
Num antigamente não muito distante, Pequim era uma cidade muito famosa pelo uso de bicicletas como meio de transporte e esta imagem governava as nossas mentes enquanto o avião não aterrava, mas tão logo a realidade se encarregaria de destruir tais ideias.
O aeroporto internacional de Pequim, o segundo mais movimentado do Mundo, é a primeira imagem indicativa das surpresas que nos esperava. Tem três terminais e projecta-se a construção de mais um. São centenas de aviões que aterram e descolam diariamente naquele aeroporto, que é uma cidade, a considerar as suas dimensões e tudo que a habita (aviões, camiões, pessoas etc..) e fica a boa distância de onde tudo acontece.
Carimbados os passaportes, rolámos como um só bloco pelo longo corredor que nos conduz ao exterior, mas por instantes parámos para comprar pacotes iniciais de uma das telefonias móveis locais. Trinta dólares americanos. Fora do aeroporto é mais barato, disseram os que lá vivem, faz tempo.
Avisados estávamos das baixas temperaturas, mas não esperávamos pelos dez graus negativos. O choque térmico foi violento. Um frio de morte, por estas alturas. As árvores e tudo que faz de Pequim um jardim sem igual têm a cor da morte e dói o coração olhar para esta cidade nesta estação do ano. Tristonha. Mas Pequim, sede das maiores empresas estatais da China, é igualmente famosa pelos seus monumentos, pelos seus palácios, templos e túmulos e muralhas e parques e jardins. Também os seus tesouros artísticos.
É uma cidade com sete patrimónios mundiais, de acordo com a UNESCO: a Cidade Proibida, fundada durante a dinastia Ming, é um lugar de visita obrigatória para os turistas e mesmo para os chineses. Aliás, quando visitamos uma pequena parte da cidade proibida (uma visita complete dura três dias), tornamo-nos em elementos de circo: nunca antes aqueles chineses tinham visto pretos e em número razoável. Foi construída entre 1406 e 1420. Existe o Templo do Céu, o Palácio de Verão, osTúmulos Imperiais das dinastias Ming e Qing, o Zhoukoudiana, a Grande Muralha e o Grande Canal.
Do frio podes saltar para outra escadaria. Basta atingires os espaços interiores que te banham de um calor que te transporta para sonhos vários. As bicicletas, essas estão lá como marca do passado. Um passado de luta por aquilo que Pequim é hoje. E essa luta continua: estão lá algumas transportando fogões chamejantes, mantendo quente a batata doce de polpa alaranjada para confortar o estômago de quem deseja. Elas, as bicicletas, deram lugar a veículos de tipo automóvel, noutros lugares apenas vistos em filmes. Marcas ocidentais e europeias com um design singular, causam inveja aos donos das marcas. Há trinta minutos que rolámos sobre o asfalto e ainda não vimos uma única viatura sequer com mostras de cansaço.
À volta de qualquer hotel, uma cadeia de restaurantes servindo da gastronomia local, havendo também restaurantes de outras culturas, sobretudo nos grandes centros comerciais. Há quem diga que mesmo em banquetes oficiais a cozinha é típica chinesa com a sua diversidade.
De soja sabíamos do seu agradável molho para apimentar alimentos ou óleo que dela se extrai, mas logo à chagada e nas cercanias do hotel onde nos hospedámos, já no restaurante, dos vários pratos colocados em cima da mesa, constava um com bifinhos de soja. Afinal de soja se faz um bife! Uma delícia.
Nada de alarmes. Foram vários pratos sim, mas só pagámos 11,7 dólares americanos pela comida e ainda por cima tivemos de pedir ajuda que as cavernas não aceitavam mais mercadoria.
Em Pequim tens a Europa, tens o Ocidente, tens África, mas tens, sobretudo, Pequim. Quem for a hospedar-se no Grande Hotel de Beijing, mesmo por detrás encontra uma feira de comidas típicas feitas de todas as maneiras e na hora. As pessoas, muitas delas em turismo, comem a andar. Aliás, não há como comer sentado. São barracas onde cabe o fogão, o recipiente onde se acondicionam os alimentos e a pessoa em serviço. Isto numa extensão de pouco mais de dois quilómetros, talvez. Também se podem comprar algumas peças de roupa, produtos para o cabelo e pouco mais. Não há espaço para a circulação de uma bicicleta sequer. É uma Estrada ladeada por barracas para turistas e também para locais que à hora de matar a fome ou simplesmente gozar daquela liberdade de se alimentar sem observar etiquetas de espécie alguma. E este movimento acontece todos os dias. Anda nisto gente desde pequenitos e estão lá pequenitos que naquilo se tornarão adultos. Estas barracas fazem pressão ao sector produtivo que tem de lhes fornecer os produtos de que necessitam para a sua actividade.
A importância do comércio na economia de um país.
Por perto existem restaurantes para todos os bolsos e a comida é de qualidade, mas é diferente de estar a comer ao ar livre e em liberdade.
Acotovelam-se sim, mas ninguém tira carteira a ninguém. Respeito pela coisa alheia é pedra de toque em Pequim.
Para os executivos, pode acontecer que se tenham esquecido de meter o terno na mala, no porta-fatos. Em Pequim, mesmo chegando às 16.00 horas ao hotel e com uma cerimónia às oito da noite, até às seis horas da noite tem o terno pronto e com a qualidade requerida e a um preço que não emagrece o coração da gente.
E nesta coisa de preços, vale alertar que o preço dos produtos importados pode estar acima de cem por cento dos da produção nacional. Por exemplo, uma “red bull” importada custa 18 RMB (usd2,8) e a mesma bebida produzida na China custa cerca de 8RMB(usd1,2). O dólar americano equivale a 6,3 RMB podendo ir até 6,8RMB.
Esta questão de preços é válida para todos os produtos sendo que a qualidade é a mesma, já que mesma a fórmula. Isto é claramente uma maneira de proteger a produção do país.
E o capital chinês já não cabe na China. Demanda outros mercados, na Europa, no Ocidente e em África.
Afinal o Comunismo não é inimigo do desenvolvimento, da felicidade e da luxúria.
Texto de Salomão António



