Pode um país perder os valores acrescentados das explorações no seu território? A Suíça produz cacau ou chocolates? A Costa do Marfim produz só cacau ou conhecem
os chocolates de lá?
Quanto se paga por um toro exportado? Quanto vale esse mesmo toro se transformado em madeira serrada ou, melhor ainda, prefabricada para móveis, caixilharia? Ao processar, quantos empregos e rendimentos criamos? Que qualificações adquirimos? O que ganha Moçambique com toros?
O carvão de queima ou siderúrgico exportado rende quanto? Mas se o carvão de queima se utilizar na produção de electricidade e, sabemos quanto necessita a África Austral de energia nos próximos tempos, quanto beneficiamos? Transformar no país o carvão siderúrgico em coque não cria mais valores para Moçambique, mais empregos qualificados, mais possibilidades de se produzir o aço no nosso território?
Devemos implorar à SASOL o gás de que necessitamos e nos revende, quando ela o comprou ao preço da chuva? Li que um fabricante de locomotivas se propõe produzi-las na África do Sul para vender em Moçambique. Porque não começar por montá-las cá e, progressivamente, aqui se fazerem os diversos componentes?
Devemos contentar-nos com o papel de satélite do vizinho, um bantustão?
Todas as grandes empresas em Tete e Cabo Delgado contrataram fábricas de refeições. Normal. Lá trabalham milhares de pessoas em turnos, mas ninguém abriu um concurso para que as fábricas moçambicanas de refeições pudessem fornecer os serviços. Contrataram todas as fábricas de refeições na África do Sul. Que benefício retira Moçambique disso?
Todo o abastecimento para essas fábricas da banana ao tomate, da batata à cebola, da carne ao peixe, do frango aos ovos vem da África do Sul nos camiões cavalo sul-africanos para proveito dos vizinhos. O argumento de que comprar em Moçambique encareceria os produtos para o consumidor local, como li numa entrevista de um gestor de transnacional, mera justificação falaciosa e estúpida. O preço do frete de um camião cavalo forçado a fazer na ida e volta 4.000 Km, pagaria em pouco tempo a capacitação dos pequenos e médios produtores locais.
Óbvio que a fábrica necessita de regularidade, quantidade e qualidade no seu abastecimento, mas ao discursar-se sobre a responsabilidade social dos megaprojectos, porque não exigir que capacitem os nossos produtores de batata, tomate, arroz, os matadouros moçambicanos?
Haverá necessidade de se refazer em Moçambique a revolta e banditismo nigerianos? Criarmos os Robin Hood nacionais para forçar uma redistribuição da riqueza entre as transnacionais que exploram os recursos e os moçambicanos que nada ou pouco beneficiam?
Estamos no limiar de um momento que pode tanto tornar-se um impulso para o progresso, como um passo para o abismo. Não nos devemos preocupar, a meu ver, com as preocupações de qualquer investidor, nacional ou estrangeiro. Ele sabe muito bem o que quer e como quer.
O nosso pensamento, a nossa discussão e negociação deve-se pautar e exclusivamente naquilo que queremos obter para o nosso povo e o nosso Estado.
Necessitamos de nos organizar para promover o interesse nacional, diz-se e com muita razão que a vitória organiza-se, o primeiro passo vem antes do segundo.
As árvores aqui nascem e crescem, continuarão a fazê-lo se não estiverem a abatê-las de qualquer maneira para se exportarem toros e as ditas taxas de abate servirem efectivamente para repor as florestas que se dizimam. O carvão, o gás, o ferro, as titânio-magnetites, a grafite, as areias pesadas e todos os minérios esperam no seio da terra há uns bons milhões de anos. Não vão ou fugir a sete pés, esvaírem-se no ar.
Podem, sim, desaparecer sem qualquer proveito para nós se não soubermos gerir os nossos interesses.
Preparemos as nossas gentes para trabalhar na exploração e transformação local dos recursos, para controlar as actividades das empresas e verificar se obedecem às normas e respeitam as populações e o ambiente.
Vamos arregaçar as mangas no sistema de educação, rever os impostos e royalties, defender os interesses do povo e da Pátria.
Obriguemos à produção em Moçambique dos derivados das nossas matérias-primas, acedendo assim não apenas às mais-valias daí resultantes, como e também às tecnologias mais avançadas.
Há que estar consciente que as nossas riquezas naturais, no solo, no subsolo, nas águas pertencem também aos nossos filhos, netos e às gerações vindouras. Libertamos a Terra e os Homens.
Leguemos riqueza e não buracos e destruição, para isso o meu abraço,
Sérgio Vieira
P.S. Tomei nota que a direcção chinesa e o Presidente Xi Jin Ping ordenaram que se pusesse termo à construção de edifícios públicos, cada vez mais sumptuosos e caros. Há que melhor gerir o erário público. Disseram ainda que essas obras abriam caminho a muitos exercícios de corrupção.
Espero que a mensagem também se oiça na nossa terra, onde todos sabem que isso nunca acontece! Ninguém se queixa de corrupção, atrasos nos pagamentos do Estado, nada devemos fora do país, todas as nossas escolas possuem boas bibliotecas, laboratórios, turmas com 30 alunos no máximo e professores muito qualificados, etc. Podemos gastar no supérfluo, palácios por toda a parte, Mercedez negros ou às riscas, Prados brancos ou às pintinhas. Verdade?
Um abraço à modéstia,
SV
R.P.S.No tempo do colonial-fascismo havia comissões de censura. Como acabaram? Impediram a subida da contestação e a queda do regime salazarento? Esqueceram que Samora ensinou que não se embrulha o fogo com papel?
Um abraço aos que abandonarem o lambe-botismo na comunicação social e se assumirem com verdadeiros profissionais, inimigos do boato, da calúnia e da ignorância,
SV



