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A igreja deve produzir novos corações nas pessoas

Por admin
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Nasceu e cresceu num meio religioso. Apesar disso, afirma que nunca lhe tinha passado pela cabeça se tornar pastora. No entanto, quis o destino que ela seguisse as pegadas do seu pai que em vida foi líder religioso. Antes de ingressar para o seminário experimentou outra área profissional: trabalhou como empreiteira na construção civil, ramo tradicionalmente outorgado aos homens. Segue a entrevista em discurso directo.

Quem é Luísa Tsevete?

Nasci em 1970 em Maputo. Sou filha de Fernando Quilambo e Eugénia Mapanzene. Venho de uma família de cinco irmãos, dos quais sou a terceira. Mesmo tendo nascido em Maputo, muito cedo fui viver para Sofala.

Por quê Sofala?

Quando tinha apenas um ano de vida, meu pai foi transferido em missão de serviço para Sofala. Vivi lá até aos 18 anos e só depois voltei para Maputo por causa dos meus estudos.

Como se tornou pastora?

Tornar-me pastora nunca foi sonho meu, apesar de ser filha de um pastor. Contudo, sempre tive uma parte espiritual muito forte. Quando jovem era muito ligada à igreja e participava em quase todos os programas religiosos.

Mas naquela altura estava a trabalhar noutra área. Tinha uma empresa de construção civil.

E como entrou para área de construção civil?

Sempre gostei de enfrentar desafios. Trabalhei numa empresa de construção. Depois sai e decidi criar a minha empresa. Lembro-me que naquela altura éramos apenas duas empreiteiras em Maputo.

Foi fácil  duas mulheres singrarem na área de construção civil?

Eu não olhava para o negócio com olhos de mulher, mas sim, como alguém que também podia desenvolver aquele negócio. A maior preocupação era ter lucro. Para se ter um alvará de construção civil não era preciso ser engenheira, mas sim ter um quadro técnico reconhecido que possa suportar tecnicamente a empresa.

Porquê abandonou o ramo da construção?

Meu pai adoeceu e por essa razão nós, os filhos, estávamos muito concentrados na saúde dele. Eu estava sempre lá a orar por ele. E quando o fazia ele melhorava. Mas acabou perdendo a vida de tal forma que com apoio das minhas irmãs decidi seguir a religião, e em 2004 entrei para o Seminário de Ricatha .

É formada em Teologia…

Sim, me formei em Teologia no Seminário. Agora estou a fazer o curso superior de Filosofia.

Após ser ordenada como se sentiu ao dirigir o seu primeiro culto?

Foi interessante. Aconteceu algo estranho. As cabeças dos crentes tornaram-se pequenas. Acho que aquilo me deixou mais firme para falar para a multidão de crentes, pois tinha que me fazer sentir nas pessoas. E tudo correu bem.

Nos últimos anos se está a registar o surgimento de diferentes seitas religiosas. Na sua opinião, o que estará por detrás desta realidade?

Há várias razões para que isso esteja a acontecer. Há pessoas que dizem ter sido iluminadas nos sonhos e conduzidas a fundar uma igreja. Também já ouvi dizer que actualmente a igreja se tornou num negócio rentável. Há outras que foram ainda fundadas porque houve um desentendimento entre os líderes dentro da igreja e os discordantes decidiram sair e fundar a sua congregação. É difícil ter uma resposta exacta.

A sociedade está

a passar por uma crise “

Como podemos avaliar a saúde espiritual do povo moçambicano?

É um povo de fé, entretanto, cada pessoa tem a sua crença. São várias as razões que levam as pessoas à igreja. Cada um vai pelo seu motivo. Um vai porque dormiu mal, outro porque está à procura de uma noiva. Outro ainda porque o seu negócio não está a correr bem. Há pessoas que vão porque não têm nada a fazer. Mas também há pessoas que vão apenas para ouvir a palavra de Deus.

Há falta de paz interior nas pessoas ?

Toda a situação de ausência de paz é desestabilizadora e complicada. A nossa sociedade está a passar por uma situação de crise em quase todos níveis. Hoje as crianças são violadas, filhos matam pais. Há uma onda de assaltos, raptos e por aí em diante.

A moda da fé comercial

Que solução para inverter este cenário?

O que a igreja tem que fazer é produzir novos corações dentro das pessoas. Tem que trabalhar com o coração das pessoas. Porque nos últimos tempos está na moda a fé comercial. Com algum atrevimento chamaria de fé de four by four, porque as pessoas estão preocupadas com carrões e casarões. Até certo ponto não é mau, mas a partir do momento que começamos a rogar a Deus para nos dar carro e nos esquecemos daquela que é a nossa missão principal, que é trabalhar para o bem de todos para que haja companheirismo, solidariedade entre os filhos de Deus, é preocupante.  

Quer dizer que os valores morais já não se fazem sentir?

Nestes últimos tempos as pessoas tendem a ser muito materialistas. Nas relações interpessoais estão preocupadas com “ o que é que me dás”.E a partir do momento que não dás nada, já não serves para nada também. Da mesma maneira que há garfos, pratos e fraldas descartáveis, o ser humano também passou a ser descartável.

Como mudar isso?

 A igreja deve estar muito mais unida e desempenhar o seu papel de educador, orientador e se preocupar com o outro. E, também, é preciso ver que há muita gente que não ouve a voz da igreja porque quer coisas práticas e concretas. Isso é notável nas pessoas que não vivem pela fé. A maior parte das pessoas deste mundo são as que vivem fora das igrejas.

“Sou amiga dos meus filhos”

Para além de pastora é mãe e dona de casa. É exigente com os seus filhos?

Sim, como toda a mãe. Mas procuro também ser amiga deles.

Hoje os filhos começam a ganhar autonomia muito cedo. Se um dia os seus filhos quiserem mudar de religião. Como encararia essa realidade?

Eu parto do princípio de que nós somos livres de escolher e de pensar. Mas por aquilo que eu estudei de Cristo sei que a minha primeira reacção seria negativa.

Como é feita a sua rotina diária?

Acordo às 4 horas da manhã, vou correr, depois volto para me preparar para ir à escola. Algumas vezes, daqui, saio directo para a igreja.

Em casa consegue separar a figura de pastora com a de mãe? O papel que tem aqui na igreja nalgum momento é transportado para casa?

Não, não consigo. Muitas vezes sou uma espécie de activista religiosaem casa apesar de não ter nenhuma bíblia por lá. Penso que o que interessa é o coração que temos dentro de nós. Sempre transmiti aos meus filhos o espírito de ajuda e solidariedade para com as pessoas.

Todos nós temos um ritual de vida sem o qual nos sentimos incompletos. Tem algum?

Sim. Após acordar preciso de uns 45 minutos de silêncio. É o momento em que me encontro comigo mesma e fico a meditar. Fico doente quando oiço barulho de manhã cedo.

Luísa Jorge

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