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O custo de produzir barato

Por admin
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Os consumidores europeus e americanos ficaram a conhecer o preço que pagam os trabalhadores das “fábricas do suor» que abastecem o Ocidente. A maior catástrofe da indústria têxtil do 

Bangladesh demonstrou que não é aceitável que o negócio global das grandes marcas se continue a fazer à custa da impunidade, da corrupção e de salários a 29 euros por mês.

“Matem-me, daqui não saio! Digam-me onde estão as minhas filhas…”, gritava, a 28 de Abril, Munnio Das. O depoimento desta mulher, de 57 anos, recolhido pelo diário Daily Star, é apenas um entre as milhares de pessoas que, indignadas e inconsoláveis, viram os seus familiares morrer, na sequência do maior acidente industrial da História do Bangladesh. O colapso de um edifício de oito andares, quatro dias antes, em Savar, nos subúrbios de Daca, a capital do país, provocara uma tragédia cujo balanço final de vítimas está longe de ser conhecido. No início desta semana, o número oficial de mortos ultrapassava os 800, mas os desaparecidos eram ainda mais de novecentos aos quais é necessário somar, pelo menos, um milhar de feridos graves e estropiados, a par de centenas de viúvos e órfãos.

 Todos os que ficaram sob os escombros do complexo conhecido por Rana Plaza são gente humilde e com histórias que poderiam inspirar Charles Dickens. O famoso escritor britânico, cujas personagens retratam os desmandos da revolução industrial, no século XIX, ficaria impressionado se tivesse hoje a oportunidade de ver como vivem os trabalhadores do país que disputa com a China o título de maior fábrica têxtil do planeta. Se o antigo Império do Meio é,  actualmente, o maior exportador mundial de vestuário, o Bangladesh ocupa o segundo lugar, com o sector a representar cerca de 16 mil milhões de euros  anuais e a dar emprego  a quase 4  milhões de pessoas – sendo que  85% desse total são mulheres, uma força de  trabalho particularmente vulnerável  a todo  o tipo de discriminações e abusos, denunciados, vezes sem conta, nos últimos anos,  por organizações não-  governamentais. Aliás, essas denúncias têm sido proporcionais ao enorme crescimento das empresas locais que apresentam custos de produção altamente apetecíveis para as grandes marcas e retalhistas do Ocidente- Mango, C&A, Wal- Mart, Dress Barn, Primark, Benneton.

As mentiras e o inferno de Savar

Na última década, quer o número de trabalhadores, quer o número de fábricas (4825) mais  do que duplicaram e a isso não ó estranho o  preço a que sai, por exemplo, uma camisa do porto de Chittagong, a segunda  maior cidade do país a que, no século XVI,  os portugueses chamaram Porto Grande de  Bengala: um euro e 50 cêntimos. Para que se tenha um termo de comparação, o mesmo produto custo oito a dez vezes mais se for confecionado na China. A explicação é simples: a mão-de-obra do Bangladesh é das mais baratas do mundo e, em média, um operário têxtil leva mensalmente para casa 3 mil taka (o equivalente a 29 euros, na moeda local). Um valor que o próprio Governo admite ser insuficiente para uma vida digna e abaixo do limiar de pobreza, fixado em 5 mil taka (49 euros.)

 Tal como sucede na maior parte das instalações fabris do Bangladesh, o Rama Plaza foi planeado sem quaisquer preocupações de qualidade  e fazendo  tábua rasa das mais elementares regras de construção. Concluído em 1996, o edifício está localizado num antigo canal e em leito de cheia, e deveria ter apenas três pisos para acolher um centro comercial com 300 lojas e um banco. No entanto, o seu proprietário, Mohammed Sohel Rana, dirigente do partido no poder, a liga Awami, permitiu, clandestinamente, a construção de cinco andares adicionais, onde passaram a funcionar outras tantas empresas de confecção. O negócio corria de vento em popa e as encomendas de marcas internacionais faziam com que o número de trabalhadores tivesse já ultrapassado os 4 mil, com turnos praticamente de sol a sol. Ninguém parecia incomodado com a ausência de saídas de emergência, de extintores ou de algo do género. Até que, no dia 23 de Abril, surgiu o alerta, provocado pelas enormes fissuras em algumas paredes do edifício, tanto no interior como no exterior. O pessoal das lojas e os funcionários da instituição bancária abandonaram o local e os ocupantes dos pisos superiores seguiram-lhes o exemplo, apesar das resistências de Mohammed Sohel Rana e  dos directores das empresas de vestuário, que  garantiam não haver motivos de perigo.

