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Algum dia temos de Morrer!

Por admin
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Com apenas 16 anos, é já um ícone global contra o fundamentalismo. Os talibans quiseram roubar-lhe a infância e continuam a vê-la como um alvo a abater. Ela resiste, sem medo e sem rancor É pequena, mas possui cabeça determinada, uma cabeça que se destaca na delicadeza do seu corpo minúsculo.

 Veste roupas tradicionais, de cores alegres, e a sua face está enquadrada por um bonito véu, graciosamente colocado. Parece uma figura de Natal, uma pastorinha de terracota. O nosso encontro efectua-se numa sala privada de um hotel em Birmingham, no Reino Unido.

Malala observa-me, perfeitamente concentrada, uma adolescente cautelosa e séria que controla tudo. Começa por me agradecer, muito educada. Interrompo-a:

Não se sente oprimida com as expectativas que todos parecem ter de si?

Não. Estou comprometida com a causa da educação centro-me nos meus estudos, mas o que mais me importa é a educação de todas as meninas do mundo. Orgulho-me de trabalhar para a educação das meninas, e a verdade é que é uma grande oportunidade ter hoje este entrevista consigo. Muito obrigada!

Respondeu de forma categórica, com uma segurança e um tal profissionalismo que a última palavra foi em espanhol. Imagino-a a aprender a agradecer em todas os idiomas aos seus entrevistadores. Uma menina aplicada. No seu livro eu sou Malala, lançado na passada semana, conta, com graça, uma história reveladora:  o meu professor de química (no Paquistão), o senhor Obaidullah, dizia que eu era uma política nata porque, no início dos exames orais, eu dizia-lhe sempre “Senhor, posso dizer-lhe que é o melhor professor e que  a sua aula é a minha preferida?”

O nível de autocontrolo de Malala parece-me incrível: tem 16 anos! Mas, como se vê na sua arrebatadora autobiografia, vive uma vida adulta e anormal, desde os 10 anos. Os talibans não a conseguiram matar nem calar quando lhe meteram uma bala na cabeça, mas roubaram-lhe boa parte da infância.

Já está bem de saúde?

Estou muito bem e isso deve-se ás orações dês pessoas e também às enfermeiras e médicos que me atenderam muito bem, e a Deus, que me concedeu uma nova vida. Faço fisioterapia uma ou duas vezes por mês, no lado esquerdo da cara, porque o nervo facial que controla o movimento desse lado foi cortado pela bala e, portanto, deixou de funcionar. Mas já coseram esse nervo, que começou a reconstruir-se e está a recuperar muito bem.

A bala entrou baixo do olho esquerdo e saiu pelo ombro esquerdo. Partiu os ossos de metade da face, seccionou o nervo e tocou no cérebro, que inchou tanto que os médicos Durante quatro meses, Malala esteve com o cérebro ao ar, ate lhe colocarem uma placa de titânio na nuca. Durante esse período, teve metade do seu rosto desfigurado: conseguia falar, mas não podia rir-se e as dores eram terríveis. No seu discurso na ONU, no passdo dia 12 de Julho, data em que fez 16 anos, eram mais visíveis as sequelas do que agora: a reabilitação surtiu efeito. Continua a ser uma rapariga bonita.

Você passou por uma situação muito dura e poderia ter levado muito tempo a recuperar. Mas não, quis publicar este livro, que a obriga a dar entrevistas e a estar de volta às luzes da ribalta. Foi uma escolha. Que parece difícil.

Isto já é a minha vida. Não a posso abandonar. Quando vejo as pessoas na síria, que estão desamparadas, quando vejo todas as pessoas do Paquistao a sofrer com o terrorismo, então não posso deixar de pensar “Malala, porque esperas que outro assuma o comando? Porque não o fazes tu, porque não falas tu dos seus direitos e dos teus?” eu comecei a minha luta aos 10 anos.

Eu sei. Quando chegaram os talians.

