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DA CERIMÓNIA DE “KU PHAHLA” E DALGUNS LÍDERES FANTOCHES

Por admin
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“E se a tua oferta for sacrifício pacífico; (…), oferecerás sem mancha diante do Senhor” Levítico 3:1

Eu hoje devia sentir-me orgulhoso ao falar de uma das cerimónias mais importantes da nossa cultura e do poder dos líderes tradicionais, a cerimónia de “ku phahla”, porém, é com uma certa angústia e até vergonha que o faço, tendo em conta que alguns (senão mesmo muitos) dos que dirigem esta cerimónia fazem-no levianamente, sem obedecer aos “cânones” que ela requer, pois a exemplo do que acontece com a missa ou culto cristão, em que somente aquele que foi ungido é que estaria em condições de ministrá-lo, infelizmente hoje em dia a cerimónia de “ku phahla”, revestindo-se de uma importância tão transcendental, porque é uma devoção a tudo o que é considerado sagrado, não obstante está sendo deveras vulgarizada.“Ku phahla” é um culto que aproxima o Homem ainda vivo às entidades às quais são atribuídos poderes sobrenaturais, ou seja, na cerimónia de “ku phahla” estabelece-se a ligação entre os vivos e os poderosos antepassados já “desencarnados” que continuam mesmo assim exercendo a sua influência entre nós.O sociólogo Max Web, que foi um intelectual, jurista e economista alemão que viveu entre o século XIX e XX (entre 1864-1920 para ser mais preciso),considerado um dos fundadores da Sociologia, definiu o conceito de líder tradicional como sendo: “quem exerce o poder que se baseia nos costumes e tradições culturais de um determinado grupo ou sociedade, sendo melhor representado pelas figuras de Patriarcas, Anciãos e Clãs”. Segundo ele, a legitimidade deste tipo de autoridade decorre dos mitos costumes, hábitos e tradições que passam de geração em geração. Com efeito, no passado, aqui na “Pérola do Índico”, o líder tradicional não era eleito, mas sim confirmado, pois ele já nascia líder do seu clã, cessando o seu “governo” pela sua morte, após o que o seu filho ou irmão o sucederia. Só este líder é que tinha o poder de exercer a cerimónia de “ku phahla”. Hoje assistimos a uma verdadeira invasão de territórios por aventureiros que de tradição nada entendem.A “ku phahla”, mesmo variando de clã para clã, nunca se realizava à toa senão para casos de estiagem, petição de chuvas, de cereais, de gado de saúde, de aumento de fecundidade, etc., porque se acreditava (acredita-se!) que eles, os defuntos, vivendo no interior da terra, esta é a mãe de toda a vida vegetal e animal. Um exemplo: na nossa povoação de Makanza, na década LV do século passado, o líder da mesma era Nguilazi Makupulana Makanza, pai do meu progenitor. Ele era o líder do nosso clã, único no seu reduto capaz de, em caso de necessidade, falar com os antepassados Makanza-M'Zima. Andaria eu entre sete e oito anitos quando tive o raro privilégio de presenciar de longe a uma cerimónia séria de “ku phahla”, dirigida pelo meu avô (a cerimónia não incluía a participação de crianças). A nossa aldeia tinha sido fustigada por enxames de gafanhotos (“humbi”). Todas as pessoas idosas, acocoradas em volta da nossa árvore sagrada, homens e mulheres de troncos nus batiam palmas enquanto o meu avô ia evocando nomes de todos os nossos antepassados importantes até pelo menos a décima geração: “Eu, Nguilazi, peço a ti, Makupulana, Litole, Makwhite, Nyatxiwise, M'zima, (…), Zulu, peço-vos que escutai as nossas preces. O povo vem aqui pedir-vos que varram para longe estas nuvens de gafanhotos que devastam as nossas culturas. Os nossos filhos e netos vão morrer de fome e os ossos não tardarão a ver-se.”. O certo é que, no dia seguinte, nenhum gafanhoto foi achado, senão os que se achavam mortos que eram assados e comidos. A “ku phahla” realizava-se com cereais, tabaco e aguardente. Hoje olho para alguns “líderes” que realizam essa cerimónia, vejo palhaçadas! Alguns desses engraçadinhos até “phahlam” de pé, chapéu na cabeça, gravata e sapatos nos pés, oferecendo vinho tinto, coca-cola, pão, etc., e pergunto-me: que raio de palhaçada é aquela de substituir o tabaco e aguardente por refrigerantes! Que escândalos! Valham-nos os nossos deuses! “Thokoza”! “Siya Vuma”!

Kandiyane Wa Matuva Kandiya

nyangatane@gmail.com

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