
No passado 12 de Janeiro, o rio Licungo adensou seu caudal numa volumetria insólita e inóspita. Transportou ondas abismais, deslocando tudo, desde solo, habitações, árvores, pontes, com uma violência indescritível.
As cheias trazidas pelo rio e seus afluentes enlutaram a Zambézia, causando pouco menos de uma centena de mortos. Puxaram a província para trás, deixando rasto de destruições sem paralelo nos últimos dez anos.
Como nos referimos na nossa edição passada, 24 278 pessoas ficaram afectadas pelas cheias, 5 319 casas foram destruídas, 378 salas de aulas demolidas e seis centros de saúde desfeitos.

Mais de cinquenta mil pessoas vivem em centros de acomodação após perderem literalmente tudo. Estamos a falar de crianças, adultos e anciãos sem o mínimo para reiniciarem suas vidas.
Com alma ferida, esta gente vive em extenuantes tertúlias de sofrimento. Reinventa a vida com sorriso forçado e caminha na incerteza do futuro.
Nos centros de acomodação vimos crianças que perderam todo material escolar. Que viram suas escolas serem destruídas. Também vimos recém-nascidos no colo de mães desconsoladas ao encontro da sua primeira vacina nas ruínas de um passado para esquecer.
No meio de tanto sofrimento há que bater palmas para a solidariedade. As vítimas, através do INGC, têm stock de abrigo, dispõem de alimentos básicos, têm enfermarias improvisadas em tendas e podem recorrer a camiões cisternas para se servirem de água potável.
As imagens de Inácio Pereira materializam o laço entre as vítimas e o repórter no testemunho de uma dor com mesmo significado para ambos.
Porque a ponte sobre o Licungo foi engolida pelas águas, o nosso repórter mostra gente em longas filas de espera aguardando pela travessia em pequenas embarcações do INGC.
Na pressa de chegarem à casa mais depressa, as pessoas por vezes se expõem ao perigo de atravessar em pequenas canoas feitas de troncos esventrados ali na margem.
Na dor de perder ente queridos; na inconsolável perda de infra-estruturas sociais relevantes ao desenvolvimento do país e na dor indexada ao “adeus” à tudo o que foi construído com sacrifício de vários anos, resta a todos estes concidadãos o gesto de afagar o rosto, enxugar a própria lágrima e a do vizinho para mais tarde reerguerem a vida na medida do que a esperança consente mesmo quando ténue.
Tudo isto porque, como bem dizia Delai Lama, “quer estejamos a vivenciar um grande sofrimento ou já o tenhamos experimentado, não há razão para alimentarmos eternamente o sentimento de infelicidade”.

Fotos Inácio Pereira



