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Descongestionar Maputo (3)

Por admin
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Ao que parece é uma questão mesmo de justiça social, e à procura dela estamo-nos a emaranhar neste diminuto espaço. Semana passada houve a abertura do ano judicial no nosso país e as “cerimónias centrais” tiveram lugar na sala de conferências Joaquim Chissano, na capital do país. Centrais, porque estiveram lá altos dignitários de todos os poderes, sobretudo das magistraturas judicial e do Ministério Público.

Nada há a contestar quanto a isso. Todavia, pelo menos dois dignitários chamaram a si a responsabilidade de estarem a fazer algo nacional descendo para o nível provincial, simplesmente porque o fizeram a partir da capital do país.

A Procuradora-geral da República, Dr.ª Beatriz Buchilli, distinguiu procuradores da província e cidade de Maputo por se terem revelado exímios cumpridores do seu dever no (s) ano (s) passado (s). Quer dizer, receberam os diplomas das mãos da digníssima, sendo provinciais, porque estão a trabalhar em Maputo.

Tendo em conta que cerimónia igual terá de ser replicada nas outras províncias, a tarefa caberá aos procuradores-chefes e, consequentemente, os laureados não receberão das mãos da chefe-mor da instituição. Logo, terá sido por os seus colegas viverem em Maputo. As tais oportunidades!

O mesmo aconteceu com os juízes com igual desempenho no período avaliado. O Juiz-presidente do Tribunal Supremo, Dr. Adelino Muchanga, encarregou-se de dar os prémios aos nomeados da cidade e província de Maputo e não fará o mesmo aos que, porventura, tiverem preenchido os requisitos exigidos para tanto, vivendo, todavia, nas outras províncias. Logo, a dignidade do acto muda de cor.

Aqui abre-se um parêntesis para lamentar a penumbra que ofuscou neste caso os procuradores-chefes da província e cidade de Maputo e dos juízes- presidentes das mesmas divisões administrativas. Continuemos.

Um dos laureados é o Dr. Alfredo Damião Phiri, que durante o período em que trabalhou em Cabo Delgado distinguiu-se a olhos desarmados pela competência com que cumpriu o seu dever. Julgou o “caso Montepuez”, quando tinha ao lado Beatriz Buchilli, então procuradora provincial, de modo particularmente distinto, para um assunto daquele jaez e naquele tempo, 2000/1.

Quem se lembrou de falar dele, reconhecendo-o publicamente, foi a comunicação social e o Instituto da África Austral (MISA), capítulo moçambicano, através do seu núcleo provincial em Cabo Delgado, que o homenageou em cerimónia de despedida daquela província.

Passou por onde passou e veio a Maputo, onde finalmente ficou visível, e neste ano teve a sorte que se traduziu na sua distinção pela instituição para a qual trabalha, como um dos juízes com um desempenho de entre bom e muito bom. Ainda bem! Mas não deixa dúvidas de que bastou vir a Maputo…

O outro juiz é Adérito Matlombe, cuja verticalidade e profissionalismo deixaram saudades em Cabo Delgado. Ficou o tempo que ficou, a imprensa foi mandando recados por via da competência daquele magistrado judicial, que, entretanto, nunca foi visível a nível do sistema.

Bastou mudar-se para Maputo, fazendo o mesmo que fazia naquela província, apanhou notoriedade que lhe permitiu semana passada receber a distinção das mãos do Juiz-presidente do Tribunal Supremo, o que não conseguiria estando em Cabo Delgado, como os que lá se encontram.

E assim estamos a ficar cada vez mais formatados de que estar em Maputo é maninge nice, apesar de todas as dificuldades: a nível de trânsito, abastecimento de água e energia, levar-se mais tempo a ir ao serviço do que a trabalhar, em que cada um é consigo mesmo, enfim, uma verdadeira selva humana.

Pedro Nacuo
nacuo49nacuo@gmail.com

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