
O governo tanzaniano negou relatos de que os esforços para a busca de uma solução para a crise política no Burundi estão num impasse, dizendo que as conversações de paz sob a presidência do presidente do Uganda, Yoweri Museveni, estão no bom caminho.
O Ministro tanzaniano dos Negócios Estrangeiros, Augustine Mahiga, disse em Arusha que a Tanzânia está comprometida em garantir o sucesso das conversações em curso sobre o Burundi.
"Estamos determinados a resolver a crise política em curso no Burundi. A situação no Burundi é vital para a nossa segurança e desenvolvimento regional " – disse o ministro Mahiga na companhia do seu homólogo angolano George Chikoti.
De acordo com o Dr. Mahiga, a diplomacia regional deve concentrar-se na troca de experiências com o objectivo de preparar um relatório conjunto a ser apresentado à Cimeira da Conferencia Internacional da Região dos Grandes Lagos.
"Em nome do presidente John Magufuli, que é o actual presidente da Comunidade da África Oriental quero reiterar que nós temos intenção sincera para acabar com a crise política no Burundi"- salientou o ministro Mahiga.
Enquanto as partes em conflito no Burundi ainda se mostram inflexíveis para manter conversações de paz em Arusha, o ministro Augustine Mahiga convocou uma reunião consultiva para deliberar sobre o caminho a seguir em relação à situação em Bujumbura.
Mahiga elogiou os líderes que participam nas conversações sobre a crise política no Burundi salientando que esforços conjuntos eram vitais para a solução da mesma que vigora desde o ano passado depois de o partido no poder ter anunciado que o actual presidente Piere Nkurunziza iria concorrer a um terceiro mandato na eleição presidencial de 2015.
O anúncio provocou uma onda de protestos contra um terceiro mandato de de Nkurunziza. A reunião consultiva de Arusha constitui o relançamento do diálogo dirigido pelo presidente Yoweri Museveni no passado dia 28 de Dezembro último em Kampala, na sua qualidade de facilitador do diálogo burundês.
A reunião expressou o seu apoio às medidas já tomadas, nomeadamente, pela Comunidade da Africa Oriental (EAC), a União Africana e as Nações Unidas.
No entanto, os participantes expressaram a sua preocupação sobre a continuação da crise política no Burundi e seu potencial para degenerar ainda mais um drama humanitário e, nesse sentido, reiteraram a necessidade de as partes abraçarem o diálogo político como o único caminho viável para acabar com a crise.
Os delegados manifestaram o seu apoio aos esforços de mediação do Uganda, através do presidente Yoweri Museveni e o seu empenho político e diplomático.
Os participantes também se comprometeram a intensificar as consultas com o governo do Burundi e a oposição com vista a prosseguir com o diálogo político.

… e define rumo sobre a crise dos refugiados
Entretanto, os refugiados do Burundi continuam a afluir em massa aos campos de acomodação na região de Kigoma, na Tanzânia.
Por causa desta crise de refugiados, o presidente John Magufuli instruiu o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Regional e Internacional, Augustine Mahiga, para reatar as negociações de paz com os ministros da Comunidade da Africa Oriental (EAC) sobre a crise no Burundi.
Até agora, mais de 120 mil refugiados burundeses entraram na Tanzânia desde Abril do ano passado. Falando em Dar-Es-Salaam, Mahiga disse que já estavam em curso contactos com os ministros da EAC para traçar estratégias sobre sobre a efectivação das negociações.
"O presidente Magufuli orientou-me para começar a organizar as conversações de paz sobre a espinhosa questão da crise no Burundi -revelou o ministro Mahiga.
O chefe da diplomacia tanzaniana disse que a solução política continua sendo a única e a melhor forma de pôr fim à crise no Burundi e não através do cano das armas e é por isso que "nós ainda trabalhamos na busca a paz para o Burundi, através do diálogo político pacífico ''
"A ONU estabeleceu a Comissão de Construção da Paz no âmbito do Conselho de Segurança que está lidando com a questão e nesse sentido tive uma reunião com o embaixador dos EUA sobre a crise no Burundi", disse Mahiga.
Ele informou que a União Africana e o Conselho de Segurança estavam a trabalhar no problema acrescentando que a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos e o Fórum Regional da Sociedade Civil (ICGLR-RCS) apelaram para a reinicio imediato do diálogo inclusivo sobre a situação no Burundi.
O apelo foi feito em Dar es Salaam pelo Presidente da ICGLR-RCS Joseph Butiku no termo de dois dias do Comité de Coordenação Regional Provisório, que reuniu representantes dos Estados membros para discutir o papel da Sociedade Civil na busca de soluções que enfrentam a região.
"Apelamos a todos os Estados membros regionais e organismos internacionais para fazer do diálogo burundês uma prioridade visando explorar todas as opções para o retorno do Burundi à normalidade", disse Butiku.
ICGLR-RCS está profundamente preocupado com a deterioração da situação no Burundi com impacto no aumento do número de mortes, causando uma crise de refugiados sem precedentes.
Segundo a comissão, Burundi precisa de uma abordagem global e chefes de Estados-membros devem sugerir soluções diplomáticas e pacíficas sobre as questões que a região enfrenta.
A secretária-permanente do Ministério tanzaniano dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional, a Embaixadora Liberata Mulamula, recomendou aos Estados membros da CIRGL para recorrer a soluções locais para os problemas políticos e sociais da região.