Na manhã do dia seguinte, apesar das evidências, explicaram que a actividade laboral poderia ser retomada, pois tinha sido feita uma inspecção que descartou qualquer risco de desmoronamento. Às nove da manhã, a realidade demonstrou que tudo não passara de uma mentira trágica: os seis andares colapsaram como um castelo de areia, quando já ali estavam perto de 4 mil operários. Por estranha coincidência, as lojas e o banco permaneciam encerrados e sem ninguém. A partir desse momento, o acidente tornou-se conhecido nos cinco cantos do planeta e a assistência às vítimas havia de prolongar-se de forma tão desesperante quanto amadora: os bombeiros faziam o que podiam mas precisaram do envolvimento de largas centenas de voluntários que remexiam os escombros com instrumentos artesanais ou com as suas próprias mãos, para tentar responder aos lancinantes pedidos de socorro. «Fui enterrada viva. Pensei que não voltaria a ver o meu marido e os meus filhos”, disse a jornalistas Nsima Banu, uma sobrevivente de 25 anos, que trabalhava no quarto andar.

“Pensei que estava no inferno. O calor era tanto que mal conseguia respirar. Quando recuperei os sentidos, já estava numa cama de hospital”, contou Marina Begum, de 22 anos, que passou três dias e meio soterrada e sem nada para comer ou beber.  

As vibrações da primeira-ministra

 Cenas que viriam a provocar uma onda de solidariedade mas também de indignação em todo o país. Desde então, milhares de pessoas têm ido para as ruas exigir melhores condições laborais e que os responsáveis pelo acidente não fiquem impunes. Manifestações que paralisaram parcialmente a zona metropolitana de Daca, onde vivem mais de 12 milhões de pessoas, mas igualmente outros centros urbanos, havendo registo de vários incidentes com a polícia. E em Chittagong têm-se multiplicado as tentativas de bloquear os acessos ao porto e ao aeroporto locais, para que todos entendam que o principal ponto de saída das exportações também é vulnerável.

 Estas acções e a pressão popular levaram o Executivo da Primeira-Ministra Sheikh Hasina a reagir. Cinco dias depois do acidente, a polícia e o exército foram mobilizados para Savar e, com eles, chegou também material pesado para as operações de resgate, incluindo cinco gruas hidráulicas com o propósito de remover as mais de 6 500 toneladas de entulho e destroços do Rana Plaza, algo que ainda pode demorar mais duas semanas. Nessa mesma data, um grupo de operações especiais do exército deteve, junto da fronteira com a Índia, o dono do edifício, que pretendia escapar à justiça para não se ver obrigado a responder pelos crimes de homicídio por negligência, construção ilegal e abuso de poder por ter obrigado os trabalhadores a permanecerem nos seus postos. Acusações que lhe podem valer até sete anos de prisão. As suas contas bancárias e as da mulher foram congeladas. Além de Mohammed Sohel Rana, a polícia deteve o seu pai, quatro empresários têxteis e dois engenheiros municipais responsáveis pelo licenciamento e vistorias ao Rana   Plaza. E no domingo, 28, o chefe das operações de busca e salvamento, o general Ali Ahmed Khan, fez uma declaração surpreendente: “É muito pouco provável que encontremos mais alguém com vida. Os nossos homens entraram e viram apenas alguns cadáveres no piso térreo.” Era a confirmação de que os desaparecidos, salvo alguma excepção ou milagre, vão fazer parte da lista de mortos. Ou seja, o número de falecidos pode ultrapassar em muito o milhar.

