir ao Espanha-Holanda (1-0) na TV. O ataque queria periclitar a participação ugandesa na AMISON, mas o país aumentou o número de tropas na Somália. A 16 de Outubro de 2011, o Quénia, atiçado por atentados que punham em risco o rentável sector do turismo no país mais rico da África Oriental, entrou na Somália. A operação Linda Nchi(“proteger o país”, em Swahili) contou com  o apoio de Franceses, americanos e etíopes. OTFG, relutante, acabou por a admitir.

Surpreendentemente, esta operação – que mais tarde se pôs sob controlo da AMISON- foi bem – sucedida: a al-Shabaad perdeu os bairros que controlava, em Mogadíscio, e o porto de Kismaio, no Sul. Aqui passam as exportações de carvão e de açúcar, responsáveis por 35 milhões de dólares porque ano. Desde então que os «rapazes» perdem terreno: uma semana antes do atentado em Nairobi, tinha sido a vez de Mahaday, no centro, cair.

Al-Amriki, o rapper americano

Voltemos, agora, ao Westgate, onde, segunda-feira, 23, corpos sem vida ainda jaziam junto de refeições inacabadas de fast food. O Governo de Uhuru Kenyatta, presidente, e William Ruto, vice-presidente, ambos indiciados pelo Tribunal penal Internacional por crimes contra a Humanidade, pelo seu alegado papel nos massacres associados às eleições quenianas de 2007, está a ter serias dificuldades para controlar a situação. Até um sobrinho de Kenyatta e a namorada dele morreram no centro comercial. Os extremistas barricaram-se no cinema e num supermercado. Ouvem-se várias explosões, supõe-se que de granadas, durante o dia, e, a dada altura, fumo negro irrompe do edifício. O ataque, espectacular, sincronizado e profissional, cumpriu a sua missão: a al-Shabaab ainda é um actor relevante no conflito somali -, afinal, não está ela não telejornais de todo o planeta? Não necessariamente. Pelo menos Vanda Felbab-Brown, da Brookings institution, discorda: “A al-Shabaab está mais radicalizada e mais fracturada. Eles estão limitados na Somália e isso é o que os impele para estes ataques espectaculares. A fronteira porosa com o Quénia e a facilidade com que os membros da milícia se deslocam, anónimos, no meio dos 11porcento da população  queniana que  é muçulmana, deram à al-Shabaab o disfarce para atacar Nairobi. Mas é indisfarçável: a milícia está a perder a guerra. O território que controlava, no Sul, um instável emirado, está agora dividido, separado pelas forças que lutam pelo TFG. A al-Shabaab começou a recrutar guerrilheiros à força e opôs-se a ajuda humanitária internacional, condenando populações inteiras à fome ou à migração. A adopção  de tácticas suicidas, ao estilo de Bin Laden, afastou ainda  mais os poucos seguidores da al-Shabaab….

Mais: o movimento vem de uma sangrenta guerra interna. De um lado, estava a facção internacionalista – a que quer criar um “arco de instabilidade” do Norte de África e Sahel até ao corno de África, e aliar-se com o Boko Haram, na Nigéria, a Al Qaeda para o Magrebe Islâmico (AQIM, o antigo Grupo Salafita para a Prédica e o combate), na Argélia, e a própria Al Qaeda central. Esta facção  é  liderada por Ahmed Abdi Godane. Do outro lado, a facção nacionalista, que pretendia focar a luta na Somália, liderada pelo comandante Al-Afghani, que, em carta dirigida ao antigo medico de Bin Laden e actual líder  da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, atribuía as derrotas militares da al-shabaab às  «loucuras» e à «ditadura» de Godane, também conhecido por Muktar Abu Zubair.

Al-afghani acabou assassinado pelas esbirros de Godane. Também Omar Hamami, o rapper jihadista nascido nos EUA, conhecido pelo nome de guerra Abu Mansoor “al-Amriki” (“o americano”) e o seu  colega inglês  que da pelo nome de Usama «al-Britani»  (o britânico), já caíram às mãos dos antigos companheiros de armas. Godane ganhou em toda a linha e, em fevereiro de 2013, pela terceira ou quarta vez, a al-Shabaab prestou vassalagem à Al Qaeda. Desta vez, em definitivo.

Samantha, a viúva branca

 Do «internacionalismo» vem a importância que a organização dá à internet, com os vídeos da fundação kata´ib a serem cuidadosamente realizados e espalhados por fóruns de discussão jihadistas, no Twitter e nas redes sociais. Daí que se dedique a ataques mediáticos como o de Westgate, com mujaedines  de  origem americana e até uma mulher inglesa. Samantha Lewthwaite, 29 anos, é uma «viúva branca», mulher de um dos bombistas suicidas dos atentados do metro de Londres, em 2005 (26 mortos, em King´s Cross). Samantha estará relacionada com um atentado em 2012 contra um bar queniano e, também, com Michael Adebolajo, um dos atacantes do soldado britânico Lee Rigby, que morreu assassinado, em pleno dia, em Woolwich (as imagens correram mundo, via you Tube). Adebolajo, antes de cometer o crime, fora apanhado na fronteira do Quénia a tentar juntar-se aos «rapazes». Informado, o M15 não o prendeu…

Godane que atrair a imensa diáspora somali – só nos EUA são cerca de 150 mil, concentrados, sobretudo, no Minnesota, e no Reino Unido serão cerca de 100 mil, em especial nos subúrbios de Londres. Muitos são jovens desempregados, desenraizados e perdidos entre duas culturas diferentes.

Como nota o analista Rob Wise, o futuro da al-Shabaab é desintegrar-se, espalhando os seus milhares de guerrilheiros, centenas com passaporte ocidental, se espalharem. Para já, e na sequencia do ataque (pelo menos 67 mortos e 170), o International Council of Shopping Centers, um grupo de lobby, quer influenciar Washington no sentido de aumentar a segurança nestes espaços. Não nos admiremos pois, se, daqui a alguns meses, formos travados à porta das«catedrais do  consumo» por seguranças privados com  detectores de metais, como já acontecia no Westgate. Se tal se verificar, e os terroristas conseguirem impor mais uma (pequena) mudança no estilo de vida ocidental, eles ternos-ão infligido mais uma derrota

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