
O país registou nos últimos três anos cerca de 9 mil casos novos de cancro. Nas cidades de Maputo, Beira e Nampula são registados em média de 3200 casos. Segundo estudos divulgados, 54 em cada 100 mulheres diagnosticadas com cancro da mama no país, morre devido a doença. Esta e outras realidades fazem com que esta doença seja encarada como um problema de saúde pública.
Para entender os contornos desta doença, domingo privou com a Directora Nacional do Programa Nacional do Cancro, Cesaltina Lorenzone, quem afirma que a epidemia do HIV/SIDA em Moçambique trouxe também mudanças do padrão de ocorrência dos cancros no nosso meio.
Recentemente realizou-se o Primeiro Congresso de Cancro em Moçambique e o II Congresso dos Países De Língua Oficial Portuguesa (PALOP’s). O que Moçambique tirou de mais-valia nestas conferências?
Nestes Congressos houve troca de experiência entre os diferentes países participantes com a finalidade de permitir estratégias comuns de actuaçao. No Segundo Congresso dos Países de Língua Oficial Portuguesa lançou-se também o desafio de criação de uma escola de Oncologia dos PALOP’s, com participação de diferentes países em áreas onde cada um está mais desenvolvido.
Actualmente o cancro é visto como um problema de saúde pública no país. Quer comentar esta realidade?
Estudos feitos em Moçambique mostraram que o cancro já era um problema de saúde pública pelos níveis crescentes que se registavam anualmente. Devo sublinhar que nestes Congressos ficou claro que o cancro é um problema de saúde pública não só em Moçambique, como também nos PALOP’s, pela mesma tendência.
Em 2014 foi criado o Programa Nacional de Controlo do Cancro. Qual é o propósito de criação deste programa?
O Programa foi criado com o propósito de reduzir o número de casos e de óbitos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes através da implementação sistemática e equitativa de estratégias baseadas em evidência, para a prevenção, detenção precoce, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos, fazendo o melhor uso dos recursos disponíveis.
Mas, várias acções isoladas foram sempre desenvolvidas por médicos que se interessavam pela área de cancro, mas houve necessidade de unir sinergias para uma abordagem multidisciplinar desta patologia.
Qual é a situação do diagnóstico de novos casos de cancro nos últimos três anos, isto é, de 2013 a 2015?
Nos últimos três anos o país registou cerca de 9 mil casos novos de cancro. Neste período em Nampula foi registado um total de1259 casos. Os cancros mais comuns foram Sarcoma de kaposi, colo do útero, mama, linfomas, cancro do fígado, olho. Em Maputo foram diagnosticados 6000 casos e na Beira registaram-se 1344 casos de cancro.
Qual é o maior desafio do sector de urologia no momento?
Um dos grandes desafios que o sector enfrenta é a detençao precoce do cancro. Maior parte dos pacientes recorre às unidades sanitárias tarde e o cancro é descoberto já em estado avançado.A epidemia do HIV/SIDA em Moçambique trouxe também mudanças do padrão de ocorrência dos cancros no nosso meio, sendo provavelmente o responsável pelo aumento importante da frequência do sarcoma de Kaposi, dos linfomas não Hodgkin, de alguns cancros do colo do útero e da conjuntiva, por exemplo.
Actualmente todas as unidades sanitárias provinciais têm capacidade de rastreio do cancro?
No país existem 142 Unidades, onde se faz o rastreio dos cancros da mama e do colo do útero, mas existe um plano de expansão para mais unidades sanitárias.
Sabe-se que o cancro de colo de útero e da mama nas mulheres, assim como o da próstata nos homens, são os de maior ocorrência. O que tem sido feito para a redução e controlo da situação?
Esta provada que a educação é a chave para a prevenção de qualquer doença e neste caso particular da maior parte dos cancros. É sabido também que evitar a exposição aos factores de risco é base fundamental para a prevenção dos mesmos. Contudo, para a redução e controlo da situação temos levado a cabo acções de advocacia através da media, palestras de sensibilização em diferentes comunidades e instituições públicas e privadas; em feiras de saúde em que para além de sensibilização e aconselhamento são feitos rastreios a população privilegiando as camadas mais desfavorecidas.
Ainda temos poucos médicos especializados nesta área. A nível nacional o país tem apenas 13 oncologistas gerais e 3 hematologistas.O que está sendo feito na área de formação de quadros nacionais?
Para além da educação investimos na formação de pessoal nas diferentes áreas que lidam com cancro, tal formação é feita internamente assim como no exterior.
No exterior, em que áreas de cancro têm cooperado com instituições ou países?
Neste momento existem várias formações contínuas na área de cirurgia oncológica através de desenvolvimento de uma plataforma de vídeo- conferências com quatro Centros de cancro reconhecidos internacionalmente como é o caso do MD Anderson Cancer Centre, Hospital de Câncer de Barretos, Hospital Albert Einstein e A,C Camargo, onde cooperamos nas áreas dos cancros da mama, colo do útero, Cabeça e pescoço, oncopediatria e oncologia geral, e recentemente desenvolveremos na área de cuidados paliativos.
…e localmente?
Esta formação também é feita localmente através de equipas que têm vindo ao país realizar cirurgias nestas mesmas áreas, assim como para formação geral na área do cancro. Em Janeiro do presente ano tivemos a primeira missão.
Quanto é que o Programa Nacional de Cancro aloca por ano para cumprir com a sua agenda nacional? Qual é a proveniência do fundo?
As actividades do programa são financiadas pelo Orçamento do Estado. No entanto, temos parceiros de alguma instituição que têm apoiado nestas actividades, de formação nas diferentes áreas de especialidade, em registos de cancro.
Recentemente Moçambique foi convidado a fazer parte de uma das organizações de registos de Cancro em Africa, devido ao interesse que o nosso país tem demonstrado na luta contra esta patologia.
O cancro no país também está feminizado?
De modo geral, o cancro é mais frequente nas mulheres, sendo responsável por 60 por cento das ocorrências e nos por homens 40 por cento.
Por Luísa Jorge
luisa.jorge@snoticicas.co.mz



