Apesar dos resultados pouco promissores registados nos últimos anos em várias campanhas, o atletismo – modalidade rainha dos Jogos Olímpicos –vai continuar a merecer especial atenção nos programas do Comité Olímpico de Moçambique (COM) no ciclo que inicia dia 1 de Janeiro próximo.
A garantia foi dada ao domingo pelo presidente do COM, Marcelino Macome, que fundamentou ser o atletismo a especialidade na qual o país tem maiores possibilidades de lograr resultados satisfatórios.
Na carta de fundamentos enunciada por Macome figuram factores financeiros e técnicos, que, quando combinados com os resultados de Moçambique nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, deixam claro que é ao atletismo que o país deve continuar a direccionar maiores energias e investimentos.
–De uma coisa estamos claros: o atletismo, tal como noutros países de África, deve ser a grande aposta do país para os Jogos Olímpicos. A grande questão é que nas modalidades muito técnicas as possibilidades são reduzidas. O atletismo tem a sua técnica, mas é mais fácil e realiza-se com muito menos dinheiro. O que foi aplicado em dois atletas de canoagem não imaginam em quantos teria sido usado no atletismo.
Conforme explicou aquele dirigente, o Comité Olímpico vai investir seriamente para a criação de pelo menos um centro de alto rendimento em Moçambique para preparar os atletas de modo a garantirem marcas de apuramento aos eventos internacionais e, uma vez qualificados, discutirem os primeiros lugares.
Mau grado o facto de a modalidade acontecer apenas em melhores condições na cidade de Maputo, onde estão concentradas as duas pistas de tartan. Por isso, Macome argumenta que há muitos talentos desta modalidade excluídos pelo país fora.
–O atletismo é a modalidade mais simples de praticar em Moçambique e é a menos técnica. Paradoxalmente, só temos duas pistas e todas estão no Sul do país, na cidade de Maputo. Então todo talento que sai de Xai-Xai para cima, até Cabo Delgado, não tem hipótese nenhuma para praticar o atletismo. Temos de alterar esta situação criando centros de treinamento e oferecendo condições dentro do país que os atletas necessitam, passando a viajar ao estrangeiro para as competições.
Macome é mais crítico e não percebe por que mesmo havendo duas pistas em Maputo continua a haver mais provas nas estradas da capital do país. “É difícil termos mais atletas porque neste sistema que temos, em que os atletas só correm na rua, só fazem provas de estrada, não resolvemos o problema; é preciso que tenhamos centros de treinamento e pessoas cientificamente capacitadas para nos dizer investe neste porque naquele não dá”.
OUTRAS MODALIDADES
Em princípio, à excepção de Kurt Couto –despediu-se dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro – os restantes atletas que representaram Moçambique no “Rio” vão merecer particular atenção do Comité Olímpico. Marcelino Macome chama a atenção que devem ser os atletas a serem seguidos atentamente do que propriamente as suas modalidades, porque pode acontecer que nessas suas especialidades não surjam novos valores e aí a situação será outra.
Perguntámos ao presidente do COM se não era momento de apostar noutras modalidades como a canoagem que pela primeira vez se qualificou aos Jogos Olímpicos. A resposta foi pronta e directa:
–Não sei se viram as competições de canoagem. Nós vamos continuar a apoiar a canoagem e outras modalidades, mas há aqui uma questão: a diferença para colocar os nossos atletas da canoagem a competirem com os outros é tão grande e tão exigente, mas pode acontecer.
Colocámos o caso da natação, outra modalidade que esteve no Rio de Janeiro, mesmo sem tempos mínimos de qualificação. Nova resposta incisiva:
–Depende do que vai acontecer, mas não queremos nos desviar, primeiro porque não temos dinheiro e, em segundo lugar, essas modalidades muito técnicas não são muito fáceis. Temos de apostar com base na existência de qualidade, e quando olhamos para os nossos nadadores, em função dos Jogos Olímpicos, temos de ser sinceros. Aliás, foi a única modalidade que não qualificou qualquer atleta para os últimos Jogos Olímpicos.
MAIS ATLETAS
NOS JOGOS OLÍMPICOS
O COM está preocupado com o número reduzido de atletas nos Jogos Olímpicos. Por isso, já definiu uma fórmula para inverter o actual cenário, a qual já é aplicada por outras nações.
Marcelino Macome afirma que Moçambique deve fazer o mesmo que os outros porque não há muito por escolher, isto é, os atletas moçambicanos não podem continuar a trabalhar em condições precárias relativamente aos adversários que vão encontrar nos Jogos Olímpicos ou nas provas de qualificação.
