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MORALIDADE: Resolvo problemas de maridos que não dormem em casa

Por admin
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– Mariamo Sadaca, rainha do bairro de Ingonane, em Pemba

É uma rainha sem grinalda, mas a sua palavra tem o peso de quem mantém um reinado debaixo da sua asa. Mariamo Sadaca rege com vigor e sabedoria o bairro de Ingonane, localizado em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. Solver querelas dentro dos lares é a sua marca registada: “resolvo problemas de marido que não dormem em casa”. domingo conversou com esta matrona de respeito, e apresenta o resultado nas próximas linhas.

 

Que critério foi tido em conta para a sua indicação como Rainha?

– Sou uma pessoa flexível, que agrega as massas, cria consensos, daí que a população não teve dúvidas na hora de votar a meu favor

Fale-nos das suas responsabilidades. Que tarefas lhe cabem como Rainha?

– Eu mantenho a ordem e harmonia no seio das famílias, resolvo problemas; apresento ideias para ultrapassar os impasses. A minha função equivale a de um régulo. Têm surgido várias queixas, principalmente devido ao mau comportamento dos homens no casamento, e das crianças que, ao invés de estudarem, se perdem em programas que as levam ao mau caminho.

Pode especificar o pecado dos homens?

– Falo de maridos que, mesmo sendo casados, metem-se com outras mulheres, criando, deste modo, um mal-estar nas suas famílias, na maioria dos casos composta de filhos, inclusive muitos filhos. Este facto obriga as esposas a fazerem sacrifícios para garantir a alimentação e suprir outras necessidades de casa, devido às ausências do chefe da casa. Estas irresponsabilidades têm sido dos principais factores para o mau comportamento das crianças, pois elas espelham-se na imoralidade dos seus progenitores e seguem caminhos que não as dignificam e tão-pouco garantem um futuro promissor.

Será esse o motivo para a existência de índices elevados de casamentos prematuros na província de Cabo Delgado?

– Acredito que sim. E há casos extremamente graves: crianças que engravidam aos dez anos de idade. Na minha óptica, os pais são os maiores culpados por isso, por não serem bons exemplos a seguir. Mas, igualmente, temos que apontar o dedo acusador para as novelas brasileiras. Passam estórias e comportamentos que colidem com os nossos princípios, porém encantam as nossas crianças que os adoptam para as suas vidas.

Voltando às suas funções, como tem resolvido estes problemas?

– Interfiro nesses lares e fico frente-a-frente com esses homens que não sossegam. Tenho colocado como principal argumento para não adesão à poligamia a pobreza que reina na maioria das famílias. Por que motivo um homem atrai mais despesas para si, se sequer suporta as do seu lar? Até porque eu sou contra a poligamia.

Mas, quer me parecer que ela é permitida por aqui, pelo menos pela religião islâmica… essa não seria uma barreira?

– Mesmo assim, continuo a defender a monogamia, os tempos são outros… há muita carência nas famílias.

É a sua palavra contra a maioria…

– Mas ela tem peso. Palavra de rainha é palavra de rainha…

O povo respeita-a?

– Não só me respeita muito bem, como também me adora. Para exemplificar, tenho conseguido fazer com que crianças voltem a estudar, para além de sensibilizar os pais que não entendem a importância da formação dos seus filhos e, por conseguinte, pensam ou optam por não os matricular.

 SEXO? SÓ DEPOIS DOS DEZOITO

Tendo em conta a imoralidade que domina a geração actual de jovens, que valores devem ser transmitidos para anular este cenário?

– Primeiro, entendo que deve ser feito um trabalho, em coordenação com o Governo, de mobilização e controlo dos jovens. Não adianta as famílias introduzirem princípios saudáveis se a escola não acompanhar a sua aplicação. Tanto os pais, assim como os professores devem monitorar a vida da criança.

Esses princípios envolvem ritos de iniciação?

– Sim, no entanto, defendo que questões relativas à sexualidade sejam transmitidas na maioridade.

Mesmo admitindo que na idade infantil há registos de actividade sexual?

– O problema começa exactamente daí. Sexo? Só depois dos 18 anos nos rapazes e 20/21 nas raparigas…

Rainha, com todo respeito, diga-me com quem vão praticar relações sexuais os rapazes? Somente com mulheres mais velhas?

– (risos)

Quer argumentar?

Entenda que, ao falar da sexualidade a crianças de 10-17 anos, abre-se portas para que ela experimente, de parceiro em parceiro, o que a satisfaz nos seus desejos. Este é o passaporte para a perdição. Vamos deixar que, nesta faixa, se ensine somente a ter respeito pelos pais, avôs, e o outro assunto para a altura em que haja um casamento à vista.

ESCOLHAMOS

PARCEIROS

PARA NOSSOS FILHOS

Rainha Mariamo, que valores lhe foram transmitidos na sua infância?

– Quando nasci, a minha mãe e o meu pai protegeram-me, isto é, fecharam-me dentro de casa, para que eu escapasse das garras dos mal-intencionados ou mal-educados.

Assim sendo, a sua escolarização decorreu sem sobressaltos… (risos)

Quem me dera…

Não?!

– Os meus pais não se sentiam confortáveis com o assunto “escola”. Achavam que eu comeria carne de porco pelo caminho, o que feriria a nossa religião.

Isso significa que Mariamo Sadaca não conheceu a porta da escola?

– Estudei, mas muito pouco… até à 3ª classe.

E quando chegou a vez de educar ou encaminhar os seus próprios filhos, que decisões tomou?

– Optei por colocá-los na escola. Não podemos retirar “os olhos”, a luz delas. Somente estudando elas alcançarão e entenderão o mundo. Penso de forma antagónica em relação a esta questão.

Só nessa questão?

– Sim, porque defendo que, tal como os meus pais fizeram comigo, as raparigas só se casam depois dos 20 anos. É nessa altura que deve acontecer o descabaço. Mas a união deve ser decidida pelos pais. Os meus decidiram por mim, eu fi-lo pelos meus filhos.

E onde deixamos a paixão, o amor…

– O mais importante é a harmonia; interiorizar que, uma vez casado, deve aprender a gostar do seu parceiro. Com ele deve procriar: 4, 5…12 filhos…

Haja saúde, Rainha…

– Sim, Deus tem permitido.

Conversa corrida

Nome: Mariamo Sadaca

Ano de nascimento: 1944

Naturalidade: Pemba

Cargo: Rainha de Ingonane, uma função equivalente à de régulo

Estado civil: Viúva

Maternidade: Cinco filhos

Línguas que fala: Português, Emakwa e Kimwani.

Prato preferido: Não tenho nenhuma preferência. Como ter com pobreza?

Anseios: Receber um salário pelo cargo que exerce e a respectiva vestimenta.

Texto de Carol Banze

carolbanze@snoticias.co.mz

 

 

 

 

 

 

 

 

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