Naquela altura, vivia com o meu pai, em Swat, na nossa região natal. Aparecerem os talibans e começou o terrorismo, assassinaram pessoas, os corpos apareciam decapitados, nas praças de  Mingora, a nossa cidade. Destruíram muitas escolas, destruíram os cabeleireiros, queimaram os televisores em grandes fogueiras, proibiram as raparigas de irem à escola. Havia muita gente contra tudo isto, mas tinham muito medo, as ameaças eram enormes, portanto houve muito poucos que se atreveram a erguer a voz em prol dos seus direitos, e um deles foi o meu pai. E eu segui o meu pai.

O livro de Malala não é só sobre Malala mas é, também, sobre o seu pai. Um tipo singular, heróico, um professor disposto a conquistar,  através da cultura, um futuro de justiça e de paz, num mundo em chamas. E um homem que, alem disso, numa sociedade brutalmente machista como a paxtun, apoiou a filha mais  velha e deu-lhe a mesma liberdade e a mesma confiança que a um verão. O pai, ziauddin, também aqui está, sentado do outro lado da mesa. Baixinho, com cerca de 40 anos, com um sorriso de menino. A gravidade de Malala contrasta com a leveza juvenil de Ziauddin. Aos 11 anos, no período mais negro do terror taliban, Malala começou a escrever um blogue para a BBC, em língua urdu. Na primeira entrada, dizia: “No meu caminho da escola para casa ouvi um homem a gritar: hei-de matar-te! Apressei o passo… mas, para meu grande alívio, vi que ele estava a falar ao telemóvel e devia estar a ameaçar outra pessoa.” Também começou a aparecer nas televisões e rádios, com o pai, para protestar contra os abusos. Eram praticamente os únicos a fazê-lo.

O livro tem parte que é como uma história de terror.

Conta: Tinha 10 anos quando os talibans chegaram ao nosso vale. Moniba (a sua melhor amiga) e eu tínhamos estado a ler os livros de Crepusculo e desejávamos ser vampiras. E pareceu-nos que os talibans chegaram de noite exactamente como vampiros. O importante é que se perguntamos às crianças daqui do que tem medo respondem que de um vampiro, ou de um monstro, mas, no nosso pais, temos medo dos humanos, os talibans são seres humanos, mas são muito violentos e fazem tanto mal que, quando uma criança ouve falar de um taliban, fica cheia de medo, como se o taliban fosse um vampiro ou um monstro.

Proibiram a música, proibiram toda a gente de cantar….

Proibiram-nos tudo e se ouviam barulho e risco numa casa irrompiam pela casa dentro e se aí estavam a cantar ou a ver televisão, partiam os televisores. Umas vezes limitavam-se a ameaçar as pessoas, outras vezes levavam-nas, espancavam-nas ou fuzilavam-nas. Não nos deixavam brincar aos cabeleireiros, nem com as bonecas.

Vocês acabaram a ver televisão dentro de um armário. Era o cúmulo do absurdo.

Sim e com o volume muito baixo, para que mais ninguém ouvisse. Com tanto medo, a vida era muito dura e pensávamos com desespero no nosso futuro. Mesmo assim, ainda tínhamos uma certa esperança, num cantinho do coração.

Depois, os talibans começaram a matar. Primeiro, polícias que, assim, deixaram os empregos e colocaram anúncios nos jornais informando que já não eram polícias, para que não os assassinassem… O seupróprio pai, quando o ameaçaram, pôs um anúncio que dizia:«Matem-me a mim, mas não façam mal às crianças da minha escola, que rezam todos os dias ao mesmo  deus em que vocês  acreditam.»

Sim e depois havia a rádio dos talibans, pregavam duas vezes por dia. E deixavam mensagens como: Felicitamos fulano, que deixou crescer a barda e, por isso, vai entrar no paraíso; felicitamos beltrano, que fechou a loja de vídeos e se arrependeu; congratulamo-nos por a menina sicrana ter deixado de ir à escola… e as meninas que iam à escola eram insultadas e diziam-nos que iríamos para o Inferno.

