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EXPLOSÃO DO CAMIÃO CISTERNA: Capirizanje renasce depois do “inferno”

Por admin
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A população da localidade de Capirizanje, no distrito de Moatize, província de Tete, está a refazer-se do terrível pesadelo que viveu no final do ano passado, quando 104 pessoas sucumbiram às queimaduras resultantes da explosão de um camião-cisterna no qual surripiavam gasolina. Volvidos sete meses, a solidariedade comunitária começa a construir sorrisos tímidos e fugazes naqueles que literalmente experimentaram o “fogo do inferno”.  

O dia 17 de Novembro de 2016 jamais será esquecido pela população da localidade de Capirizanje que, passados sete meses, continua a viver com o coração apertado porque os sobreviventes apresentam marcas indeléveis em alguma parte ou até em todo o corpo.

Um dos casos mais graves é de Nélson Rúben, de 16 anos, que, para além de ter sofrido queimaduras que o impedem de se locomover convenientemente, perdeu o pai e a mãe naquele triste evento. Fomos visitá-lo à casa do tio (irmão da falecida mãe) e ficámos estarrecidos ao vê-lo fazer um esforço descomunal para se aproximar de nós. Simplesmente penoso.

Nélson caminhava com esforço sobre-humano. Via-se que cada passo era uma vitória. Franzia a testa, esboçava um ar de dor e ajeitava a calça para que não tocasse nas feridas ainda em cura, localizadas nas coxas. Pedimos para que ficasse por ali, mas ele queria apanhar um pouco de ar fresco no quintal e, por isso, ignorou o nosso apelo. Veio mesmo assim e sentou-se com muito esforço num banco.

Aquela deve ter sido a entrevista mais curta e penosa que fizemos em nossa carreira porque o sofrimento estava escarrapachado naquele rosto de menino. Ele mal falou. Quem assumiu as rédeas da conversa foi o tio, Nito António, que agora faz papel de pai e mãe.

Agora o Nélson está bem. Já esteve pior. Tinha queimaduras em todo o corpo, mas felizmente muitas feridas sararam e as que sobraram não estão a inflamar”, disse o tio Nito enquanto devolvíamos o olhar para o menino Nélson e imaginávamos que, se naquele estado “está bem”, como o seu tio disse, então quando esteve pior deve ter sido um drama sem paralelo.

Conforme contou o próprio menino Nélson, “no começo, para além das dores da queimadura, sonhava com a tragédia. Era complicado, mas já passou, agora só falta sarar as feridas que resultaram dos enxertes que me fizeram nas pernas e na bacia. Estou a melhorar”.

Abandonámos a casa de Nito deixando votos de uma rápida recuperação e fomos conduzidos pelo chefe da localidade, Luís Tambo, para a casa de uma outra vítima, Luísa Feliz, de 24 anos de idade e mãe de dois filhos. As queimaduras que ela teve transfiguraram-na o corpo por completo. Vê-se que num passado recente ela passou por muito sofrimento.

Encontrámo-la sentada numa esteira a conversar tranquilamente com os pais e filhos. “Tive alta médica no dia 15 de Dezembro e, de lá a esta parte, sou assistida aqui no Centro de Saúde de Capirizanje”, contou fazendo pequenos gestos com as mãos que têm profundas marcas de queimaduras.Luís Tambo, o chefe da localidade, indicou que Luísa Feliz e Nélson Rúben eram os casos mais graves que sobreviveram àquela tragédia. Os pais de Luísa, Feliz António e Isabel Jorge, pareciam incrédulos ao ver a filha esboçar um sorriso para nós. “Tudo o que queremos é que a nossa filha recupere, porque sofreu muito e estamos gratos a Deus por tê-la de volta com vida. O resto logo se vê”, disseram.

 

Nélson Rúben e Luísa Feliz fazem parte de um grupo de cinco pacientes que rotineiramente são assistidos naquele centro de saúde por apresentarem algumas lesões que carecem de tratamento e de troca de pensos.

RENASCER

Os feridos que regressaram do Hospital Provincial de Tete trouxeram múltiplas incertezas em relação ao seu futuro e a essas dúvidas somava-se o destino das 245 crianças órfãs (dos zero aos 15 anos) que, na sua maioria, tiveram o infortúnio de ficar sem pai e mãe. Quando parecia que tudo estava perdido emergiu na comunidade um espírito de solidariedade que nunca tinha sido imaginado.

Orientados pelo governador da província de Tete, Paulo Awade, no dia cinco de Dezembro do ano passado, os líderes comunitários locais criaram uma associação, a que denominaram de “Mafuangwangwa”, que é vocacionada ao sustento da pequenada e os sobreviventes jovens e adultos que se tornaram incapazes.

Abrimos uma machamba de 16 hectares na qual cultivamos batata-doce, feijão bóer, mapira e milho com que alimentamos a este grupo. A associação é composta por 25 membros que cuidam da área e tratam de quem precisa de ajuda”, contou Luís Tambo.   

Acompanhado por alguns líderes de primeiro e segundo escalão, nomeadamente Luís Beira, Maniel Verniz e José Davete, e de alguns membros da associação, o chefe da localidade de Capirizanje fez questão de conduzir a nossa equipa de Reportagem até ao ponto de produção agrícola e ao celeiro que também foi erguido por aquela colectividade.

