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TRABALHO INFANTIL: “Crianças de negócio” sustentam pais desempregados

Por admin
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Nem no seu próprio dia foram poupadas! Sim. Como sói dizer-se, em canções e proclamações criadas para a pequenada “1 de Junho é o dia… da criança”. Pode até ser, mas não para a maioria. Dúvidas? Serão desde já dissipadas. Para tal, domingo propõe uma viagem intrigante por estas narrativas que se seguirão sobre a vida de crianças, que em plena comemoração da sua data, e noutros dias também, pulam de rua em rua, passeio em passeio para garantir o pão à mesa dos seus progenitores.

Alguns destes seres de palmo e meio interromperam um dos desígnios mais sublimes que orientam a vida do homem: apartaram-se das salas de aula para se dedicar ao mundo confuso e descolorido do adulto, fazendo negócio, deixando-se orientar por uma ordem segundo a qual há que garantir o pão à mesa.

Essas instruções, em todos os casos acompanhados pela nossa Reportagem, vêm dos seus próprios pais, e traduzem-se em atropelos aos direitos da pequenada, praticados de maneira destemida, sem veio nem freio, aos olhos de todos. Trata-se de uma realidade que se arrasta lá vão uns bons anos. A culpa é da crise, como se tem dito à boca pequena.

Pois é, a maldita “crise” é culpada pelo rumo que a vida de Maida Matavel, de 10 anos, residente no bairro da Polana-Caniço com a sua mãe desempregada, está a tomar. Falamos de uma criança frágil, de olhar inexpressivo, que diariamente percorre as ruas da cidade de Maputo para ganhar a vida, vendendo pãezinhos de leite.

Maida teve de parar de estudar para trabalhar, uma decisão tomada pela sua progenitora, que actualmente não tem nenhuma ocupação. “Comecei este ano a vender. Por dia consigo tirar 100 meticais e dou à mamã para comprar comida”.

A criança assumiu a responsabilidade imersa em revolta: “Não gosto de fazer este trabalho, quero estudar, mas tenho medo de dizer isso à minha mãe”. Medo, temor, receio de desagradar… seja qual for a acepção, acompanha a vida de muitas crianças, que debaixo da asa dos seus progenitores dançam ao som de ritmos pesados e belicosos.

Frank João, de 14 anos, residente na Polana-Caniço, conhece perfeitamente a lei da sobrevivência. Já trabalhou num estaleiro; empurrou tchova repleto de mercadorias a ser comercializada pelas ruas. Hoje pratica um negócio “mais soft”, vendendo sacos de plástico também na via pública.Tudo é feito sob orientação do pai. Aliás, este é “culpado” inclusive pelo abandono de Frank à escola. “Parei de estudar na 6.ª classe, por falta de condições. Foi o que o meu pai disse, e prometeu que eu retornaria no ano seguinte, mas até hoje apenas pratico o comércio”. Contrariado, afirmou que o seu sonho é voltar a pegar em livros e cadernos: “não me agrada nem um pouco ficar sem estudar”. Aliás, o impedimento veta a possibilidade de esta criança poder se tornar, no futuro, um transmissor de conhecimento: “Quero ser professor, ensinar as outras pessoas a ler e escrever”.

 

Entretanto, neste universo de comerciantes mirins, quem goza da prerrogativa de estar matriculado numa instituição de ensino vê as suas actividades escolares a ficarem prejudicadas pela necessidade de estar mais tempo na via pública, para arrecadar um valor monetário razoável.

Para obter sucesso no comércio, Deny Chimundze, de 12 anos, aluno da 6.ª classe, residente no bairro da Polana-Caniço com o pai, que é também negociante, cumpre as obrigações escolares de maneira irregular. “Hoje não fui, porque estou a vender”. Para prover devidamente o bolso, Deny reconhece que se torna complicado ser um aluno exemplar: “dedico-me mais ou menos à escola, é difícil estudar e trabalhar”.

Segundo contou à nossa reportagem, vive longe da sua mãe, que “já tem outro marido”, e iniciouo seu negócio para suprir as necessidades da sua família. “Tenho de trabalhar, porque não há dinheiro”. Do seu tutor não recebe nenhum apoio material, senão o conselho de que deve se “virar” já que é homem.

Trata-se de um caminho pelo qual enveredam várias famílias na cidade capital. Fernando Jalane, de 15 anos, residente no bairro da Costa do Sol, contou que assumiu a responsabilidade de suprir as necessidades básicas da casa há mais ou menos dois anos. “Vendo para comprar comida. Vivo com a minha mãe e avó”, que, destaque-se neste caso também, não trabalham. Conforme relatou o menor, a tónica do discurso lá em casa é que Fernando Jalane é “o homem da casa”. Como não? Diariamente, sai pela manhã para vender refrigerantes na via pública, um negócio que lhe rende 150 meticais por dia. Os planos desenhados na infância foram trocados pelas necessidades materiais. Por enquanto, fica a ideia de “um dia” voltar à escola e estudar para ser polícia. “Parei na 7.ª classe, mas vou voltar”, afinal, “gosto de estudar”.

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