
Trinta e nove obras da autoria de Zefrino Chilaule estão patentes no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM). Intitulada “Metamorfoses”, a mostra estará aberta ao público até 2 de Março, e pretende levar o público a várias reflexões, com destaque para a preservação do meio ambiente.
Peles de animais, panelas velhas, chaleiras, chapas de zinco, peças de automóveis, entre outros objectos metálicos, quem os vê na rua, na lixeira, desprezados, não imagina que podem ser transformados em obras de arte. Zefrino Chilaule molda esses objectos aparentemente inúteis com a magia das suas mãos transformando-os em máscaras, em animais, enfim, em milhentas coisas.
Um dos propósitos do artista, confidencia ao domingo, é intervir na resolução dos problemas, porque acredita que com a arte é possível consciencializar a sociedade sobre a importância do meio ambiente.
Aliás, “Metamorfoses”, sua quinta exposição individual, é uma amostra dessa consciencialização que ele pretende agarrada pela sociedade, até porque a exposição composta maioritariamente por obras criadas a partir de material reciclado.
Polivalente, Zefrino usa sândalo e pau-ferro para as esculturas. Noutras, molda a pedra e chifres de animais… enfim, explora com suavidade e beleza a chamada técnica mista que no século passado ganhou sobremaneira admiradores e entusiastas.
As obras que perfilam a sala de exposições do “Franco” contam variadas histórias, desde a busca incessante pela paz, atravessando o campo da música, que na mostra é feita ironicamente por macacos, no quadro com o título “Bailarinos da selva”.
Segundo o expositor, o processo de criação das suas obras perpassa por várias fases, desde a concepção até ao que resulta no trabalho, que nem ele acredita que seja o final porque o processo de construção é como o oceano. É infinito.
“Éum trabalho que sempre começa do nada. Quando os dias passam a coisa muda e nisso posso até alterar o pensamento final. Nascem outras ideias e a obra passa a ter outra concepção. Algumas aqui expostas ainda estão em criação, ainda acrescento detalhes, e é por isso que esse título calha bem”, conta.
Esse processo de transformação, prossegue o artista, acontece quando trabalha com o metal e deixa os instrumentos moldarem a obra até ganhar uma forma aceitável. Segundo nos confidenciou, as peças foram criadas ao longo do tempo, algumas já bem antigas, feitas em 1997.
Fez, pessoalmente, a curadoria da exposição mas nega que tenha sido um exercício de autocrítica, porque o artista deve saber fazer, pôr no sítio certo para a coisa ficar bonita… daí as coisas serem fáceis para mim.
Calmo e sempre disponível, Zefrino nasceu no bairro de Chamanculo, cidade de Maputo. Lembra-se que se mudou para um bairro que fica perto do actual Choupal. Mesmo depois de ter morado em vários bairros da cidade, defende que as suas obras têm como referência a sua actual residência, o bairro do Aeroporto.
“Isso percebe-se através de uma série de movimentos que os objectos esculpidos apresentam. Tenho pessoas a andar, a cantar e a tocarem nos meus trabalhos. No meu bairro também é assim.”
Nascido em 1968, frequentou o Ensino Primário na Escola Unidade 18. Terminado o ciclo, foi para a Secundária do Estrela Vermelha. Em 1987 viajou para a Alemanha Socialista (ex-RDA) em busca de formação profissional. Ficou quatro (4) anos naquele país europeu, o que resultou em técnico de portos, curso que nunca lhe valeu nenhuma moeda no bolso.
Primeiro filho do casal Tomás Chilaule, um carpinteiro de profissão, e Mariamo Mussa, vendedora informal, disse nunca ter estudado numa escola de artes, nem de música. Aliás, confessou nunca ter tido hipóteses por lhe faltar poderio financeiro: “Agora quero fazer dinheiro, não há mais tempo para isso”.
Zefrino não vive apenas enclausurado nas artes plásticas. Por vezes aventura-se no futebol. A música é outra paixão do nosso entrevistado. Percussionista, contou que possui uma série de instrumentos musicais no seu ateliê e só não os usa porque esculpir já lhe ocupa grandemente. Disse não ter influências, mas faz vénias ao seu mestre Naftal Langa, artista que o ensinou a esculpir.
AMBIENTALISTA INCONFORMADO
Zefrino quer intervir na preservação do meio ambiente e, através da sua arte, transmitir ensinamentos à sociedade. “Sou ambientalista, mesmo sem formação. Começo a ver e a perceber que nos meus trabalhos sempre entram animais que são dizimados pelo homem. Um dia ficaremos sem animais”. Sentencia.
Por exemplo, no conjunto “Bailarinos da selva” mostra a busca, a dignidade e preservação dos animais. O mesmo sentimento está patente nos “Manifestantes”, um grupo de elefantes feitos de metal, que se revoltam contra a invasão humana nas matas.
Mais criativo ainda, o nosso artista apresenta ainda nesta exposição um cardume recriado a partir de metais e cornos. “Artisticamente, sinto uma ligação entre peixes e bois. Convivo com peixes no rio Umbeluzi e neles vejo cornos. Já nas chaleiras, quando a água ferve, vejo elefantes. É difícil de entender”.
A inspiração, às vezes, é farta no nosso entrevistado que muitas vezes se vê obrigado a abandonar uma criação para trabalhar noutra. “É a minha maneira de fazer as coisas, quando pego noutra escultura, por exemplo, é como se estivesse a iniciar o dia e no fim tenho várias obras pendentes, mas também bem avançadas”.
MUSEU EM CONSTRUÇÃO
Diz estar a construir um museu no posto administrativo de Goba, no distrito da Namaacha, com a reciclagem da pedra local. Segundo contou, o museu vai preservar mais de 200 obras que ele tem no seu ateliê, assim como outras espalhadas em França e Alemanha, onde participou em várias exposições colectivas.
Sobre as viagens, guarda na memória a sua ida à Índia. Sonha em expor nos Estados Unidos de América (EUA) porque cá na “Pérola do Índico” disse sofrer de plágios sucessivos. “Há seguidores? Não, são plagiadores. Vêem o meu trabalho, não falam comigo, e logo copiam e vão vender na rua. O bom seria aproximarem-se e pedirem ensinamentos, mas não, esses são ladrões”, acusa.
Em relação aos patrocínios: “Nada a declarar; não tenho, corro atrás do que quero sem ajuda de ninguém”, sublinhou.



