Quanto mais poder se tem, mais perigoso é o abuso – Edmund Burke
A fofoca, o escárnio e maldizer são algumas das coisas que mais me repugnam. Ferem-me a alma. Acredito que, como o fel, fazem tanto mal quanto uma arma de fogo. Matam. Dilaceram. Destroem. São como a peste negra entre companheiros da mesma traineira. Provocam dor. Podem destruir projectos de vida, famílias, sociedades.
É curial notar que fofoca e estória não são a mesma coisa. Não se pode evocar nenhuma proximidade entre estes conceitos. Maldicência é maledicência e ponto parágrafo. Estória é outra coisa. Bem diferente. Se bem que, nalguns casos, a estória pode ter contornos interessantes. Vale lembrar um episódio do arco-da-velha que ilustra e bem coisas que parecem verdade sendo claramente invenções.
Em 1938, umaleitura dramatizada sobre uma invasão de extra-terrestres, de Orson Welles da Guerrados Mundos, de H.G. Wells, em 1938, gerou o pânico na Costa Leste dos EUA; também o locutor português Matos Maia, em 1958, levou ouvintes a crerem que Carcavelos estava a ser invadido por marcianos. Na América, Welles ficou famoso; em Portugal, o locutor foi interrogado e admoestado pela PIDE.
Este é apenas um exemplo que ultrapassou fronteiras e, até aos dias de hoje, é citado como exemplo da força dos meios de comunicação de massas. Grosseiramente, poderiamos dizer que, estes episódios são os antepassados do que hoje vivemos com as redes sociais. As fronteiras estão sendo derrubadas. O conceito de aldeia global começa a influir na vida do mais pacato cidadão enrodilhado no distante Nipepe (Niassa) ou Negomano (Cabo Delgado). As notícias ou não, viajam à velocidade da luz… e fazem mossa!
As TIC´s (Tecnologias de Informação e Comunicação), fruto do engenho humano, têm como objectivo final proporcionar-nos comodidade no acesso às informaçõessobre quase tudo que ocorre neste globo que parece encolher cada vez mais dadas as crescentes facilidades de intercâmbio informacional.
Sucede porém que, alguns cidadãos usam as tecnologias disponíveis para fazer mal; para tripudiarem da sorte dos outros. Para o escarnío e mal dizer. Estamos lembrados, certamente, que há alguns anos alguém – muito mal intencionado – espalhou imagens íntimas de uma jovem estudante universitária. Dissesse na altura que eles tinham sido namorados e, por vingança, com o fim da relação, o jovem decidira fazer aquele gesto infame.
A coisa caiu como uma bomba… o que parecia ser um episódio fortuito afinal virou mania. Agora, quase todos os dias, há gente que cai na desgraça pública. O Whatsapp, coadjuvado pelo Facebook, virou arma de destruição maciça. Há quem viva com o credo na boca por causa desses dois aplicativos fundamentalmente… porque há outros embora não tão populares quanto estes.
As sociedades vivem de modelos. Pessoas que, pela sua posição social, trabalho ou outra razão, atraem as atenções de milhares de concidadãos. Os artistas são, regra geral, apontados como modelos de quase tudo; forma de vestir, de andar, de falar, entre outras coisas. Curiosamente, são também as maiores vítimas da barbarie que se instalou. Quantas vezes não vimos no Facebook a “morte” de gente famosa? Quantas vezes “morreu” Ta-Basily ou Roberto Carlos?
A última pérola foi a suposta prisão de Moreira Chonguiça, um dos artistas mais proeminentes da nossa cena musical. Moreira é o mentor do projecto More Jazz Series que há 6 anos tras ao país artistas de nomeada. Omar Sosa, Judith Sephuma, Manu Dibango aportaram ao nosso país via Moreira.
Dizia que alguém, decidiu postar no Facebook e depois no Whatsapp que o músico fora detido num aeroporto londrino na posse de 2 Kg. de cocaína. Todos nós podemos imaginar o efeito que uma notícia dessas faz. O músico tem família, é pai, é filho, neto e sobrinho de outras tantas pessoas. Tem amigos e colaboradores. Todos entram em transe. Será verdade? Mas como isso pode ter acontecido? A mensagem espalhou-se como labareda em palha seca. Um verdadeiro circo de horrores… entretanto, a verdade é que o saxofonista, por mero acaso, enquanto a notícia se espalhava, estava num restaurante a almoçar com um grupo de amigos e colaboradores da sua empresa.
O estrago é inqualificável. Depois é preciso correr atrás do prejuízo. Justificar coisas absurdas. Perder tempo com baboseiras. Tempo preciso gasto em asneiras. A justificação onde quase todos se escondem é na famosa palavra “Repassando”; quer dizer recebemos informações e sem sequer nos determos um minuto a pensar se é verdade ou não e nas consequências das mesmas e pimba, repassando!
Há uma grande promoção de idiotices, facilitismos e falta de auto estima. Hoje matamos e difamamos via whatsapp. Amanha, Repassando, podemos iniciar uma “confusão” de consequências imprevisíveis. Vivemos dias difíceis. A vida está cara. Os nervos andam a flor da pele e só precisam de um estopim para a erupção acontecer. E pode resultar em danos irreparáveis. E não vale nada depois justificar o infortúnio causado com base em fontes sobrenaturais do mal porque isso não é necessário. Está visto que o homem, por si só, é capaz de toda maldade… mas um pouco de amor ao próximo pode vencer as trevas!
Belmiro Adamugy



