
Quelimane, capital provincial da Zambézia, recorda-nos Xangai, Pyongyang ou outra capital asiática, onde as bicicletas tomaram conta das estradas, “falando” mais alto. Seus proprietários lutam diariamente para transformar os pedais no seu “ganha-pão”, no seu motor de vida…
Automobilistas que circulam pelas ruas da cidade de Quelimane, capital da província da Zambézia, estão avisados que, há qualquer momento, poderão ver sua prioridade cortada por uma bicicleta.
Em qualquer ponto da urbe, podem ser vistas bicicletas em turbilhão, quais borboletas se deslocando. Nos cruzamentos é onde podem ser observadas em maior número.
Recentemente, a cidade de Quelimane acolheu as celebrações dos 71 anos da sua elevação à categoria de cidade. Curiosamente uma prova de bicicletas entrou no roteiro de inúmeras actividades programadas para a efeméride.
O que há de comum naqueles meios circulantes, é o facto de, a seguir ao banco de quem pedala, ter sido colocado um assento com uma certa nota criativa, onde um passageiro pode se fazer transportar com comodidade.
O mais curioso, no que aos “maquilimanenses” diz respeito, é que estamos perante uma sociedade despida de qualquer tipo de complexos. Nenhum munícipe se sente mal pelo facto de se fazer transportar numa bicicleta em plena urbe.
Alunos, funcionários públicos, até donas-de-casa, representando diferentes estratos sociais que compõem a sociedade “quelimanense”, todos se fazem transportar na bicicleta durante as deslocações que efectuam pelos diversos cantos da capital zambeziana.
Na sua recente passagem por Quelimane, domingo apurou que o número de bicicletas que se dedicam ao serviço de táxi na cidade de Quelimane supera, em grandíssima proporção, o das viaturas-táxi que efectuam o transporte formal de passageiros.
GANHAR POUCO CONDIGNAMENTE
O negócio feito a partir de bicicletas-táxi não é de todo rentável, mas os seus potenciais operadores asseguraram-nos que se trata de uma forma de ganhar a vida com toda a dignidade reconhecida.
Isac João, de 20 anos de idade, natural de Lugela, diz que há três anos que vem desenvolvendo a actividade e de forma ininterrupta, porque é com base nos pedais que ganha o “pão”.
Desde o amanhecer, estende a sua actividade até ao período das 20 e as 21 horas e não tem ideia de quantas pessoas transporta ao longo da sua “jornada de trabalho”.
“Daqui do centro da cidade até ao aeroporto, cobro 10 meticais. No fim do dia, obtenho uma receita de 100 meticais”, conta-nos aquele “taxista”.
Na conversa que mantivemos com João, confessou que o trabalho que desenvolve “é cansativo, causa fome devido ao desgaste físico”.
Isac João referiu ainda que transporta pessoas para diversos pontos da cidade de Quelimane, entre os quais estudantes, negociantes e funcionários de instituições que operam naquela urbe.
Por sua vez, Manito Francisco, outro “taxista”, natural da “Madal”, disse ter iniciado a actividade há dois meses e esta constitui a base do seu sustento bem como da sua família.
Francisco declarou que no fim de cada “jornada laboral” obtém rendimentos que rondam entre os 100 e 150 meticais. Acrescentou que cobra 10 meticais por “viagem” e, caso o passageiro apresente reclamação, vê-se obrigado a baixar a tarifa para 7,5 meticais.
“Este trabalho é cansativo, requer força. Isto obriga-me a optar por comidas fortes para a recuperação das energias”, frisou.
Graça Malafe, passageira, conversou connosco quando se preparava, junto do Mercado Central, para tomar o “táxi” para a zona da “Marginal” da cidade de Quelimane, onde se encontra a residir. Paga cinco meticais pelo serviço de táxi-bicicleta.
“Apanho a bicicleta porque é um meio com facilidade de mobilidade. É muito mais rápido do que um táxi convencional”, comentou.
Salé Benjamim, outro passageiro, disse que encontra vantagens na deslocação de bicicleta pelo facto de ser um “transporte” cuja tarifa se apresenta mais acessível .
O nosso entrevistado tinha se deslocado até à cidade para efectuar a compra de alho, batata, cebola, entre outros produtos, carga pela qual iria pagar o valor de 10 meticais. Para além de se fazer transportar, incluindo a carga, pagaria a tarifa de 15 meticais.
“Nós, aqui na cidade, temos carros e motas a servirem de táxi, mas todos preferimos a bicicleta”, explica.
TAXIS-BICICLETAS
ATÉ CONTAM COM ASSOCIAÇÃO
Apuramos em Quelimane que as autoridades têm estado a desenvolver mecanismos no sentido da organização da actividade de transporte de bicicletas.
Com efeito, a Associação dos Taxistas de Motociclo da Zambézia realizou, em meados do mês passado de Agosto, a Primeira Conferência dos Taxistas de Bicicleta e Mota.
A referida conferência, ao que conseguimos apurar, tinha como pano de fundo proceder à análise da actual situação e traçar perspectivas dos taxistas dentro das autarquias da província da Zambézia.



