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ENTREVISTA: Kupela quer agenda nacional apartidária

Por admin
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Amour Zacarias Kupela, o primeiro secretário-geral da Organização da Juventude Moçambicana (OJM), entrevistado pelo domingo, por ocasião da passagem do 39.º aniversário desta agremiação juvenil, que se assinala próxima terça-feira, dia 29 de Novembro, deixou verter inúmeras ideias, uma das quais diz respeito à falta de um projecto de Nação que guie a todos os moçambicanos, independentemente da sua inclinação político-partidária.

Zacarias Kupela entende que tal projecto seria uma espécie de bíblia e visão de desenvolvimento a longo prazo, que teria como base a unidade nacional, paz, patriotismo, entre outros valores colectivos e resultaria duma discussão geral, posteriormente sufragado por todos os moçambicanos, em sinal de compromisso comum, independentemente da sua filiação partidária.

Pode esmiuçar a sua proposta?

Seria um programa a longo prazo, um mínimo de 50 anos, no qual os moçambicanos desfilariam a sua visão de desenvolvimento durante esse período e seria referendado, em sinal de comprometimento colectivo. Depois de aprovado por todos, os diferentes grupos, as associações, incluindo partidos, sujeitar-se-ia às linhas-mestras desse grande programa, uma espécie de um plano prospectivo e indicativo.

Por exemplo, imaginemos que na visão estivesse dito que até determinado prazo o país deveria ter uma linha-férrea que o ligasse de Maputo ao Rovuma ou vice-versa, que deveríamos acabar com a malária, que eliminaríamos o analfabetismo, entre outros males que entravam o nosso desenvolvimento, os diferentes partidos políticos seriam eleitos em função das respectivas matrizes para o cumprimento desses objectivos.

Por outras palavras, os partidos seriam eleitos com base nas suas propostas para o cumprimento dessa visão nacional. Não seriam eleitos programas que dependessem de cada grupo político ou partidário e para um período de apenas cinco anos, como acontece agora, normalmente, feitos à medida das ideias dos moçambicanos de um grupo específico. Assim, na minha opinião, todos os partidos teriam uma coisa que é fundamental, no mínimo o patriotismo, não teríamos partidos que interpretassem interesses de estranhos à pátria, como parece ser agora. Não se proibiria que tivessem amizades com quem quer que fosse, que recebessem subsídios, mas não para alterar a direcção da Nação.

Entende que isso aceleraria o nosso desenvolvimento?

Sim, as balizas seriam as mesmas para todos. Quem ganhasse as eleições espreitaria o programa donde encontraria onde pegar para ir em frente, deixaríamos de fazer programas de cinco em cinco anos, muitas vezes diferentes em função do grupo partidário que ganha as eleições ou conforme as pessoas que dentro do mesmo partido ficam à frente.

Por outro lado, a tal visão seria peremptória em dar as balizas dentro das quais actuariam os partidos para terem a hipótese de mostrarem o que valem no cumprimento do programa comum.

Seríamos pioneiros, pois não?

A China desenvolveu-se assim. Nem sempre esteve como está hoje. Mao Tsé-Tung já dizia que em determinada altura a China devia recuperar as terras perdidas, devia estar entre as maiores economias do mundo. Hoje já é. Cada dirigente chinês que sobe ao trono prossegue o programa que a China delineou há muito tempo. Nos Estados Unidos, há assuntos que não se questionam, por mais que o inquilino da Casa Branca seja dum ou doutro partido. Nunca se põe em causa a ideia de que a América deve comandar o mundo. Podíamos ser pioneiros, sim, mas em África.

A JUVENTUDE FORJA-SE

Zacarias Kupela, secretário-geral da OJM, fundada a 29 de Novembro de 1977. A juventude que dirigiu é esta de hoje? Aquela voluntária, que ia a todas as actividades onde a sua contribuição era necessária. Que corria para Maragra, Chókwè, Metuchira, Metocheria, Unango, fazia aldeias comunais… que resolvia problemas de mão-de-obra, simplesmente para acelerar a colheita de produtos antes que apodrecessem?

É necessário recuar para a primeira reunião do Presidente Samora Machel com jovens, em 15 de Dezembro de 1976, um ano antes da criação da OJM. Quando lançou as orientações fundamentais e definiu a função e missão da juventude moçambicana, partilhou a ideia de que era força de transformação da sociedade, ao que se seguiu a directriz do então Comité Político Militar para a criação da Organização da Juventude Moçambicana, o que nos levou a ir a todos os cantos do país, lançar e vitalizar a ideia.

