
A Rádio Moçambique (RM) entrevistou, há uma semana, o Padre Filipe Couto, combatente da Luta de Libertação Nacional, ex-Reitor das universidades Católica de Moçambique (UCM) e Eduardo Mondlane (UEM), que pela sua importância e oportunidade o domingo publica, nesta edição, com a devida vénia.
Moçambique está independente há 41 anos. Como é que olha para o percurso evolutivo do nosso país nestas mais de quatro décadas sob o ponto de vista social e político?
O país foi para frente. Disse bem, passaram 41 anos e dentro do país sucedeu muita coisa. Moçambique tem as suas instituições que funcionam e podem funcionar melhor. Tem capital humano, tem jovens. Há razão de olhar para o futuro com optimismo. Apenas é necessário ter os pés no chão, cabeça erguida e procurar actuar de uma maneira correcta. Sermos um país que usa em primeiro lugar a ética, moral e onde se faz de tudo para que quem está na política trabalhe para o bem comum.
Do que é que o país se pode orgulhar e que pode trazer perspectivas animadoras para o futuro, particularmente nos aspectos social e político?
O aspecto que me orgulha é que depois de 41 anos temos um novo presidente. Que não é da minha geração, que não combateu na luta de libertação contra o regime colonial português. Entrou um presidente que não é antigo combatente mesmo tendo nascido num ambiente onde havia antigos combatentes. Que foi formado e cresceu, um pouco, com os antigos combatentes, mas depois entrou em instituições “normais”, que não estavam sob a pressão de guerra. Então depois de 41 anos temos um Presidente jovem. Os jovens da sua geração podem muito bem orgulhar-se por isso e afirmar que estão no poder. Com melhores olhos, ouvidos, idade, saúde e instrução em relação aos seus predecessores. O país mudou. Não é um Moçambique que repete todos os erros que fizemos nesses 41 anos. Quando falo de erros, não digo que só fizemos erros. Também fizemos coisas boas que são os nossos jovens que devem agora pegar nisto e levar para frente.
CORREMOS O RISCO
DE DESFAZER A FRELIMO
O discurso oficial hoje aponta para a necessidade de todos os moçambicanos empreenderem esforços de forma unida para que o desenvolvimento seja uma realidade de facto. Como é que vê a reacção a este repto bastante repetido no seio da nossa sociedade?
Na sociedade repete-se muito, diz-se que as coisas não funcionam. Concordo também que muita coisa não funciona… mas está-me a dar impressão de que as pessoas pensam que aquilo tudo que não funciona depende só de um indivíduo, nomeadamente o Presidente da República, neste caso, Filipe Nyusi, mas ele é um indivíduo que pode inspirar boas coisas, não é ele que muda. Tudo deve começar nas instituições que temos, tais como a Educação, Saúde, Segurança, Interior, Defesa, Trabalho, Energia. Não podemos ir para frente quando instituições ao serviço do Estado funcionam da mesma maneira desde aqueles tempos. Há alguma coisa que deve mudar, pois já não é justificável que as coisas continuem assim, mas isso não depende do Presidente apenas. São coisas que nós devemos fazer e há quem deve fazer a pressão para que isso funcione, neste caso os jovens educados, que sabem quais os seus direitos e deveres.
O processo de desenvolvimento que tanto se almeja, limitando-se a tecer críticas sobre tudo que é feito e também não feito pelo Governo. Qual é a sua opinião relativamente a estes posicionamentos?
Que a juventude só critica… não concordo que seja assim. Hoje quem está a criticar nem é a juventude, quem faz a crítica talvez até somos nós, mais velhos, que usamos a juventude, mas usámo-la dizendo directamente para que digam isto ou aquilo. Fazemos isso através da internet (redes sociais).
Está a dizer que a juventude está a ser manipulada de alguma forma…
Certamente. A juventude nunca foi manipulada como é hoje em dia. E isso é feito através da tecnologia, meios de comunicação, celulares, computadores, as redes sociais. Ou seja, todas estas ferramentas são uma grande manipulação que faz com que o jovem não consiga chegar ao próprio coração e pensar naquilo que ele é. O jovem pensa que é aquilo que os meios de comunicação dizem que é. E não tem como se encontrar a si próprio como jovem e ver o que realmente está no ambiente em que vive. Neste sentido, dizer que os jovens só sabem criticar não é correcto, pois há aqueles que têm o domínio dos meios de comunicação e manipulam a sociedade e os jovens. É raro encontrar um jovem actualmente que vai falar de coisas que não ouviu ou leu. Um que fale o que lhe venha na alma. Não houve tempo como hoje onde há necessidade de que o jovem tenha alguns momentos em que se isola do telefone, das redes sociais, televisor, rádios e tudo e pense um pouco sobre o funcionamento do que lhe rodeia, como hoje. Pensar no que acontece na família, na subida do pão, do açúcar, porquê isto e como se pode ultrapassar? Mas não… A resposta não tem de vir das redes sociais… há aqui qualquer coisa que mostra como há uma grande manipulação e é necessário entrar em nós próprios como indivíduos e momentos de ter reflexão sobre o que está a acontecer, não actuar como se fossemos robot ou boneco que é manejado atrás dos bastidores.
