
Para muitos ser “disc jockey” (DJ) é coisa de miúdos. Basta ter uma aparelhagem, uns discos, saber fazer umas misturas básicas e… pronto! Já és DJ. Porém, os praticantes desta arte entendem que se trata de uma profissão a sério. Como ser jornalista, advogado, pedreiro, contabilista ou serralheiro. Mas não escondem que também se divertem. E muito. Com o passar do tempo, muitos começam a assumir esta actividade a ponto de constituírem empresas, embrenharem-se pelo associativismo e a exigir direitos trabalhistas.
Parece pouco crível que os DJs tenham criado uma associação que em pouco tempo já conta com cerca de 500 membros que dizem ser possível viver desta actividade e que defendem que deve ser vista como uma profissão igual às outras. Aliás, muitos começam a criar empresas para que a gestão da carreira seja cuidada como se faz com grandes artistas e atletas de alto nível.
Um dos conceituados nesta área de trabalho é Hortêncio Conjo, mais conhecido por DJ Damost, que percebeu os riscos da actividade, geralmente associada a noitadas em ambiente banhado de mulheres, álcool e droga, e decidiu criar uma empresa designada Tome nota eventos que cuida de todos os contratos, receitas e despesas, informação sobre os locais de actuação, hora, data, entre outros.
“Eu apenas vou tocar e não respondo por questões financeiras. Repare que só há pouco é que fiquei a saber quanto se cobra por um casamento e que o valor difere do de uma festa de aniversário. Os meus colegas tratam de tudo isso. Eles cobram valores distintos porque se trata de festas com graus de exigência diferentes”, disse.
Quem também decidiu estabelecer uma empresa é o DJ Mandito que comanda a Mando Produções há cerca de sete anos e através dela presta serviços de som e luz para todo tipo de evento para além de gerir a sua carreira. “A minha esposa deu-me esta ideia depois de perceber que geria a minha carreira sozinho. Muita gente enganava-me. Chamavam-me para actuar e, no final, não pagavam. Hoje, só saio de casa com o contrato assinado e pago”.
O que faz com que os praticantes desta actividade exijam que ela seja vista como profissão “de verdade” é que investem muito em equipamento, pesquisa de música, horas de preparação, transporte, entre outros, e tudo isso deve ser compensado não apenas pelo cachet mas também pelo reconhecimento da sociedade.
Mandito afirma que até há poucos anos a sensação de desprezo pelos profissionais desta área era bem maior, uma vez que na maior parte dos casos era o cliente que definia quanto e como pagar a quem dedicou horas a animar a sua festa.
Mencionam o difícil acesso aos equipamentos que são cada vez mais caros. “Tendo em conta que o país não produz computadores, escutadores, leitores, misturadores ou bolsas de CDs, somos forçados a recorrer à vizinha África do Sul onde um par de leitores novo custa a volta de 500 mil meticais”, contam.
Para além do investimento em equipamento, os DJs profissionais queixam-se da concorrência desleal que lhes é feita por principiantes e amadores que estão dispostos a trabalhar a qualquer preço, sem o menor rigor profissional e que banalizam a actividade.
“São esses que fazem com que a sociedade olhe para nós como marginais porque, para além de prestarem maus serviços, embebedam-se em pelo trabalho, cobram valores extremamente baixos, enfim, desvalorizam a profissão”, disseram.
Por tudo isto, Damost entende que a sociedade não reconhece o DJ como uma peça fundamental em eventos. “Por isso não aceitam pagar o que pedimos. Valoriza-se mais o serviço de catering, ornamentação,barman, mas quando chega a vez do DJ sentem-se a perder. Mas o nosso trabalho é igual aos outros e sem ele não há festa”.
Orlando Simão, tratado por DJ Black nas lides artísticas, divide o tempo de misturas na mesa de som com o de professor de Matemática na Escola Secundária de Lhanguene, em Maputo. Conta que “algumas pessoas ainda não perceberam que somos profissionais. Quando marcamos um cachê reclamam porque olham para este trabalho como diversão”.
Apesar de todas estas dificuldades, Orlando Simão partilha a opinião de que há uma certa mudança de visão, ainda que ténue, da sociedade em relação aos profissionais desta área que é fruto do espaço que as rádios e televisões estão a dar nos seus espaços de antena para que estes possam falar das suas carreiras, desafios e oportunidades.
“Esta abertura oferece-nos alguma dignidade e visibilidade. Aliás, começa a ser tolerado pelas famílias que começam a aceitar que um filho diga em voz alta que quando crescer quer ser DJ. O que falta é fazer com que esses jovens percebam que este trabalho tem as suas vicissitudes e não deve ser visto apenas como um trampolim para a fama”, disse.
Por ser uma profissão ainda estigmatizada, são poucas as mulheres que se dispõem a encarar o ambiente de uma cabine de som para fazer misturas em ambientes de festa doméstica, pior em discotecas ou em festas mais amplas. O DJ Eduardo PM refere que num passado recente, algumas jovens quiseram experimentar essa sensação e, pouco depois, desistiram.