Mas eu já vinha com o movimento da sua criação, desde a minha actividade em Zanzibar, onde vivia com os meus pais, depois nas fileiras da FRELIMO, na juventude a nível internacional, nos festivais mundiais e pan-africanos da juventude, na amizade que criámos com a Konsomol-Leninista, da ex-União Soviética, a FDJ, da ex-Alemanha Democrática, as nossas relações com a juventude dos países nórdicos e com a dos países capitalistas, incluindo com grupos de jovens dos Estados Unidos.

Então, na conferência constituinte, o Presidente Samora define a juventude como a Seiva da Nação, comparando o país como uma árvore, que sem a seiva que circulasse nela poderia secar.

Mas estava a querer saber donde vinha toda aquela força…

Primeiro, foi o papel decisivo e determinante do Presidente Samora Machel, incluindo de toda a cúpula, que estava permanentemente em cima da juventude e da sua organização. Dava carinho e reunia com regularidade com a OJM. Mas também há que acrescentar que um bom professor só o é quando tem pela frente alunos dedicados.

Portanto, tínhamos uma boa direcção, saída do nacionalismo, em que o patriotismo estava acima de quaisquer vontades individuais. Sabíamos interpretar as orientações, decifrar as mensagens e implementar criativamente as decisões.

Vou ser mais preciso: que feitiço foi aquele que levou a juventude a ir a todas as batalhas de trabalho voluntário, construir abrigos para as populações fugirem dos ataques aéreos de Ian Smith… Lembro-me até, já em 1983, que por meio duma simples exortação formou-se um batalhão de jovens voluntários para ingressar no serviço militar, em apoio ao IV Congresso, até que a direcção do Estado declinou incorporar alguns por na altura estarem a estudar. Lembra-se?

Em primeiro lugar, foi a implantação da OJM em todo o país e a todos os níveis. A direcção só decidia depois de acesos debates, as decisões eram colectivas, e quando ecoassem não eram novidade para ninguém. Fomos até às valas de drenagem para desentupi-las e todo o tipo de saneamento do meio. O tempo ajudava; antes de irmos ao local inspeccionávamos se as condições estavam criadas. Sabe porquê?

Não!

Por saber que a juventude, muitas vezes, tem a força de soda. No momento em que a tens em mão, nessa mesma altura é forte e não a deves decepcionar com pormenores de ordem organizacional, por exemplo. Ela precisa de ser cativada permanentemente e nunca desmoralizada. A juventude não tem tempo para esperar, chegou, encontrou e mãos à obra! Não leva muito tempo, simultaneamente alguns tocam uma guitarra, outros recitam poesia, a seguir é uma farra depois de um jogo de futebol, um convívio, acampamento… não era só o trabalho voluntário.

Conheci-o na aldeia 3 de Fevereiro, em 1982, no casamento do secretário distrital da OJM, Manuel Macucule. Vinha numa viatura Peugeot 504, carregando outros jovens. Mas na altura falar de Zacarias Kupela era referir-se a um deputado da Assembleia Popular, membro do Comité Central e muito próximo de Samora. Entretanto, estava num casamento de um responsável de nível distrital…

Samora dizia que um jovem deve ser forjado. Do ferro podemos fazer o que queremos depois de metermos na forja. Que a juventude é o centro de batalha, quem ganha é aquele que chega primeiro. A juventude não é nem revolucionária nem é reaccionária, segundo dizia, muitas vezes, Samora. Todavia, é uma categoria social importantíssima dentro da sociedade. Por isso na altura combatíamos tenazmente alguns vícios como a megalomania, intriga, o grupismo… naquela altura o carro não era meu, era nosso, estava em serviço, não precisava de “me fazer”, o que na verdade não era. Fazia aquilo naturalmente!

NÃO HAVIA LUTAS INTESTINAS

POR LUGARES E POSIÇÕES

Ao que parece também o carreirismo evidente que caracteriza a maioria dos líderes da OJM hoje, nem sequer se notava…

A época histórica nem se compadecia com isso. Independentemente disso, a direcção da juventude em todos os seus escalões não tinha uma ambição desmedida, ambição sem paralelo, a nossa ambição era fazer bem o que nos tinha sido confiado, claro, depois de provas dadas. Por exemplo, como descobríamos um bom organizador? Dentro de um grupo dizíamos: escolham quem dentre vocês pode ser o vosso chefe! Não interferíamos nem havia concursos, do tipo eu quero ser! Assim fazíamos tudo, incluindo as excursões, etc.