Acredita que os objectivos das pessoas que manipulam os jovens são de não desenvolver o país?
Não concordo que esta gente por intenção ou malícia esteja a fazer isso, mas é da maneira como se propaga o diálogo nas pessoas, as notícias. Não está a ser fácil encontrar pessoas que tenham opinião ou pensamentos próprios. Quase todos ouvem tudo de algum lugar ou de alguém… Desculpa-me lá… onde é que estamos? Quer dizer, sem WhatsApp, BBC, Voice of America não há pensamentos? Onde é que estamos?
Acha que a vulnerabilidade social no nosso país enferma de problemas que a tornam destrutiva?
O país é uma coisa anónima. É preciso que haja grupos de jovens que comecem a pensar seriamente no que está a suceder em casa, no quarteirão ou onde estão e ver como é que eles próprios podem tomar conta do recado e não sempre esperar que alguém venha resolver o problema. Não é esperar que o Presidente faça tudo sozinho. Somos mais de 25 milhões de pessoas, isso é demais para uma e única cabeça.
Como interpreta estas críticas que têm sido feitas por muitos sectores da sociedade em relação à pessoa, particularmente, do actual Chefe de Estado?
Sinceramente, para mim, acho que não houve melhor era no nosso país do que agora, onde temos a possibilidade ou vimos que o Presidente é criticado. Fico mais satisfeito por nunca ter ouvido que o Presidente quer processar alguém porque falou mal de si. Sempre deixou que as coisas fossem para frente. Isto é bom. Atenção, não estou a dizer que o país não deve usar força (defesa, polícia), mas a autoridade em si, o respeito pela autoridade não deve vir pela imposição. Deve vir porque vimos que é necessário aceitar a autoridade se queremos ir a frente (…) passaram estes dois anos, onde socialmente o Presidente só é criticado, pouquíssimos mostram aquilo que ele faz bem e, infelizmente, a crítica está a ser alimentada pelos meios técnicos de comunicação e dá-me a impressão que quem tem a autoridade de falar e de usar esses meios de comunicação está feliz em sempre falar do Presidente ou da presidência como se fosse uma coisa que nada está a fazer. Mas não é por aí que nós vamos construir um novo Moçambique (…) o perigo neste momento de transição é que se perca tudo.
Qual o risco de tudo se perder quando a crítica estiver a estes níveis, particularmente, em relação à figura do Estado?
Vou explicar isso historicamente. A Democracia Cristã era um partido da Itália, bem disciplinado, tinha pessoas bem formadas, teve boas épocas, mas quando começou dentro do partido a entrar uma certa repetição entre aqueles que exerciam o poder, passados alguns anos a Democracia Cristã desfez-se e quem entrou foi um outro comerciante, Berlusconi. O Partido Comunista Soviético, depois de cinquenta anos, acabou. Entrou uma nova equipa, mas depois os próprios comunistas quiseram fazer um golpe de Estado contra um companheiro, Mikhail Gorbatchev, dali resultou que se teve de fazer um processo contra o Partido Comunista e este tornou-se ilegal. Foi para casa. Isso quer dizer que a força só de perder tempo a criticar, vamos acabar por desfazer a Frelimo e depois não há nada. Querem pôr a coisa no caos, na desordem… depois teremos de trabalhar para compor novamente as coisas? O caminho mais exemplar que seria, ok… está aí uma pessoa nova, vamos apoiá-la, criticá-la objectivamente. É preciso saber que tudo não depende desta pessoa nova, mas estamos numa era em que esquemas antigos que a Frelimo tinha já passaram. O que me admira é que até nós que somos antigos combatentes, em vez de sermos tão claros de que isto pode acabar desta maneira, por isso temos de apoiar o nosso jovem, parece que somos nós a fomentar… desculpa-me.
Então assume agora que haverá algumas más intenções ao fazerem a análise neste modelo de abordagem que está a criticar?
Não. Eu próprio caio nisso muitas vezes, nesta maneira de fazer as coisas. É fácil falar assim aqui mas na minha vida particular sou capaz de fazer coisas contra Nyusi.
… implicitamente?
Implicitamente ou mesmo falando sem pensar em qual será a consequência do que estou a dizer. Falta muito aquilo que dizia antes, reflexão em silêncio para saber o que estou a dizer, fazer ou que estamos a fazer.
UM FUTURO CERTO
Padre Couto, estamos agora a nos debruçar em torno da crítica, seu mérito e demérito, mas particularmente da crítica feita em Moçambique. Como ter, na sua opinião, a crítica construtiva?