Nos últimos anos, vocês estavam convencidos de que o vosso pai, Ziauddin, seria assassinado. E imaginaram todo o tipo de estratégias para o evitar… Os seus dois irmãos (mais pequenos) queriam construir um túnel…

Sim e também pensávamos esconder o esconder o meu pai num armário. A minha mãe dormia com uma faca debaixo da almofada e também deixávamos uma escala apoiada no muro de trás para que o meu pai pudesse fugir se o viessem buscar. Algum tempo depois, graças a essa escada, um ladrão invadiu a nossa casa e roubou-nos a televisão.

De facto (intervém o pai do outro lado da mesa, ficamos satisfeitos por só terem levado a televisão, porque se tivesse levado a escada, teríamos tido medo a sério.

Certo! Por isso, foi alguém que, como vocês, só queria ver televisão!

Sim, sim! (Malala e Ziauddin riem) Graças a Deus que foi ladrão!

Como lidavam com esse medo todos os dias?

Foi tudo muito duro. Não sabíamos o que o futuro nos reservava. Queríamos falar mas não sabíamos que as nossas palavras nos conduziram à mudança, que seríamos ouvidos em tudo o mundo. Não tínhamos conhecimento do poder que um lápis ou um livro encerra. No entanto, ficou demonstrado que os talibans, que tinham espingardas e explosivos, eram mais fracos que as pessoas “armadas” de lápis e livros.

No livro, conta que, há pouco tempo, um centro comercial em Abu Dhabi, teve um ataque de pânico. Voltou a acontecer?

Sim, já aconteceu duas ou três vezes. Quando vi as pessoas à minha volta, em Abu Dhabi, pensei que estavam armadas, a preparar uma emboscada, que iam disparar. E depois pensei: «porque tanto medo agora? Já viste a face da morte, já não deves ter medo, vê-se que já nem a morte te que matar; a morte quer que vivas e trabalhes em prol da educação.» De forma que pensei: “Não tenhas medo, segue adiante, que Deus e as pessoas acompanham-te.” Algum dia temos de morrer!

Mas você é demasiado jovem

Demasiado jovem, demasiado jovem – repete o pai, como um coro grego.

Há outra coisa que me parece muito importante em si, o facto de ser crente. Uma intelectual argelina disse-me, há anos, que a esquerda argelina tinha fracassado no seu intento de modernizar o país, porque se tinha alheado do povo e da sociedade. Eram laicos, demasiado modernos, demasiado ocidentalizados para ser aceites pela maioria. Pelo contrário, você continua perfeitamente integrado na sua cultura e na sua religião.

Amo Deus, porque me protegeu e penso que me vai perguntar no dia do juízo final:«Malala, vais o sofrimento das pessoas em Swat, vias como as meninas sofriam, que massacravam as mulheres. O que fizeste para defender os seus direitos?» Senti que era meu dever clamar pelos direitos das meninas, pelos meus, pelo direito de ir à escola e faço-o em nome de deus, pelo mesmo deus que os talibans me balearam.

Quando tinha 11 anos e mantinha o seu blogue, o The New York Times fez um belo documentário de televisão sobre a Malala e o seu pai. Digo-lhe que, quando o vi, pensei que o seu pai era mais idealista, mais louco, e que você era a mais sensata dos dois. Bom, você pareceu-me a mãe do seu pai, perdoe-me Ziauddin.

(Os dois riem-se)

Viu-me assim? Na sociedade paxtun, se uma rapariga é muito madura e  começa a falar muito cedo de coisas da família, digamos aos 11 anos, chamam-lhe niyá- ou seja avó.

Pois, não sei se você será uma niyá, mas tem um grande sentido prático. As duas primeiras coisas que disseram, no hospital de Birmingham, após uma semana em coma induzido, foram: Onde está o meu pai? e Não temos dinheiro para pagar tudo isto.»  

