
Mulheres jogadoras, treinadoras e dirigentes exigem tratamento semelhante ao que tem sido proporcionado aos homens no futebol. Na prática, treinamento e na gestão deste
desporto não se julgam inferiores aos colegas do sexo masculino, pelo que pedem fim ao machismo que continua a ensombrar as actividades futebolísticas femininas.
Elas, que já são muitas no país, também querem ver as autoridades governamentais que gerem o desporto em Moçambique com mentalidade mudada para com as desportistas do sexo feminino, sobretudo do futebol, passando das palavras bonitas para actos concretos de paridade desportiva.
Quem igualmente não escapa à crítica das mulheres é a imprensa, aliás, jornalistas desportivos, que, no dizer delas, pouco ou nada reportam do futebol feminino.
Gostariam que as várias actividades realizadas, do Rovuma ao Maputo, merecessem espaços noticiosos da Rádio Moçambique e Televisão de Moçambique, dois influentes órgãos de comunicação social públicos.
E estranham o facto das outras rádios e televisões, mais os jornais, ainda não tenham percebido que futebol feminino também é desporto, cuja prática é consagrada pela lei no pais.
Porque os próprios homens do desporto não dão importância devida às actividades desportivas das mulheres, estas acham que isso deixa o futebol feminino empobrecido e sem merecimento de patrocínios.
Mesmo sem esperança de que a situação um dia mude a seu favor, elas não param de trabalhar. Com ajuda de Augusto Matine, director do gabinete técnico das camadas jovens, começam a acreditar num futuro melhor.
Nas províncias e na cidade de Maputo as jogadoras integrantes das selecções nacionais de sub/17, sub/20 e seniores, já se treinam duas vezes por semana, aprendendo e eliminando alguns erros.
Os depoimentos que domingo aqui publica foram recolhidos no “quartel-general” das selecções nacionais de Moçambique, o campo do 1º de Maio, na cidade de Maputo, onde a vontade e o amor ao futebol supera de longe as dificuldades porque passa o futebol feminino.
Legenda Foto: Selecção
Mesmo com dificuldades, as meninas não se cansam de treinar
As meninas gostam
da escolha que fizeram
– Madalena Tajú, treinadora
“As meninas gostam da escolha que fizeram. Elas gostam muito do que fazem. Tentam fazer o máximo. Já estive em Lichinga a ensinar aquilo que nós fazemos aqui. Trabalhei com o gabinete técnico de Lichinga. Lá também se trabalha no campo nas segundas e terças-feiras. Queremos que todo país faça a mesma coisa. As províncias querem ter próprias selecções que permitam intercâmbios entre elas”, conta Maria Madalena Tajú, do gabinete técnico da FMF.
Madalena Tajú reconhece que o futebol feminino “já tem lugar no desporto nacional. Podemos não estar a ganhar, mas existimos e somos cobiçados para jogos amigáveis na nossa zona africana. Existe um reconhecimento externo de que em Moçambique há futebol feminino. Durante os treinos e os jogos delira-se com o espectáculo das meninas jogadoras”.
Apesar de financeiramente não se olhar as selecções de futebol feminino como se olha as do futebol masculino, Madalena Tajú diz que no seio da FMF nunca se sentiu desprezada pelos homens.
“Nós mulheres nunca nos sentimos mal no seio da federação. Sempre fomos bem aproveitadas ao serviço do futebol. Eu já representei a FMF numa deslocação do Chingale de Tete ao exterior. E temos sido muito úteis em questões logísticas. Já estive no congresso da FIFA aquando do “Mundial” da França, em 1998. O que eu gosto da federação é ver os homens a respeitarem e a gostarem do nosso trabalho”.
LIVRO NA FORJA
Madalena Tajú, uma das antigas combatentes do sector de Educação Física, na qual se formou professora, vai estrear-se na literatura com um livro denominado “O ABC do Futebol”.
“Estou a escrever um livro intitulado O ABC do Futebol. Até ao fim deste ano estará concluído. No princípio do próximo ano será lançado. O Instituto do Desporto de Portugal vai ajudar na sua divulgação pelo mundo fora.”
Madalena estudou futebol numa universidade brasileira, tendo-se especializado na formação e treinamento. Está apta para as funções de director técnico de um clube. E pode ser contratada por qualquer clube para dar treinos. Como professor de Educação Física está credenciada para preparadora física de qualquer modalidade.
Nesta aventura de escrever o “ABC” de futebol conta com os ensinamentos que vai adquirindo de Augusto Matine, do qual espera saber com qual das selecções femininas vai trabalhar directamente.