“Realizamos alguns concursos onde se destacaram as DJs Fénix, Grace, K, Ágata, entre outras, mas a maior parte delas desistiram porque não é fácil enfrentar este mercado que, por vezes, só te oferece uma oportunidade de trabalho por mês. Se queres viver disto tens que ter trabalho todos os fins-de-semana e estar disposto a enfrentar vários desafios inerentes à profissão, o que muitas vezes é difícil para as mulheres”, disse.
Entretanto, a DJ Lady Fénix, 22 anos de idade, residente em Maputo, ainda rema contra a maré e não se deixam intimidar pelos desafios impostos pela profissão. Tem actuado frequentemente nas discotecas das províncias e Sofala e Nampula, e poucas vezes trabalha em festas tipo casamento, baptizados, noivado, entre outras. Sente-se mais tranquila em discotecas.
“Sou DJ há três anos. Descobri essa paixão em jeito de diversão e quando dei por mim pareciam-me oportunidades de fazer a coisa de forma profissional. Não desperdicei a oportunidade e trabalho nisto. No entanto, ao meio de semana trabalho como gerente e só aos finais de semanas lido com o ambiente de uma cabine de som para fazer misturas ”, afirmou.
ASSOCIAÇÃO DOS DJs
Aliás, foi por causa das imensas contingências desta profissão que os DJs decidiram se reunir e criar a sua associação que os seus membros querem que funcione como órgão de regulação da actividade e, ao mesmo tempo, fazer valer os direitos dos profissionais, buscar o reconhecimento, formação e operar como espaço privilegiado para a troca de experiências entre os seus membros profissionais.
O escolhido para dirigir esta colectividade é o DJ Jacinto Estêvão, que afirma que o grupo foi criado parafazer perceber a sociedade que esta profissão é importante tal como as outras.“Não somos marginais e muito menos meros tocadores de música como muitos pensam. Somos profissionais e, por isso, também merecemos ser respeitados, como o são os jogadores de futebol, os jornalistas, polícias e médicos. Somos tão importantes como qualquer outro profissional”.
Segundo Estêvão, a associação conta com cerca de 500 membros registados em diversos cantos do país e tem realizado intercâmbios que consistem na análise do trabalho dos membros, acções de formação que visam munir o DJ sobre os seus deveres e direitos enquanto profissional desta área e discussões sobre o funcionamento de instrumentos que ajudam a melhorar o seu trabalho.
De acordo com o presidente da associação os objectivos da sua criação estão a ser alcançados, pois “já há um pouco mais de respeito com a figura do DJ e todos que estão filiados à nossa associação têm um cachê mínimo fixado, sem o qual não actuamos”.
No entanto, o presidente desta associação lamenta que existam DJs não filiados que aplicam preços que não condizem com o trabalho e fazem com que se tenha a ilusão de que esta não é uma profissão a sério “e isso prejudica-nos muito”.
NOCTÍVAGOS
O DJ Damost, que está a exercer a profissão há cerca de 20 anos, destaca que um bom DJ precisa de tocar música com responsabilidade, deve saber dirigir e agradar ao maior número possível de convivas porque são pessoas de origens, faixas etárias e gostos completamente diferentes.
“A nossa profissão exige que tenhamos a sensibilidade de estudar o público para o qual vamos tocar, respeitar a ocasião, estar atentos às faixas etárias que se pretende atingir e não descurar a pontualidade”,aponta.
Por seu turno, Orlando Simão afirma que um DJ só o pode ser se tiver muito gosto pela música, ser humilde para aprender tendo em conta que no país ainda não há uma escola de formação de DJs. “Ser DJ é complexo porque é preciso ter tempo e capacidade de preparar uma selecção de música que deve ir de acordo com o tipo de ambiente onde se vai actuar e estar sempre actualizado, o que obriga a dedicar horas a fio a pesquisar”.
Mais adiante refere que os ambientes onde a actividade é desenvolvida, nomeadamente, festas e discotecas, e as horas, geralmente à noite, têm muita promiscuidade. “É preciso ser muito responsável porque é comum ser abordado de forma agressiva por alguém que está alcoolizado e que acha que não está a gostar desta ou daquela música e se não tiver paciência pode termina em pancadaria. Para além disso é preciso evitar beber enquanto se trabalha, pois pode perder o controlo do ambiente”, sublinha.
Para o DJ Dilson os profissionais desta área “precisam de ter talento, visão ampla, profissionalismo e, acima de tudo, a capacidade de ler as caras das pessoas para saber o que querem ouvir”.“O nosso dia-a-dia não é fácil. Repare que enquanto muitos trabalham de dia e relaxam de noite, nós fazem o inverso. Somos noctívagos”, disse.
Maria de Lurdes Cossa
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