Na altura, estava muito confusa. Quando um médico falava com uma enfermeira, pensava que lhe estava a perguntar como iríamos pagar o hospital e pensava que me iam expulsar e que teria de procurar um emprego.

Nesse mesmo documentário, dizia que o seu pai queria que fosse política, mas que você queria ser médica. Mudou de opinião?

Amo o meu pai e ele insira-me, o que não significa que estejamos sempre de acordo. Ele acha que a política é boa e serve para mudar o mundo, mas eu antes queria ser médica. Só que o tempo foi passando e percebi que o governo não estava a fazer nada, que o seu dever era conceder os direitos básicos ao povo, proporcionar-lhes electricidade, gás, educação, bons hospitais. E, então, pensei que sim, que queria ser politica para conseguir uma grande mudança no meu país. Para que, um dia, o Paquistão esteja em paz, para que não existam nem guerra nem talibans e para que todas as meninas possam ir à escola. E não quero apenas ser política, também quero ser líder.

Líder social?

Sim, líder social e conduzir as pessoas, porque o povo do Paquistão anda desorientado, está dividido em muito grupos e chega um líder e forma um grupo, chega outro e forma outro grupo diferente, mas nunca vi ninguém que saiba unir as pessoas. Quero fazer com toda essa gente se uma, quero ver justiça e igualdade entre todos.

No seu livro, diz que, aos 13 ou14 anos, via os DVD de serie norte-americana Betty feia«que era sobre uma rapariga com uns dente enormes e um coração também enorme». E acrescenta: “Gostei muito e sonhava com a possibilidade de um dia ir a Nova Iorque e trabalhar numa revista como ele.” Parece-me uma afirmação comovedora. A revista de Betty Feia é de moda! Esse desejo de uma vida normal, sem o peso sobre-humano que você carrega sobre os ombros…

Gostava de ver a série, gostava de pensar noutro mundo onde o maior problema fosse a moda, quem veste qual roupa, que sandálias, que cor de bâton usa tal rapariga… enquanto, por outro lado, as crianças morrem de fome, as mulheres são chicoteadas e aparecem corpos decapitados.

O que este indicia é esse compreensível desejo de uma existência normal…

Malala olha-me fixamente, espera uns segundos e diz que sim com a cabeça. Nem se atreve a verbalizar o seu desejo de outra realidade. É uma menina que esta refém de uma responsabilidade colossal. Imaginem a situação: uma realidade de violência, um pai heróico que indica o caminho a uma menina inteligentíssima, consciente da sua própria dignidade e com uma grande capacidade de compaixão.

As balas dos talibans deram-lhe protagonismo global, a ponto de ter sido agraciada com o Prémio Sakharov e candidata ao Nobel da Paz. Malala tem sonhos grandiosos para o futuro do seu povo. Sonhos inocentes e difíceis de atingir mas que talvez ela consiga concretizar, porque este pedacinho de mulher são poderosos.

Pai e filha têm algo de cristalino, o coração na boca, uma luz que brilha. Mas a luz de Malala está cheia de sombras, é uma estrela cheia de dor e de determinação. Aos 16 anos, está disposta a sacrificar a vida pelo seu projeto.

Alguma VEZ se apaixOnou? Refiro-me a esses amores infantis, por um actor, por um homem mais velho.

(Risos) Gosto muito dos jogadores de criquete. Há um chamado Shahid Afridi, que é sempre eliminado sem pontuar, mas todos gostamos muito dele. Também gosto do Roger Federer. Existem muitas, mas isso não significa que me case com eles.

Mas pensa casar-se?

Talvez!

Interessantes, porque, na zona do globo onde nasceu, todas as líderes políticas tiveram de casar-se: Benazir Bhutto, Indira Gandhi… É uma boa resposta.

 É uma resposta diferente.

Bom, nada mais. Muito obrigado, Malala.

Muito agradecida pelo seu amor e apoio.

E, ao ouvir a sua maravilhosa resposta final, sinto-me como o senhor Obaidullah, o seu professor de química.

In Visão

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