Crítica construtiva… vamos lá. Quem não diz que quer paz aqui no país? Todos dizem que querem paz, paz, paz! Mas o jovem Presidente foi ao Indy Village para se encontrar com Afonso Dhlakama. Foi o primeiro a chegar e esperou pelo líder da Renamo. Sucedeu que membros da Comissão Política deslocaram-se às províncias a dizer que não se podia falar de qualquer maneira com Dhlakama. Bom, estavam convencidos disso, mas aquele jovem foi falar com Dlakhama para começar a fazer paz! A seguir são os mesmos a dizer, queremos paz, queremos paz, queremos paz… Mas desculpe-me, este a quem você pede a paz, não se lembra que foi ao Indy Village esperar por Dhlakama e terá sido criticado por isso? Por que não dizer: agradecemos por ter ido ao encontro de Dlakhama, mas isso não é tudo, tem de fazer muito mais? Quer dizer, dar mais sugestões como por exemplo, deixar Dlakhama estar em Gorongosa, local onde gosta e que lhe passem o estatuto de estar lá, pois ele prefere lá ficar em vez de estar com gente grande. Acho que devemos começar a reconhecer os esforços empreendido por Nyusi.
Disse recentemente que a melhor forma de resolver os actuais problemas do país será uma reforma empreendida pelos jovens. Tendo em conta este cenário que caracteriza a juventude, na sua opinião a juventude está sendo manipulada. Acha que estamos em condições de efectivar esta reforma?
Estamos totalmente em condições. Não é preciso fazer demonstrações barulhentas, não são precisos tiros de espingardas, é preciso mais reflexão e determinação de programas. Por exemplo, por que não pegam na palavra do jovem Presidente que diz que agora quer apostar na produção de comida no país?
Hum… especialização de cada província em determinado produto agrícola?
Sim. Mas não vamos falar. Peguem nisso e digam-lhe como pode fazer. Ele quer fazer algo bom. Diz continuamente que esta é sua aposta. E recordem-se de uma coisa, dos cerca de 25 milhões de moçambicanos não pensem que não há gente que gosta dele, embora se queira dar a impressão de que ele perdeu popularidade.
Falando nisso, sente que o PR tem falta de apoio necessário dos moçambicanos?
Não. O homem pequeno que está no distrito não diz que a culpa é de Nyusi. Ele está chateado ou não aceita como os órgãos locais tratam as questões… como é que o PR vai pôr no lugar uma instituição de Chiconono, de Sanga ou Khongolote. Como é que vai resolver o problema de um morto e a Polícia prendeu o suspeito mas na justiça dizem que ele não pode estar na prisão e põe-no fora? São os órgãos de propagação de imagens, notícias. Ali quem está por trás certamente não são só jovens, há gente que tem possibilidade, influência, dinheiro para tornar isso possível e manipular a maioria.
Moçambique vive momentos de alguma conturbação social, política e económica, que saídas devem, na sua opinião, ser tomadas para acabar com este cenário a médio, ou, quiçá, breve trecho?
Creio que falar como se estivéssemos a falar de algo que não nos pertence está a acabar. Creio que, por exemplo, isso que sucedeu no Nosso Banco tocou a muita gente e o nosso trabalho é questionar se a justiça não faz nada nesta situação? Creio que isto vai acabar porque as pessoas aos poucos compreendem que o futuro depende de nós. O futuro depende de mim, de si, de cada um de nós e daqueles que estão em união connosco para trabalhar. Quando isso suceder na plenitude vamos esquecer o tempo que passou porque as mudanças são instantâneas. A história faz-se com coisas que acontecem, também, em tempo muito curto mas que têm ressonância. Acho que o cidadão já sabe que para depositar dinheiro no banco é preciso ter cuidado, instantaneamente aprenderam com aquilo que sucedeu no Nosso Banco. Aconteceu porque temos um jovem PR que deixou que a notícia viesse a superfície. Não mandou esconder isso, deixou que se dissesse. Não é positivo isso? Então a minha mensagem está aí, isso pode ajudar-nos a ver como podemos ir para frente suportando este jovem que está aí a começar alguma coisa boa.
O que se pode esperar do futuro do nosso país tendo em conta todos os aspectos sobre os quais afloramos na nossa conversa?
Não posso esperar outra coisa do que um futuro melhor para Moçambique e é um futuro melhor que está nas mãos de vocês, jovens, com um presidente jovem. Vocês não vão cruzar as mãos e deixar que as coisas corram mal. Mas não é só o PR que fará isso, somos nós porque queremos uma coisa melhor que esta. Nunca houve um tempo que indicasse que Moçambique irá para frente como este.
O futuro é risonho na sua opinião?
O futuro é certo. É bom. Mas temos de trabalhar e fofocar menos. Ter moral, justiça e coerência. Para além disso, nós, os combatentes, temos de dar confiança nos jovens e não viver de medo pensando que os jovens fazem só asneiras. Não, senhor! É claro que eles cometem erros, mas eles têm a possibilidade de fazer de Moçambique um melhor país.



