
O pensamento do suicídio foi companheiro constante de Matias Mboa. Combatente da luta de Libertação, foi preso em Dezembro de 1964 pela PIDE. Conseguiu resistir à tentação.
“A morte é cobarde. Quando chamamos por ela, não aparece; quando não estamos à espera, vem ter connosco e leva-nos.” Na sua casa na Matola, partilhou as memórias com uma surpreendente tranquilidade e sem qualquer rancor. Como se fosse uma relíquia, mostra um papel amarelado de um maço de cigarros onde escreveu um poema nos anos que passou na Machava. “ É a única coisa que resta desse tempo de sofrimento.”
Nascido a 6 de Janeiro de 1942 em Bobole (a 30 quilómetros de Maputo), Matias Zefanias Mboa, que recebeu treino de guerrilha na Argélia, foi nomeado chefe do Comando Operacional da 4º Região Militar da Luta de Libertação Nacional desencadeada pela Frelimo sob a direcção do então Presidente Eduardo Mondlane. O nome de guerra era Thomas Kumalo. Escreveu um livro, “Memórias da Luta Clandestina”, em 2009, para que não sejam esquecidos todos os que morreram pela libertação do país e aqueles que ainda estão vivos.
“Fui vendo desaparecerem, um a um, quase todos os meus chibostso”- o nome pelo qual se chamam entre si os que partilharam as celas do regime colonial. Mas há outra razão: “Na história da Frelimo sempre falhou uma parte, sobre a clandestinidade.” A luta contra a dominação portuguesa não foi só nas matas. Passou também por vigilância, perseguição, detenção, tribunal militar, prisão. E tortura. Mboa começou por estar na penitenciária de Lourenço Marques “actual Maputo”. Foi condenado a cinco anos de cadeia por terrorismo – que na verdade se transformaram em sete. Cumpriu a pena na Djamangwana, nome como era conhecida a cadeia da Machava pela população local. “Quando fui preso, à meia-noite, fui tão torturado que perdi os sentidos, carregaram comigo para a penitenciária. Quando acordei, senti que estava molhado e sozinho, todo encolhido, numa cela de um metro e pouco. Só pedia a Deus para me levar!”
Ter escrito a experiencia da cadeia não apagou da memória o cheiro nauseabundo de urina e fezes e morte. “Ainda tenho nas narinas aquele cheiro.” Para sempre ficou, também, a memória de Chico Feio. “ era a pessoa mais feia do mundo, o seu prazer era torturar. Era uma espécie de avançado – centro, sempre pronto para a tortura.” Que incluía espancamentos, choques eléctricos, humilhações sexuais, violações.
“ A morte de Franciso Langa, seu verdadeiro nome, roubou-nos a oportunidade de saber as pessoas que matou, como as matou e para onde foram atiradas. Ele sabia tudo isso: era a biblioteca da tortura da PIDE.”
Foram muitos os carrascos, nomes que preferia esquecer, como o inspector Matos Rodrigues. “Era um homem grande e, quando subia em cima da tua cabeça, sentias que estavas as ser esmagado.” Ou o inspector Acácio, que o torturou na Vila Algarve, “o matadouro onde foram imolados muito companheiros de sofrimento”. Ou o director da PIDE António Vaz, que compara a Adolf Hitler “ na estatura, no bigode, na maneira de agir e torturar”.
Depois da independência, mal visto pelo novo regime, Mboa voltou à Machava em 1978, onde esteve preso mais cinco anos. Ainda não quer falar disso, mas continua a dizer que não sente rancor nem por aqueles que pediram o seu fuzilamento. “Sofri porque deus quis.”



