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O dia em que todos fomos cristãos…

Por admin
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Estava visto que a cidade (o país) tinha um único sentido, a igreja de Jesus Cristo ou, em nome dela, um vazio. A estrutura governamental ligada à declaração de borlas já se tinha pronunciado: neste fim-de-semana, todos devem ser cristãos!

Escolhi um retiro que me pudesse valer algo mais, lendo o que nunca tinha lido, algures na praia do Bilene, 200 quilómetros de longe, a norte da capital de Moçambique, mesmo debaixo de notícias de que os mercúrios não seriam tão simpáticos quanto gostaria, sabendo ainda tratar-se duma praia. Nem era por isso que me decidira viajar para ali. Está dito!

Por volta das 18.00 horas, Bilene mostrou-se completamente antipático. Não queria quem não fosse cristão ou pelo menos não se metesse no ambiente que a véspera do Domingo de Páscoa condicionara. As motos de quatro rodas, aquelas de que me referi há três anos, com medo que expulsassem turistas, de tanta barulheira, assinaram um acordo com o mau tempo para que o dia fosse de todo mau.

Mas se a ideia era isolar-me e assim poder ler para que um dia pudesse escrever (diz-se que quem não sabe ler dificilmente poderá escrever), aparentemente não havia mácula. Mas os motores de altas cilindradas roncavam e sem licença introduziam-se nos quartos do “Aquarius” e outras hospedarias que valia a pena estar ao relento. 

Com a mesma violência a brisa vinda do leste oceânico comportava-se qual tempestade. Está visto, igualmente a desmanchar o prazer de ali estar. As portas da estalagem batiam e rebatiam a sugerir um tsunami a pedir licença para engolir a autarquia localizada no único distrito do país com duas edilidades.

Não dava nada! As televisões de todo o mundo falavam da Ressurreição de Jesus Cristo. A Rádio e Televisão públicas, de um Moçambique laico, idem aspas. Toda a programação visava o acontecimento do fim-de-semana prolongado, a Páscoa. Todos devíamos ouvir as explicações de toda a proveniência sobre a Páscoa. Eram clérigos, catequistas e simples crentes que ocupavam os ecrãs, a dizerem o que sabiam e queriam disseminar àqueles que achavam que não sabiam.

Sem querer, ouve-se de um clérigo (inteiro), a dizer que a trégua que se estava a gozar desde vésperas do dia da família (ou Natal) era consequência das orações da sua religião, por isso, logo depois aos pretensos pedidos a Deus, dia seguinte Afonso Dhlakama comunicou ao país que as armas calavam-se!

Não sei se o chefe da igreja se apercebeu que estava a dizer na devida altura que a guerra não parava porque a sua igreja não queria ou não tomara tal iniciativa. De tão má, a igreja daquele senhor!

Na ausência da banda a sintonizar a estação ou canal que não falasse da Páscoa veio a chatice de um cidadão desamparado, mesmo pela comunicação social que funciona na base dos seus impostos. Desligar tudo era o remédio, admitindo, desta feita, três tipos de barulho: (1) das motos guiadas por indisciplinados de toda a estirpe, (2) das batidas do vento forte que o Leste endossava e do (3) barulho do silêncio dos canais e bandas propositadamente desligados.

Ler ficou a única saída, ainda que a cabeça doesse de tanto ler. Mesmo o resultado animador para um benfiquista de 1-1, no Minho, teria de vir por via de quem se encontrava em Nacala, fora o penálti falhado do Braga. Dia seguinte era o mais-mais, totalmente da Páscoa.

Resta esperar pelas datas doutras religiões, para ver como se comportará o Governo, a Televisão e Rádio Públicas ou teremos de voltar a dizer, ainda que seja por dizer.

Pedro Nacuo
nacuo49nacuo@gmail.com

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