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Nascido para (en)cantar

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Texto de André Matola e Fotos de Luís Muianga

Dedilha com meiguice e canta com suavidade só ao alcance dos mortais que nasceram com o ADN musical. As suas canções são um arco-íris de sensações. Aplanam a vida familiar e conjugal para regozijo de quem as ouve. Chama-se Aniano Tamele. Nasceu em Chibuto. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

Vinte e um anos sem gravar. Porquê? Se estou recordado o título da sua última canção é  “Uli Ndzifana naye”(dizes que sou parecido com ele).

Efectivamente, a minha última gravação foi em 1993. Registei o tema “Uli Ndzifana naye” nos estúdios da Rádio Moçambique, em Maputo. Aconteceu que depois fui transferido, em missão de serviço, para a província de Inhambane. Lá, para além de não ter como gravar, não encontrei jovens com quem tocar. A Maputo só vinha de férias. Logo, não dispunha de muito tempo.

Não tinha com quem tocar ou foi aquele bichinho de perfeccionista que o caracteriza que o inibiu de arriscar?

(Risos). Sou exigente para comigo mesmo. Gosto de fazer bem feito. O meu irmão Zefanias Tamele (seu suporte musical) também teve de se fixar na Beira, por imperativos profissionais. Mas ao longo dos cinco anos em que vivi em Inhambane nunca parei de compor.

Mas os seus fãs tiveram de esperar duas décadas para ouvir uma nova música que, sem qualquer surpresa, está a fazer imenso furor no Ngoma-2015. Refiro-me a canção “Swivulavula” (na primeira fase do Ngoma ocupou o primeiro lugar por três vezes).

(risos). Sim, sim. Deixe-me que lhe diga que nem sequer fui eu a candidatar a música ao Ngoma-2015. A canção está inserida na colectânea produzida pela Associação dos Músicos Moçambicanos (AMM) intitulada “Cidadania”, para a qual foi seleccionado um músico por província. Eu entrei como representante de Gaza, minha terra natal. A única coisa que fiz foi responder favoravelmente quando me perguntaram se podiam submeter a canção ao Ngoma.

Quer dizer, sem essa boleia os seus fãs continuariam a não saber e a não ouvir nada de novo. Teriam de continuar a contentar-se com temas como “Vulavula nkata”, “Uli Ndzifana naye”, “África”, “Tsunela Papai”, “SIDA” (letra da autoria de Bento Baloi)”, “N’kosikazi”, etc, etc.

Não é bem assim. Por exemplo, a canção Swivulavulafaz parte do projecto do disco que estou a preparar. Depois de sair de Inhambane fui colocado na província de Sofala. Fiquei seis anos e meio. Também não tinha muito tempo para trabalhar na música.

E quando é que teremos o disco disponível no mercado?

No decorrer deste ano. Sempre quis ter um disco. Faltava-me sossego para trabalhar com sobriedade. O CD vai ter treze temas. Já gravamos doze. Agora estamos na fase de acabamentos. A base já foi feita. Estamos na fase de introdução de vozes e instrumentos adicionais. Posteriormente vamos fazer a mistura e a masterização.

Qual é a importância de uma boa mistura?

Permite uma perfeita harmonização de todos os sons integrantes da música.

Já gora, e creio não estar equivocado, tem se notado que alguns CD’s saem sem masterização?

É mau, porque, por exemplo, fica bem audível a inspiração e expiração do cantor. Percebe-se que ele está a engolir saliva, etc, etc. Claro que a masterização é cara, mas confere mais qualidade ao trabalho.

Com que artistas está a trabalhar no projecto do disco?

Tenho como produtor o Bernardo Domingos (filho de Xidimingunguana). Zefanias Tamele é o Director Executivo. É ele que concebe a maior parte dos desenhos do baixo. Tenho a participação do Eduardo Massango (baixo), Nelton Miranda (baixo e teclado). Sima e Stélio Zoé (bateria) e Artur Bila (coros).

Que ritmos musicais teremos no disco?

Um pouco de Marrabenta, Magika, Gospel, Bakanga, etc, etc. Cresci a ouvir música sul-africana, brasileira, americana, congolesa, angolana…enfim. Não estou preocupado em definir o ritmo.

Aliás, como disse em várias ocasiões, cresceu num ambiente musical. É filho de Zeburane (Eusébio Johane Tamele), uma das grandes referências da música ligeira moçambicana. Aprendeu bastante com o seu pai.

Sim. Filho de peixe tem de saber nadar. Os meus malogrados irmãos Gustavo Tamele (autor das célebres canções Minha Terra é Linda e Minha Mãe) e Borges Tamele eram exímios compositores e intérpretes). A música corre-nos nas veias. O Zefanias também é compositor e intérprete, mas é apaixonado pela viola baixo.

Alguns músicos têm a tentação de fazer todo o disco sozinhos.

Não são casos raros. Eu neste disco não toco nenhum instrumento. Limito-me simplesmente a cantar. Acho que tem de haver separação de tarefas. Eu não toco guitarra todos os dias. Então porque não chamar alguém que exercita oito ou mais horas por dia…

Mudemos de assunto. Os músicos da velha geração – confesso que não simpatizo muito com esta denominação – reclamam descriminação na canalização de patrocínios. Dizem que os músicos mais novos têm mais chances. É da mesma opinião?

