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O dilema de engravidar adolescente e estudante

Por admin
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Aos 17 anos de idade, Ana Mula viu-se forçada a interromper os estudos para se dedicar ao bébé que crescia no seu ventre. Tornou-se mãe quando menos esperava, e, por isso, não gozou ao máximo a sua juventude. Esta é uma das estórias que fazem esta reportagem.

Tal como Ana, muitos rapazes e raparigas moçambicanos confrontam-se diariamanete com o dilema da gravidez precoce. Entre as soluções apontam-se a abstinência e prevenção como as mais eficazes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a adolescência como o período da vida da pessoa que compreende entre os 10 e os 19 anos de idade.

Em alguns casos, esta fase é interrompida quando a jovem engravida. Uma em cada cinco mulheres no mundo tem um filho antes dos 18 anos e a cada ano nascem 16 milhões de crianças filhas de mães adolescentes.

A OMS indica que estes casos são frequentes nas regiões mais pobres do planeta: uma em cada três mulheres é mãe na adolescência. A gravidez que ocorre nesta fase da vida é considerada de alto risco, pois a adolescente não está preparada fisica nem mentalmente para ter um bebé.

Em Moçambiquehá indicações de haver maior número de mães adolescentes nas zonas rurais que nas cidades. Aliás, nalgumas regiões do país, uma rapariga que atingia 19 anos sem procriar pode ser motivo de chacota.

Ser mãe na adolescência não é problema exclusivo das raparigas. Embora os rapazes não possuam as condições biológicas necessárias para engravidar, um filho não é concebido por uma única pessoa.  

No caso da Cidade de Maputo e seus subúrbios, a falta de informação há muito que deixou de ser principal desculpa para as raparigas. Nas escolas, hospitais, barracas, rádios, televisões e jornais abundam conteúdos sobre os perigos da actividade sexual prematura não protegida.

Ana Joyce Mula, agora com 18 anos, não foi propriamente por falta de informação que engravidou. A emoção foi maior e agora encara a vida com optimismo, apesar das crescentes dificuldades.

– Não estou arrependida de ser mãe, é uma sensansão muito boa, apesar de passar por dificuldades para cuidar do bébé.

Explica que com uma criança por atender algumas coisas ficam difíceis, pois a pessoa deixa de pensar somente nela própria, mas em duas.

Por isso aconselho a todas meninas a não correrem. Não tenham pressa! Preparem-se e desfrutem primeiro da vossa juventude, aconselha.

 

ENTRE O SER E O NÃO SER

 

Natércia tem 18 anos de idade e está grávida do seu primeiro filho. É estudante da 11ª classe na Escola Secundária Noroeste 1, curso diurno. Disse ao nosso jornal que ser gestante naquela idade não é fácil, uma vez que o anúncio da chegada de mais um membro na família decepcionou os pais.

Segundo ela, nos primeiros meses da gravidez na sua casa gerou-se um ambiente de tensão familiar, até porque o parceiro da jovem ainda era desconhecido.

– Meu pai ficou muito desapontado e chegou a não falar comigo. Porém, tempo depois aceitou a gravidez e aconselhou-me a não parar de estudar.

Actualmente, Natércia reside com o seu namorado no bairro da Maxaquene. Mesmo grávida, seus sonhos não se esfumaram, pois, após o parto pretende continuar a estudar e posteriormente formar-se como despachante aduaneira.     

Sónia Machava, 19 anos de idade, residente no bairro Mavalane, também está grávida e diz que a sua vida prossegue normalmente. Nada mudou. Ao contrário da Natércia, esta não teve problemas em casa.

– A minha família não teve nenhuma reacção negativa, ficou totalmente espantada, mas aceitou e continua a viver comigo.

Mais experimentada é Ana João, 21 anos, que se prepara para ser mãe pela segunda vez. A primeira gravidez, há três anos, forçou-a a interromper a frequência da 9ª classe na Escola Solidariedade, localizada na Cidade de Maputo.

Disse-nos que já pensou em voltar a estudar mas “não deu” por ter de cuidar da criança. E espera mais um filho. No entanto, garante que após dar luz vai tentar retornar a escola e mais tarde cursar Medicina.

Ana vive com o marido, que a apoia incondicionalmente. Mesmo assim, seu quotidiano não tem sido fácil. “Depois do primeiro filho algumas coisas tiveram de parar na minha vida”.

Só depois dos 18 anos

Rapazes e raparigas ouvidos pelo domingo dizem estar informados dos perigos da gravidez precoce e defendem o início da actividade sexual após os 18 anos, e mesmo aí com os devidos cuidados de prevenção.Nas escolas, as relações sexuais são discutidas nas salas de aulas e nos recreios. Muitas vezes os professores recomendam a abstinência, mas bastas vezes a curiosidade apressa a experiência.

Gravidez precoce é aquela que ocorre na fase da adolescência, e consequentemente indesejável. Assim se expressou Lia Nunes, 13 anos, que frequenta a 8ª classe na Escola Secundária Francisco Manyanga. Para ela, é preciso que as meninas tenham cuidado porque este tipo de situação pode levar à morte, sobretudo quando o aborto é feito de maneira clandestina e sem os meios necessários para uma boa assepsia.  

Milena Amaral, 14 anos de idade, aluna da 10ª classe, afirmou que a gravidez precoce é má para todos os adolescentes, uma vez que pode causar a morte da mãe bem como do próprio bebé. Para a adolescente, este acto não pode ser considerado normal.

