
Suíça quase que não se vê no mapa, porém, tem a melhor qualidade de vida do mundo e, se a riqueza aqui produzida fosse distribuída pelos seus oito milhões de habitantes, cada um levava para
casa à volta de 75 mil dólares. É um país sui generis. Está no centro da Europa, é signatário de vários tratados da União Europeia, mas não faz parte deste bloco. Por ali o inglês e o dólar quase que não contam. A vida corre noutra pedalada. E que pedalada?!…
A única coisa que a Suíça tem de pequeno é o tamanho que quase se iguala a países como Lesoto ou um pouquinho mais que a Suazilândia mas, quanto ao resto, poucos países lhe chegam aos calcanhares pois, a sua dinâmica económica faz com que os seus cidadãos tenham a melhor qualidade de vida do mundo.
Cálculos feitos por várias entidades económicas indicam que se a riqueza ali produzida fosse repartida por todos os suíços, cada um ficaria com mais de 75 mil dólares. Só para se ter uma ideia, se fizéssemos o mesmo por cá, cada moçambicano iria para casa com uns mil dólares (cerca de 30 mil meticais).
Metade da produção mundial de relógios é feita neste país, nomeadamente os prestigiados Rolex, Hublot, Tissot e Ómega, apenas para citar alguns exemplos e os lucros anuais, só da Rolex, ascendem aos três biliões de dólares. Imagine-se os de todo o sector. E ainda tem a indústria de chocolates, queijos e vinhos, que é outra coisa.
Por outro lado, a Suíça possui uma agência espacial só dela, produz aeronaves particulares a jacto, tem um turismo vibrante, entre outros. Para não permanecer isolada, possui acordos económicos com a União Europeia, mas recusa-se a fazer parte deste bloco económico.
Entre outros, a Suíça é famosa por ser uma praça financeira para a gestão de grandes fortunas e por ser um paraíso fiscal com normas claras sobre o sigilo bancário, no que se refere à origem dos capitais ali guardados. Os Estados Unidos da América (EUA), Alemanha, entre outros, acusam a Suíça de facilitar a lavagem de dinheiro, atiram-na para a “lista negra”, mas o país vai se aguentando e mantém a sua moeda estável.
Dinheiro lícito ou ilícito à parte, este país tem o privilégio de não se envolver em guerras desde 1815, o que o torna único naquele meio e não só. Graças à sua neutralidade, alberga as sedes de organismos internacionais de grande peso, sendo que depois de Nova Iorque, nos EUA, a Suíça se ergue como o segundo centro diplomático do mundo, pois ali está o segundo maior escritório da Organização das Nações Unidas (ONU), Fórum Económico Mundial, Cruz Vermelha, Organização Mundial do Comércio (OMC), entre outros.
Tem um negro aqui ao lado!
Viajamos até à cidade de Genebra, cidade que se localiza na parte sueste da Suíça, a convite da Organização das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR), entidade que começa a ganhar notoriedade por estar a obrigar o mundo a despertar para a crueldade, frequência e intensidade das calamidades naturais.
Aliás, poucos depois de iniciar a 4ª Plataforma Global para a Redução de Risco de Desastres (4º PGRRD), que reuniu mais de 4700 pessoas no Centro Internacional de Conferências de Genebra (CICG), o mundo foi sacudido pela notícia que dava conta da ocorrência de tornados na região de Moore, em Oklahoma, EUA, que mataram mais de 50 pessoas e destruíram infra-estruturas diversas.
Mas a viagem até ali tinha iniciado no aeroporto Olivier Thambo, de Joanesburgo, na África do Sul, onde um casal, aparentemente alemão, quase que se despenteou quando se apercebeu que teria de voar durante cerca de 11 horas sentado ao nosso lado.
A mulher, de meia-idade, pediu ao marido para que fosse negociar a troca de lugares, debalde. O avião tinha os 525 lugares preenchidos, pelo que nada havia a fazer. Contrariado, o casal sentou-se. A mulher, que foi forçada pelas circunstâncias a ocupar o lugar do meio, manteve-se inclinada para o ombro do marido quanto pôde. “Deve ter chegado à casa com problemas graves de coluna”, pensamos.
Porque a UNISDR estava determinada a redimir-se dos erros cometidos recentemente, aquando da reunião africana sobre Redução de Risco de Desastres (RRD), realizada em Arusha, na Tanzânia, no qual quase tudo deu errado, desta vez, todos os participantes receberam instruções claras sobre como proceder ao desembarcar em Genebra.
No lugar dos sempre dispendiosos táxis, a organização aconselhou a que todos se deslocassem aos hotéis de autocarro ou comboio. Para tal, bastava ir a uma máquina de emissão automática de bilhetes (semelhante às ATM´s), clicar no destino e ter acesso aos meios de transporte públicos durante os próximos 90 minutos sem chatices.
“Não, deixa para lá!”
Para fazer jus ao tema do encontro, RRD, cada participante recebeu a indicação prévia de que autocarro ou comboio usar. A nós nos coube o número “23”, com destino à região de Petit Lancy, na paragem de Les Essertes, distância que se devia percorrer, no máximo, em 30 minutos. E foi o que aconteceu.
Também fizeram questão de revelar os valores que seriam oferecidos para a cobertura das despesas de alojamento e alimentação. Ressalvavam que o dinheiro poderia parecer muito ao câmbio do país de origem de cada um, mas que por ali seria uma ninharia, tendo em conta o custo de vida local.