A propósito, por esta ocasião pode nos lembrar alguns nomes de quadros da OJM que nos podem servir de exemplo?

Faleceu agora Boaventura Afonso, que era membro do Secretariado, que com o seu dom, sua aptidão (hoje não se fala muito dessas qualidades, dado que nem toda a gente pode ser aquilo que hoje é), ele foi viajando pelo país, acabou competentemente no Instituto Superior da Função Pública. João Tique era desenhador, acabou arquitecto, depois de o metermos em programas de informação, não só porque era do Secretariado, mas demonstrou! Nas Relações Exteriores, idem aspas, e assim foram-se revelando muitos jovens anónimos.

Efectivamente …

Assim a OJM foi fazendo quadros, fomo-nos fazendo, fomos penetrando em todos os locais de trabalho, de residência, na Universidade… Fomos descobrindo e fazendo talentos, como por exemplo Alcinda Abreu, a secretária-geral adjunta, com muita dedicação e polivalência, tivemos, de repente, administradores distritais quando era necessário implantar o poder popular: Eliado Mussengue, José Manuel Jamissa, Valdemiro Mutumane, esses rodaram o país como administradores a partir de provas dadas na OJM. O ministro Ivo Garrido, Tomaz Salomão, João Leopoldo da Costa, que chegou ao cargo de presidente da CNE, Eduardo Mulémbwè, ex-presidente da Assembleia da República, Ângelo Mondlane, que estava na SADC, o falecido Jorge Marcelino, que era inspector, Arlindo Chilundo, hoje governador no Niassa, Alberto Mondlane, no mesmo cargo, mas em Manica, Amélia Bazima, hoje na Assembleia da República, Francisco Zimba, eu mesmo estava na Assembleia, Eliseu Machava, actual secretário-geral da Frelimo, foi eleito lá em Gaza, todos, de forma natural.

Mas acha possível resgatar a juventude tão comprometida como antes?

Tudo é possível. Mesmo hoje, quem sustenta o partido Frelimo, no poder, é a juventude, se bem que só é sustentável o que tem continuidade. Mas os desafios da juventude, em geral, e da OJM, em particular, são enormes, o maior dos quais é abraçar a história. A história da pátria e do próprio movimento juvenil moçambicano, para ver se o caminho está correcto ou não.

Mas era mesmo necessário que cada partido tivesse a sua juventude, sendo esta uma categoria específica da sociedade, tendo ainda em conta que na designação da primeira organização juvenil (OJM) nada entra em contradição com as ligas que se foram criando por aí …

Acho que precisamos de fazer um debate sobre isso. Que seja franco, aberto e sem preconceitos. Na minha opinião o que é fundamental é o patriotismo, pertença a que grupo pertencer, se pusermos em primeiro lugar a Pátria, tudo bem. O debate devia começar por aí. Esquecer os partidos, que são criados, mas a Pátria é uma, à qual todos pertencemos. Infelizmente, pouco se fala de patriotismo hoje. É verdade que estamos numa época de multipartidarismo, da globalização, mas são fenómenos que temos a obrigação de interpretá-los correctamente. Ocorrem em determinados lugares, sem nos desviarmos dos nossos objectivos estratégicos de construir uma Nação Una e Indivisível. Primeiro a Pátria, depois a riqueza dessa pátria, que tem de ser para todos. Deixar as guerrinhas pelo poder, isso não leva a longe, o resto tem de aparecer naturalmente, como não me canso de dizer!

TRAÇOS BIÓGRAFICOS

DE AMOUR ZACARIAS KUPELA

-Nasceu em Maúa, Niassa, e muito cedo foi viver com os seus pais em Zanzibar, Tanzânia.

– Ensino primário e secundário em Zanzibar

– Pós-graduação em Relações Internacionais em Dar-Es-Salaam, Tanzânia

– Representante adjunto da FRELIMO em Zanzibar

– Colaborador do Departamento de Informação e Propaganda da FRELIMO em Dar-Es-Salaam e Nachingwea

– Curso interrompido de Economia

– Deputado e presidente da Comissão dos Assuntos Sociais da Assembleia Popular

– Secretário-geral da Organização da Juventude Moçambicana (OJM)

-Director do Instituto Moçambicano de Apoio aos Migrantes

-Director da Direcção para países da Ásia e Oceânia, no Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação.

– Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário de Moçambique em Cuba, Nicarágua, Burundi e Ruanda.

– Alto-comissário de Moçambique no Reino da Suazilândia e na República Unida da Tanzânia

– Medalha de Veterano da Luta Armada de Libertação Nacional.

Texto de Pedro Nacuo

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