“Temos de criar condições para que os nossos atletas trabalhem em situações semelhantes dos adversários, nomeadamente ter centros de treinamento olímpicos com níveis básicos para um atleta de alta competição atingir determinado patamar de resultados”, referiu.
O presidente do COM observa que os atletas moçambicanos quando chamados a competir em competições de nível regional ou continental têm boas qualificações, mas quando chegam a nível mundial já não têm hipóteses. “Isso significa que o talento está lá, mas falta ainda muita coisa para que possam atingir o nível exigido internacionalmente”.
Referiu que a participação moçambicana nos Jogos Olímpicos também reduziu porque os critérios de qualificação são cada vez mais exigentes. “Cada olimpíada vai endurecendo mais as condições para a participação e nós praticamente estamos parados”.
Por isso, o COM está apostado em ter em Moçambique um centro olímpico, ao qual virão técnicos estrangeiros juntar-se a locais e seleccionarem os melhores atletas para representarem o país. E serão técnicos competentes e qualificados, como adianta Marcelino Macome:
–No nosso país é hábito um cidadão ver um jovem a jogar à bola ou a correr e dizer está ali um talento, ora, hoje em dia não é assim, há processos científicos que determinam que neste atleta podemos investir e naquele não. Nós neste momento investimos no escuro, se deu certo deu, e se não, não deu. Então queremos passar a aplicar princípios técnicos científicos para identificar talentos, treiná-los, investir e dar as condições necessárias para fazer tudo o que noutros países fazem, sobretudo africanos. Quando vamos aos Jogos Olímpicos notamos que os atletas africanos, no atletismo, por exemplo, ganham porque é mais fácil e menos dispendioso e no nosso país torna-se complicado porque só temos pistas em Maputo.
Segundo o nosso entrevistado, a redução do número de atletas nacionais nos Jogos Olímpicos também se deve à inércia das modalidades internamente. É o caso do atletismo, que nos Jogos do Rio do Janeiro poderia ter tido uma maior representação.
“Nos últimos jogos podíamos ter levado dois atletas, mas só levámos um. Porquê? Porque, de facto, não existem, não existe atletismo de alta competição para encontrar atletas com capacidade de resposta ao nível duma competição daquelas”, fundamentou.
REFORMAS
Durante o próximo ciclo olímpico, serão operadas várias mudanças no Comité Olímpico Internacional e, por tabela, nos nacionais. No âmbito da agenda 2020, o COM pretende ser mais aberto para os seus parceiros, integrá-los nas suas agendas e programas na medida do possível.
Com isso, pretende-se atingir pelo menos três objectivos, nomeadamente a sustentabilidade financeira, a credibilidade e a participação de todos os parceiros nos programas do Comité Olímpico.
–Estas reformas estão em processo e estamos a ouvir os parceiros. Se não ouves as pessoas de fora para transformar a sua organização, essas pessoas vão forçar. É preciso fazer reformas antes que nos obriguem a fazê-las.
Neste contexto, o Comité Olímpico de Moçambique já realizou seminários com dirigentes das federações nacionais, universidades e institutos e na semana passada com jornalistas.
Destas entidades, recolhe contribuições para responder ao objectivo duma maior abertura do COM e também uma maior inserção nas comunidades, para afastar definitivamente a percepção errónea de que aquela entidade está exclusivamente vocacionada para organizar a participação do país nos Jogos Olímpicos.
Relação com federações é fraca
Marcelino Macome assume que a articulação entre o Comité Olímpico de Moçambique e as federações nacionais não é satisfatória, situação que influencia os resultados finais internacionais.
Não aponta as culpas às federações, mas justifica que com melhor articulação o país podia apurar mais modalidades e atletas aos eventos planetários. Aponta o caso do futebol, que, no seu entender, tem potencial para num período de oito anos discutir um apuramento aos Jogos Olímpicos.
–A nossa relação com as federações é muito parada. Por exemplo, tenho a impressão de que no futebol, com um programa claro e com metas, podemos nos qualificar aos Jogos Olímpicos. Em oito anos podemos conseguir isso. Temos jovens que enquadrados e colocados nos centros de treinamento e de competições podem nos trazer bons resultados.
O dirigente observa que em campeonatos europeus de futebol dificilmente vemos um moçambicano. “Será que não temos qualidade? Estamos a trabalhar no sentido de alterar esta situação e antes de sentarmos com a nossa federação concebemos a ideia, identificamos parceiros. Estamos convencidos que não haverá problema e vamos trabalhar para que os nossos jovens talentosos possam ir jogar fora. Serão esses que vindo para a nossa selecção vão acrescentar qualidade e não serão mais eliminados pela Suazilândia”.
Texto de Custódio Mugabe
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