Gostaríamos de ter um tractor e respectivas alfaias para melhorarmos a produção e a produtividade porque, e como podem ver, fizemos um trabalho manual que nos permitiu abrir e cultivar nestes 16 hectares, mas poderíamos ocupar 37 hectares. Por outro lado, fazemos apelos à sociedade em geral para que nos ajude a construir um furo ou uma represa para a irrigação”, disseram.

Outra razão que leva os líderes comunitários a desejarem ter uma área maior de produção é que para além das 245 crianças órfãs, a tragédia de Capirizanje colocou um total de 175 famílias em vulnerabilidade.

Mas, mais do que encher os estômagos, os líderes comunitários avançaram para o domínio da Educação através da abertura de um centro aberto que deve acolher crianças para a necessária assistência e apoio no que tange à sua recuperação psicológica e superação de eventuais traumas.

Construído com o apoio do Governo do Distrito de Moatize, o referido centro é composto por duas salas de aula de motivação com 48 carteiras, um pátio e refeitório para o entretenimento e refeições das crianças, armazém e cozinha.

Outra frente que a população de Capirizanje já não negligencia é a atenção em relação à compra e venda de combustíveis na via pública. “Somos implacáveis em relação a isso e, para o efeito, contamos com o apoio da Polícia. Não podemos afirmar que não se vende combustível em locais improvisados, mas estamos todos de sobreaviso porque o que nos aconteceu foi muito grave. Temos reunido semanalmente para discutir esse assunto”, dizem.

“BOLADA” QUE

 DEU ERRADO

A tragédia de Capirizanje é incomparável na nossa realidade, mas episódios semelhantes são comuns em países como a Nigéria, Brasil e México, onde, vezes sem conta, a população de lugares remotos investe o seu tempo e esforço em inglórias tentativas de roubo de petróleo bruto (crude) que é transportado em gasodutos.

No caso de Capirizanje, o caso deu-se devido ao roubo de gasolina que estava acondicionado num camião-cisterna que deveria seguir para o vizinho Malawi. O motorista quis fazer uma “bolada” de algumas centenas de litros e a situação escapou por completo do seu controlo.A ideia do camionista era de drenar parte da gasolina que transportava num tanque menor, de cerca de mil litros, que estava implantado na carroçaria de um Toyota Dyna. Para tal, os dois automobilistas abandonaram a estrada principal que liga Tete à fronteira de Zóbwè e foram fazer a negociata a uns 600 metros mais para o interior.

 

A drenagem do combustível iniciou por volta das 16.00 horas do dia 16 de Novembro. Entretanto, a motobomba que estava a ser usada teve uma falha eléctrica que deu origem a uma faísca e… o Toyota Dyna pegou fogo. O tanque de onde o combustível estava a ser retirado também ardeu.

Perante o intenso fogo e o risco de uma explosão maior, ambos os motoristas puseram-se em debandada, deixando para trás um segundo tanque carregado de gasolina que não tinha sido atingido pelo fogo. Ao longo daquela noite o fogo abrandou e, no dia seguinte (17 de Novembro) a população das redondezas percebeu que havia um tanque intacto e que aquela poderia ser uma oportunidade de se abastecer de combustível para revender ao longo da via pública.

Homens, mulheres e crianças muniram-se de recipientes de todos os tipos e tomaram o tanque-cisterna que “sobreviveu” ao incêndio do dia anterior. Porém, uma segunda faísca deu lugar a uma explosão e 43 pessoas morreram instantaneamente e outras mais de 100 pegaram fogo.

O que se sucedeu ali para frente foi uma sucessão de mortes entre os feridos. Luís Tambo, chefe daquela localidade. “No total morreram 104 e, entre os feridos, 18 tiveram alta hospitalar e regressaram à localidade. Os restantes ficaram sob a guarda de familiares que residem em outros pontos da província e do país”, disse Luís Tambo, chefe da localidade.

100 KM SEM BOMBAS

DE COMBUSTÍVEL

O negócio de combustível é bastante comum nas bermas de quase todas as estradas que o nosso jornal já percorreu um pouco por todo o país mas, no caso do corredor Beira-Chimoio-Tete-Zóbwè, esta actividade já tinha ganho “barba”.

É que esta via, que parte do Porto da Beira, na província de Sofala, e termina na fronteira de Zóbwè, no Norte de Tete, é o caminho por onde transitam centenas de camiões carregados deste tipo de produto com destino ao Malawi. Mas também tem a rota Beira-Chimoio-Machipanda, por onde seguem os camiões que carregam combustível para o Zimbabwe, e mais uma terceira via que segue para a Zâmbia.

No caso particular de Capirizanje, o negócio informal de combustíveis parece ser facilmente justificado pelo facto de se tratar de uma rota onde não há bombas. Quem sai da cidade de Tete e atravessa a vila municipal de Moatize, e nesse percurso avalia mal as suas reservas de gasolina ou diesel, de forma inevitável terá de percorrer mais de 100 quilómetros até à fronteira de Zóbwè, ou até às vilas de Angónia e Tsangano sem avistar uma única bomba de gasolina.

 

 

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