Para atrapalhar, naquela mesma semana a cidade de Genebra acolhia as reuniões anuais da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e só para a 4ª PGRRD estavam inscritas exactas 4783 pessoas.
Como resultado, e bem ao estilo do mundo capitalista, onde o mercado se rege pelas regras de procura e da oferta, os preços pela acomodação dispararam de forma arrogante, quase ao estilo do que acontece por cá no final do ano, quando o preço de um saquinho de batata ou de cebola chega aos 500 meticais e o Governo se vê forçado a intervir.
Prevendo este tipo de situação, um mês antes usamos a Internet para “vasculhar” os hotéis da cidade e ficamos a saber que na baixa de Genebra há dezenas de hotéis que cobram entre 140 e 190 francos suíços (CHF), equivalentes a cerca de 5500 e 7600 meticais, o que seria espectacular se não estivessem todos superlotados.
Em zonas mais nobres, os preços partiam de 200 a 600 CHF. É claro que ninguém quis espreitar em hotéis como Le Richemond (562 CHF), Beau Rivage (544 CHF), Kempisky (441 CHF) ou President Wilson (482 CHF). Seria ousadia aguda.
No final percebemos que o melhor era contentarmo-nos com a reserva feita pela UNISDR, para dormidas a 250 CHF que, convertidos, “arranhavam” os 300 dólares americanos (cerca de nove mil meticais) por noite, sem incluir uma garrafinha de água, chá, café ou pequeno-almoço. “Se quiseres a gente inclui, mas pagas”, dizia a recepcionista. A resposta era óbvia: “Não, deixa para lá. Eu me viro por aí!”
Inglês e dólar para nada
Depois de ultrapassada a questão do alojamento, ainda havia que enfrentar os restaurantes, cujos preços só animam para os próprios suíços que já têm cultivado o hábito de “comer fora”. Nesse quesito, Genebra é uma cidade fecunda. Tem restaurantes em tudo quanto é canto.
Aliás, naquele país não é comum encontrar gente no supermercado a comprar 10 frangos, cinco litros de óleo, saquinho de cebola e de batata, barra de peixe, caixa de tomate, saco de arroz, entre outros. Eles compram o essencial para aquele dia e pouco mais. Um contraste de doer.
Voltando aos restaurantes, na baixa de Genebra é possível se salvar da fome comendo em restaurantes básicos (sem requinte), geralmente propriedade de cidadãos libaneses, argelinos, portugueses, brasileiros e por aí em diante, onde um prato, daqueles de encher o bucho e sonecar logo a seguir, custa cerca de 20 CHF, o equivalente a 800 meticais. Querendo, pode-se ir a lugares onde se come a 35 CHF, cerca de 1400 meticais.
Mas o que complica mesmo é circular com dólares nas algibeiras pois, poucos aceitam realizar transacções com esta moeda. “Vá ao banco ou à casa de câmbio trocar isso”, dizem os comerciantes sem tocar nas notas. Pior se forem moedas. Aí nem há conversa.
Para tornar a situação mais complexa, nas ruas de Genebra é difícil encontrar gente nativa com quem trocar ideias em inglês. “Je ne parle pas anglais” (eu não falo inglês), dizem e a conversa logo morre. Por ali o ideal é saber falar francês, alemão, italiano ou o desconhecido romanche.
Quando se tem dólares no bolso e não se pode comprar nada, e se conhece algum inglês mas não é possível comunicar livremente, o primeiro mundo desmorona e se transforma num lugar estranho, onde se está na solidão porém, no meio da multidão.
É que até a própria UNISDR não usa o nosso português como língua de trabalho. Nas centenas de reuniões que esta entidade organiza fala-se árabe, chinês, inglês, francês, russo e espanhol, com direito a tradução e tudo. Mas, português, nicles. Para “forçar a barra”, os representantes do Brasil, que eram mais de 40 pessoas, sempre que podiam chegar aos diferentes pódios, diziam o que lhes ia na alma em…português.
É neste meio onde vivem cerca de 150 cidadãos moçambicanos, parte deles orgulhosamente ligados às diferentes instituições das Nações Unidas e outros que para ali foram parar por razões conjugais. Entretanto, e segundo apurámos no local, trata-se de um grupo tranquilo e sem registo de problemas com a Polícia local.
Excluído o quesito língua e o custo de vida (aparentemente alto), a Suíça não esconde que é um país onde a qualidade de vida é das melhores do mundo. Nas ruas circulam viaturas como Ferrari e Lamborghini, lado a lado com outras marcas europeias como Skoda, VW, BMW, Volvo e Citroen.
Para quem não tem carro, vale seguir ao seu destino em motorizada, acelera, bicicleta, patinete ou patins. As estradas estão preparadas para cada um circular na sua faixa, em função do meio que usa, Pelo meio transitam autocarros eléctricos que ligam a cidade inteira com um tempo de espera nas paragens que vai dos cinco aos 20 minutos no máximo.
Por ali, os peões merecem todo o respeito a ponto de poderem accionar o fecho do semáforo caso entendam que o tráfego automóvel desapareceu, mas, entretanto, o sinal continua aberto para os carros. Nas intercepções onde não existe semáforo, basta que o peão coloque o pé no asfalto para que todos os carros parem, em ambos os sentidos.
Jorge Rungo