Legenda Foto: Madalena
Madalena Tajú: “lá fora deliram com o nosso espectáculo”
Devia-se especificar
apoios para nós
– Helena da Luz, jogadora
Helena da Luz é também meio campista. Joga futebol desde 2007. Já representou Académica, Maxaquene, Costa do Sol e agora Benfica de Laulane.
“Se me perguntasse porque jogo futebol, diria que ajuda a ocupar os tempos livres. E faz bem a saúde” diz Helena da Luz.
Falta de ajuda ou de patrocinadores é o hino do futebol feminino. É entoado por todas as suas praticantes.
“Há falta de patrocinadores. Os empresários deviam também olhar para o futebol feminino, porque as mulheres são capazes de trazer para o país muitas alegrias. Sabemos que tem havido pedido de patrocínios, mas o empresariado não responde positivamente. Acho que o próprio Governo devia especificar apoios para o futebol feminino. Tudo é futebol. Estágios fora do país também fazem bem a nós mulheres do futebol. Felizmente, a bola que usamos é a mesma dos homens, redonda”, concluiu ela que joga a médio direito.
Precisamos de patrocínios!
– Claudete Pereira, presidente da Comissão Nacional do Futebol Feminino
As mulheres estão com muita força na prática e organização do futebol, mas se deparam com muitas dificuldades, com destaque para a falta de dinheiro para financiar as movimentações das selecções nacionais.
“Precisamos de patrocínios para o futebol feminino. Esta é a nossa grande preocupação. As empresas se recusam a dar patrocínios alegando que o futebol feminino não tem visibilidade. Como ter visibilidade sem dinheiro? Visibilidade se busca jogando. Queremos trazer das províncias jogadoras que têm lugares nas selecções nacionais, o que só é possível se tivermos patrocínios”, refere Claudete Pereira, presidente da Comissão Nacional de Futebol Feminino.
“Estamos a preparar a selecção sub-20, com algumas atletas de sub-16 e 17 incluídas, para o futuro. Com patrocínios podemos trabalhar seriamente.”
Para já, é necessário um milhão de meticais para Moçambique participar das eliminatórias para o Campeonato do Mundo de 2014, no Canadá.
Moçambique deve primeiro ir defrontar Tanzânia entre os dias 25,26 e 27 de Outubro, em jogo da primeira “mão”, e entre os dias 8,9 e 10, em Maputo, em partida de retribuição.
Se passar da primeira eliminatória vai jogar com o vencedor do cruzamento entre Botswana e África do Sul, entre os dias 6, 7 e 8 de Dezembro, primeira “mão”, e 20,21 e 22 do mesmo mês, segunda “mão”. E se passar dessa, vai jogar para a qualificação com Marrocos ou Nigéria, em Janeiro de 2014.
“Estamos a trabalhar desde Abril a pensar em nos qualificarmos para o “Mundial” de Canadá. Mas como chegar lá sem patrocinadores? Com um milhão de meticais é possível seguir a caminhada. Quem nos vai dar? É mais fácil chegar a um campeonato mundial com o futebol feminino que com os “Mambas”. É preciso investir no futebol feminino. E neste país há provas suficientes de que as meninas têm sabido elevar melhor a bandeira nacional”.
As nossas meninas de futebol, que não se chamam “Mambas” nem “Mambinhas”, conforme nos revelou Claudete Pereira, precisam de fazer muitos jogos amigáveis.
“Temos convites de Lesotho e Namíbia. Mas como chegar lá sem dinheiro? As pessoas nos criticam quando perdemos, mas como ganhar se não nos ajudam?”, questiona Claudete Pereira.
Ainda no capítulo de ajudas, Claudete Pereira agradece a Educação que já ajudou na formação de algumas jogadoras.
“Também estamos preocupados com a educação das raparigas, muitas delas a estudarem em instituições universitárias. O Governo devia ajudar-nos com bolsas. Já tivemos ajuda da Educação que permitiu a formação de algumas delas”.
Jogamos pelo
amor à modalidade
– Inês Chingueleze, jogadora
Inês Celestino Chingueleze é das caras mais visíveis do futebol feminino moçambicano. Pratica futebol federado desde 2005. Já representou Costa do Sol. Agora joga pelo Paradise, com o qual já ganhou três títulos nacionais.