"Os problemas da paz, segurança e desenvolvimento devem ser abordados pelos Estados-membros através de sua própria imaginação, em vez de esperar opiniões de forças externas e o Fórum Regional da Sociedade Civil tem uma grande contribuição na ajuda a estes Estados-Membros para encontrar soluções pacíficas em relação aos seus assuntos políticos", salientou Liberata Mulamula.
A crise no Burundi faz com que milhares de burundeses sejam forçados a abandonar o país em busca de sobrevivência. Alguns destes acabam imigrando para outros países, como Moçambique, desenvolvendo aqui pequenos negócios.

Tensão entre Teerão e Riade
desestabiliza Golfo Pérsico
Avelino Mucavele, em Blintyre, Malawi
A crise político-diplomática entre a Arábia Saudita e o Irão pode ter repercussões bastante negativas na região do Golfo Pérsico, mas também afectar todo o equilíbrio existente até agora no Médio Oriente.
De acordo com as agências internacionais, na região do Golfo Pérsico existe uma disputa bastante renhida entre os dois principais grupos que confessam a religião muçulmana: os xiitas e os sunitas.
A diferença principal está na concepção que cada um desses grupos tem da prática do Islão. Enquanto os sunitas acreditam que aderem de forma inequívoca à “sunnah” ou acções do profeta Maomé, procurando copiar todas as suas acções, os xiitas acreditam que os descendentes do Profeta Maomé têm a mesma legitimidade à frente do Islão.
A maior parte dos xiitas uniu-se em torno do quarto sucessor de Maomé, o imã Ali Ibn Abi Talib, primo e genro de Maomé. Embora existam outras subdivisões dentro de cada grupo, a verdade é que todas as tensões que existem na região acabam por ser resumidas entre xiitas e sunitas.
Os sunitas dominam a Turquia, Arábia Saudita, Indonésia, Síria, Palestina, o Bangladesh, o Qatar e o Norte de África, enquanto os xiitas dominam politicamente o Irão, Iraque, Bahrein, Paquistão, Afeganistão, Kuwait e Líbano.
A compreensão da conflitualidade na região do Golfo Pérsico com repercussões em todo Oriente Médio passa pelo reconhecimento da existência de minorias em cada um desses estados, ou seja, nos estados dominados pelos sunitas vivem xiitas e outros subgrupos do Islão e vice-versa.
Na realidade, as minorias religiosas não têm abertura suficiente quando o domínio político está na mão de outro grupo. Por outro lado, a situação é ainda mais melindrosa porque cada um dos grupos procura expandir a sua influência política na região e fora dela.
A estratégia geopolítica de expansão da influência política de cada uma das partes passa pelo apoio de vários grupos armados que se posicionam contra o poder instalado. O Irão é um dos principais financiadores do grupo Hezbollah que desde 1982 se instalou no Líbano, mas tem ramificações em quase todos os países da região, com destaque para a Palestina e, recentemente, para Síria e Iémen. Fica claro que a resolução dos conflitos nesses países passa pelo consenso com as autoridades iranianas.
A actual tensão que se verifica entre a Arábia Saudita e o Irão teve como origem a execução do clérigo xiita Nimr Al Nimr. O clérigo era saudita, mas pertencia à minoria. Destacava-se pelas críticas abertas à discriminação dos xiitas no seu país e lançava duras críticas à família real. As suas posições valeram-lhe a condenação à morte em 2014.
A consumação da pena de morte só se concretizou no início deste ano, facto que provocou uma onda de manifestações tanto nos países dominados pelos xiitas como naqueles em que os sunitas são governo. A nova frente de combate que a Arábia Saudita abriu está no Iémen, onde o presidente já tinha perdido praticamente o controlo do país a favor dos rebeldes que professam o ramo xiita do Islão. Portanto, não é difícil concluir que beneficiam de todo o apoio do Irão.
A Arábia Saudita lidera uma coligação composta por dez países da região do Golfo Pérsico que está a combater os rebeldes do Iémen com o apoio dos Estados Unidos, Reino Unido e França.
A principal consequência da intervenção directa, em lados opostos, das duas potências regionais – Arábia Saudita e Irão – é o aumento da imprevisibilidade do ponto de vista da segurança tanto na região como em outras latitudes onde cada um dos actores tem influência.
A única certeza no meio de toda essa conflitualidade é que existe maior conforto por parte do grupo que está mais próximo ou aliado aos países dominantes no sistema mundial, nomeadamente, a Arábia Saudita e todos os parceiros que gravitam à volta de si, inclusive o Conselho de Cooperação do Golfo.
O Irão, embora seja um dos aliados dos rebeldes no Iémen, não manifestou qualquer intenção de interferir em socorro dos rebeldes denominados huthis. Mas as autoridades iranianas têm-se desdobrados com a publicação de várias comunicações oficiais a condenar a intervenção externa.
O Presidente do Iémen, Abd Rabbo Mansur Hadi, encontrava-se no poder desde 2012, na sequência do derrube do anterior presidente, deposto por protestos. O Iémen é um dos países com algum peso na produção de petróleo. Por isso, a instabilidade interna reduz a produção e, como consequência, a tendência do mercado é aumentar o preço do barril de Brent.