– O aborto não pode ser uma opção para saída deste problema. Algumas pessoas brincam sem precaução porque sabem que irão recorrer a isso, quando podem muito bem evitar. É preciso recordar, sempre, aos adolescentes que hoje pode interromper a gravidez e amanhã chorar por querer ser mãe. Então por que não precaver-se?Questiona.

Milena chama atenção aos meninos da sua idade para a necessidade de não ignorar as instruções que lhes são transmitidas nas aulas, em livros e até nos midia.

– Se a pessoa já se sente pronta para a vida sexual por que não seguir o planeamento familiar? Assim ninguém precisará de fazer aborto ou ser mãe na adolescência, frisou.

Marcelo Luís, 14 anos de idade, estudante da 9ª classe, entende que gravidez na adolescência resulta de “irresponsabilidade” porque existem muitos métodos de prevenção.

Quem também partilha desta ideia é Britney, igualmente aluna da 9ªa classe, 13 anos de idade. Segundo ela, é necessário que se faça o uso dos conhecimentos adquiridos na sala de aulas para evitar transtornar os nossos pais e interromper a escola.

Filandro Meneses, 16 anos, estudante da 9ª classe, referiu que gravidez precoce não só é má para as meninas, o mesmo acontece para os rapazes, porque eles também não estão preparados para ver todos os seus sonhos interrompidos por causa de um gesto menos reflectido. Tanto as meninas como os meninos precisam de se fazer pessoas e só depois procriar, disse. 

Eliseu Inácio, 15 anos, frequenta a 10ª classe na Escola Secundária Josina Machel, afirmou que a gravidez atrapalha a vida dos adolescentes, – Quando isso acontece, alguns pais ficam frustrados e chegam ao ponto de não prestar mais ajuda aos filhos. Esse comportamente faz com que essa mãe ou pai adolescente caia na má vida, como prostitução e drogas.

Waltér Adalberto, 14 anos de idade, mostrou ter uma opinião muito formada sobre o comportamento que os jovens devem seguir antes de se aventurarem na actividade sexual.

Acho que não devemos sentir vergonha de nos chegarmos aos adultos e perguntar assuntos ligados a sexualidade, afinal de contas, eles também precisaram de alguém para lhes guiar. Só assim iremos evitar ser pais e mães ainda crianças, disse o pequeno.

Donalda Fumo,15 anos, frequenta a 9ª classe. Ela acha que esta é a época dos meninos prepararem o futuro.

Nesta idade ainda dependemos dos nossos pais e quando se traz mais uma criança só complica tudo para quem cuida de nós, disse.

Escolas de Maputo sensibilizam alunos

A gravidez precoce tornou-se um tema actual nas salas de aulas das escolas. As direcções das escolas da Cidade de Maputo encaram o fenómeno com preocupação, orientando os professores a sensibilizarem os alunos adolescentes para tomarem atitudes de prevenção.O director da Escola Secundária Francisco Manyanga, Orlando Dimas, afirma que a escola tem mantido contacto regular com os pais dos alunos, e estes, por sua vez, na voz dos pais de turma, têm realizado, todas quartas-feiras, reuniões onde falam com os adolescentes sobre vários temas, sendo um deles a problemática da sexualidade e gravidez precoce.

Nesses encontros, os alunos ficam a saber dos riscos da gravidez precoce e de outros temas. De referir que na Francisco Manyanga poucas alunas se apresentaram grávidas ao longo dos últimos anos lectivos.

– Em casos de gravidez duma aluna, dialogamos com os pais da estudante em causa para ser transferida para o curso nocturno, por forma a desencorajar este tipo de prática. Caso a idade não permita, aconselhamos aos pais a deixar a filha ficar em casa um ano e no ano seguinte ela retoma as aulas normalmente, disse.

Entretanto, nem sempre essa medida, que é do Sistema da Educação Nacional, é bem vista. Alguns pais chegam a pensar que suas filhas estão a ser punidas.

Segundo Orlando Dimas, as exigências de uma menina grávida não são fáceis e nem sempre o professor consegue lidar com aquele tipo de casos. “Isso para não falar dos colegas, que na inocência acabam, de algum modo, se afastando desta aluna, e ela corre o risco de sentir-se estigmatizada”, anotou, tendo acrescentado que quando a menina fica grávida de seu colega, este também passa para o curso nocturno de forma a acompanhar tudo o que acontece com a sua parceira.

Armindo Tomás Mutimba, director da Escola Secundária Josina Machel, disse que a gravidez precoce é um problema quase nulo naquela instituição na medida em que é normal num ano aparecerem duas alunas com esse problema, num universo de seis mil.

A Josina Machel também tem abordado este e outros assuntos na sala de aulas de forma a evitar problemas do género. Ali os directores de turma interagem com os alunos, esclarecendo todas as possíveis dúvidas dos mesmos.

Segundo o director, os alunos ficam a saber que há necessidade de adiar o namoro e principalmente a prática da actividade sexual. No entanto, afirmou que durante as conversas informais com os alunos, tem sentido que alguns nao acatam a informação com naturalidade.

– Muitos alunos namoram e já iniciaram actividade sexual, mas felizmente dessas conversas fico a perceber que todos têm consciência de que têm de evitar a gravidez.

Acrescentou que dos poucos casos que a escola já teve não optou em transferir as meninas para o curso nocturno. Apenas orientaram-nas a vestir camisolas ou roupas largas.

 

Texto de Maria de Lurdes Cossa
mariadelurdescossa@gmail.com

Fotos de Inácio Pereira

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