Sou de opinião que as empresas têm de equilibrar os apoios. Todos têm de ter o seu quinhão. Por exemplo, na África do Sul as mesmas oportunidades que têm os Mandonzas, TKZees, Mafikizolos, entre outros, têm os Soul Brothes, Rebecca Malope e Yvonne Tchaka Tchaka. Na América, Rod Stewart, Bruce Springsteen o aparecimento de 50 Cent e outros não secundarizou, por exemplo, Ken Roger, Don Williams…

O que acha da música feita pelos mais novos?

Foi bom. Produziu uma certa revolução. Há muita música. Porém, o mais importante foi ter reduzido o impacto da música estrangeira nas festas. Hoje mais de 40 por cento do que se ouve é música moçambicana. Mas também tem o lado negativo.

Qual é?

Muita dessa música não tem qualidade para ser comercializada. Creio que a música feita completamente no computador não nos leva a lado nenhum. Têm de moderar a pressa. Têm de apostar não só no ritmo mas também na mensagem.

Pirataria

Alguns músicos dizem não estarem interessados em produzir álbuns por causa da pirataria. É essa a via a seguir?

Penso que não. O moçambicano adora qualidade. Quer ter obras originais. Gosta de coisas bonitas. Repare como cuida do carro. A atenção que tem até para com os pneus. Sempre reluzentes. São pequenos sinais, mas que espelham bom gosto. Se a oferta for grande os piratas terão menos aceitação.

Há músicos que optam por vender as suas obras porta-a-porta.

Não tenho vocação para andar a vender as minhas obras. Tem de haver divisão de tarefas. A fiscalização deve fazer a sua parte. Na província de Manica não há discos piratas a venda. Aliás, da mesma forma que não encontramos ninguém a vender soruma (cannabes sativa) na via pública, também é possível interditar a comercialização de material contrafeito. Os discos originais têm selo. Não há como enganar.

Opto por cantar na primeira pessoa

Estava a fazer contas. Esteve dez anos fora da cidade de Maputo. Há um lapso de tempo, de quase dez anos, que parecem não preenchidos musicalmente.

Quando regressei a Maputo em 2005 pude gravar o álbum “Lembrando Zeburane”, em homenagem ao meu pai, falecido em 2003. Registamos dez temas. Trabalhei com o Bernardo Domingos, Artur Bila e Zefanias Tamele. Tocamos exactamente como ele o fez na época. São canções das décadas 50, 60, 70 e 80. Não estive de todo parado.

Por que é que a maioria dos seus temas aflora a vida conjugal e familiar?

Porque têm conteúdo de educação social e familiar. Procuro pegar assuntos do dia-a-dia do moçambicano para a canção. Note que 99 porcento das minhas canções são interpretadas na primeira pessoa.

Porquê?

Acho que dessa forma o impacto é maior sobre a pessoa que escuta. Às vezes têm me perguntado se teria vivido essas situações. A resposta é não. São meras criações a partir daquilo que observo e oiço.

Pode apontar um exemplo.

 “Vulavula nkata”. Esta canção conta a história de um homem que vai trabalhar nas minas da África do Sul e de lá não consegue estabelecer correspondência com a esposa. Quando ele regressa a casa apercebe-se que ela abandonou o lar e as crianças.

Recordo-me que a canção passou a ser trauteada por homens e mulheres e fez muito sucesso nas duas estações da Rádio Moçambique, nomeadamente no ex- Emissor Interprovincial de Maputo e Gaza e na Emissão Nacional.

Quando interpretei essa canção tinha 20 anos. Foi o meu primeiro tema gravado nos estúdios da Rádio Moçambique. Repare que nessa altura eu ainda não era casado e não tinha filhos, mas mesmo assim cantei na primeira pessoa. Acho que é a forma que encontrei para chamar atenção de alguns males que apoquentam os lares moçambicanos.

Então, o tema “Uli Ndzifana naye” (dizes que sou parecida com ele (a)/ criança), enquadra-se nessa atitude de esquadrinhar as coisas?

Sim (risos). E sempre cantando na primeira pessoa (mais uma vaga de riso). A explicação é a mesma para o tema “Rosymary” e tantas outras.

Alguns colegas seus dizem que não gravam porque, entre muitos outros factores, no país não existem lojas de venda de discos. Qual é a sua opinião?

Infelizmente também é verdade. Qual é o empresário que vai arriscar num negócio do género se sabe que a dois passos do seu estabelecimento comercial estará alguém a vender discos contrafeitos?! Como disse anteriormente, tem de haver vontade para acabar com este tipo de coisas. E dou-lhe um exemplo: Quando o governo decidiu que as lojas de conveniência (lojas nas bombas de combustível) não deviam vender mais bebidas alcoólicas a medida foi acatada. Foi ponto final paragrafo!

Para terminar. Será um álbum só de temas inéditos?

Não. Será uma miscelânea. É um álbum com passado, presente e futuro.

Texto de André Matola e Fotos de Luís Muianga

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