Deputados e patrões no mesmo ramo

“É um sinal de alarme para a nação, para a indústria e para os sindicatos”, garante a activista Shirin Akter, líder de um ONG que defende os direitos laborais das mulheres no Bangladesh. Depois, em declarações à Associated Press, recorda que é urgente tratar dos que sobreviveram: “Como vamos proteger os que perderam partes do seu corpo, as suas pernas, as suas mãos? Como podem eles voltar a trabalhar?” Questões que vão permanecer sem resposta, dado que a esmagadora maioria dos sinistrados não tem qualquer seguro e dependia, exclusivamente, dos seus salários para sobreviver. Talvez, por isso mesmo, na segunda-feira, 29, a primeira-ministra se tenha dignado a visitar – finalmente – o local da tragédia e uma das unidades hospitalares onde foram acolhidos 214 feridos. Para lhes mostrar a sua solidariedade e prometer que o Governo assumiria todas as despesas médicas. Mas não só: também decidiu «oferecer» a cada um 10 mil taka, “cerca de 98 euros”. Uma medida logo classificada como “demagógica” e “oportunista” pela oposição islamita. E a polémica não se esgotou aqui. A aparição pública da governante serviu igualmente para ela apelar ao fim das manifestações em  todo o país, incluindo a greve geral que tinha sido agendada para semana passada. “Por razões humanitárias” e porque “os envolvidos (no colapso do Rana Plaza) já estão todos presos”. Palavras que mereceram vivo repúdio, à semelhança da sua bizarra explicação para desculpabilizar Mohammed Sohel Rana, segundo a qual o acidente pode ter sido precipitado pelas “vibrações” dos geradores e dos aparelhos de ar condicionado do edifício. Afinal de contas, mais de 10% dos actuais deputados do país são também empresários têxteis e um “lobbye” tão influente como quase inimputável. Recorde-se que, segundo o principal sindicato do sector “NGWF”, mais de 70 trabalhadores morreram nestas “fábricas do suor” desde 2005, sem que nenhum dos patrões tenha sido responsabilizado. De acordo com o diário Daily Star, a impunidade impera, as regras laborais são sistematicamente ignoradas e o país conta apenas com 51 inspectores para controlarem as mais de 4 800 empresas que produzem vestuário para exportação. Não é por acaso que a BGMEA, a associação dos empresários da indústria Têxtil, veio, depois da tragédia, acusar, em comunicado, os “médias” locais e estrangeiros de estarem a “exagerar” a dimensão do acidente ocorrido no dia 24 e a criar “uma imagem de crise” no país. Eles sabem que o negócio dificilmente voltará a ser como antes e que a pressão internacional e os boicotes entretanto decretados por várias ONG terão consequências directas nas peças de roupa que exibam made in Bangladesh. E escusado será dizer que os grandes retalhistas globais como a Wal-Mart, a JC Penney, o El Corte Inglês, a C&A, a Benetton, a Mango, a Trimarã  e a pré Mark- a lista podia continuar –  vão fazer tudo ao seu alcance para não serem novamente associadas a este tipo de tragédias. Nem que para tal tenham de subcontratar em outros sítios. Quanto mais seja porque sabem aproveitar como ninguém os privilégios da globalização e da competitividade dos Estado emergentes.

E se o Bangladesh é dos poucos países asiáticos que pode exportar para a União Europeia sem quaisquer barreiras alfandegárias – a roupa chinesa paga 12% – convém que os consumidores portugueses e do Velho Continente saibam que o Afeganistão, o Camboja e o Nepal podem ser os próximos “paraísos” das marcas para a produção a baixo custo. Para que o pó assente sobre as vítimas de Savar e para que não triunfe mais uma vez a lógica do “business as usual”…. (In Visão)

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