“Sou meio campista. Gosto de jogar futebol. Na verdade, nós as mulheres jogamos pelo amor à modalidade. Não temos tido apoios. Faltam-nos ajudas. Podem pensar que nós não queremos evoluir, mas é por falta de apoios”, afirma Inês Chingueleze, ela que se confunde com qualquer craque de futebol masculino. Brinca com a bola como o seu amigo Dominguez.
“Eu acredito que se aparecer alguém a olhar por nós, algo vai mudar nas nossas participações internacionais. É difícil enfrentar adversárias melhor preparadas técnica , física e logisticamente. Temos boas qualidades técnicas, mas fisicamente…precisamos de trabalhar mais. Apoiem-nos. Estamos a pedir que o país olhe por nós com os mesmos olhos com que olha os “Mambas”.
Inês parece querer dizer algo mais, e diz mesmo:
– Temos tido falta até dos jornalistas desportivos. Há seis meses que não aparece nenhum aqui. Vocês são os primeiros.
E do nosso lado mais uma pergunta: dizem que bebem muito. É verdade?
. Não tanto!
Ela confessa ser admiradora de Dominguez e Josimar, que também “são meus grandes amigos”.
Não somos bem atendidos
– Amália Vilanculos
“O futebol feminino não é bem atendido. Faltam condições para bons resultados”, quem assim diz é a jogadora Amália Vilanculos, do Costa do Sol, que já representou Zixaxa e Paradise, duas vezes campeã da Cidade de Maputo.
Amália não está desesperada porque agora já pode estar a treinar todas as semanas pela selecção nacional, mesmo sem jogo à vista e com um homem que gosta do futebol feminino, “mister” Matine.
“Temos que estar sempre a trabalhar e estamos a trabalhar. Já há seriedade na nossa preparação. Estamos certos que algo vai melhorar em nós, desde que não continuem a faltar apoios, claro”. Ela diz notar que proximamente “conseguiremos bons resultados.”
Desportista que é, não deseja mau tratamento aos “Mambas”, mas defende que “são demasiadamente privilegiados. Mesmo lá em casa se os pais olham mais para os rapazes, as meninas ficam com a moral baixa. Nós e os Mambas devíamos ser tratados como irmãos da mesma casa.”
Ela gostaria de participar num campeonato mundial e admira o jogador moçambicano Zainadine Jr.
Onde andam…
jornalistas desportivos?
Para as mulheres do futebol parece que neste país não existem jornalistas desportivos. Não compreendem com é possível haver determinados órgão de informação que ficam um ano inteiro sem escrever uma única palavra sobre a participação da mulher em actividades desportivas. O campeonato nacional de futebol feminino recentemente realizado em Nampula foi praticamente ignorado pela imprensa desportiva.
“ Os midias não acompanham a evolução do futebol feminino. Nunca aparecem os resultados dos nossos jogos nos jornais, nas rádios nem nas televisões. Há espaços e horas específicas para o desporto nesses órgãos de informação, mas nunca as realizações do futebol feminino são tidas notícias. O futebol feminino precisa de divulgação para poder ser acreditado por aqueles que podem patrocinar”, relato da Claudete Pereira, presidente da Comissão Nacional de Futebol Feminino, na FMF, coadjuvada por Madalena Tajú do Gabinete Técnico.
“ A Miramar é a única televisão que quando convidada comparece. As outras nem com o Moçambola parado nos visitam. Agora no “Nacional” de Nampula ficamos admirados quando uma vez vimos no campo uma câmara da televisão pública (TVM). Uma vez a outra se ouve da Rádio Moçambique qualquer coisa de futebol feminino. Já agora, fiquem sabendo senhores jornalistas, que os jogos do futebol feminino têm mais publico nas bancadas que muitos do Moçambola.”
As senhoras chegam de afirmar que “ sentimo-nos enteadas dos órgão de informação e de outros sectores ligados ao desporto ao lado do futebol masculino. Até parece que no país só temos jornalistas do Moçambola e não do desporto no seu todo.”
Os clubes, conforme as nossas interlocutoras, também não ligam importância às mulheres, chegando a negarem que os seus jogos do Moçambola sejam antecedidos dos do futebol feminino, alegadamente para “não darem azar.” O único clube que não despreza o futebol das mulheres “ é o Costa do Sol, que tem no seu seio uma equipa de feminina. Os restantes não aceitam, apesar do aconselhamento da FIFA, que se predispõe a ajudar quem abraça o futebol feminino.” E dizem ver luz no fundo do túnel garantia de Matchedje de Maputo a partir do próximo ano passa a ter futebol feminino.
Manuel Meque



