
A Hidráulica de Chókwè, Empresa Pública (HICEP), que gere o Regadio de Chókwè, está preparada para atingir os níveis de produção conseguidos nos tempos áureos de 1977, de 70 mil toneladas de arroz por ano, conforme afiançou o Presidente do Conselho de Administração (PCA) do HICEP, Soares Xerinda, que assegurou que a tecnologia necessária para esse fim já está em poder desta empresa.
Segundo Soares Xerinda, a HICEP está a afinar a sua estratégia para subir progressivamente a produção e produtividade para os níveis de 70 a 80 mil toneladas em 10 mil hectares dentro de três anos, tendo em conta que o conhecimento técnico e científico do segredo da tecnologia necessário e que já está na posse desta empresa.
A nossa fonte referiu que a elevação da rentabilidade daquelas terras passa pela utilização de variedades de sementes de qualidade e por uma engenharia de nivelamento de terras apropriada, nomeadamente aquela que permite que a água passe pelas plantas na mesma altura, irrigando com a mesma proporcionalidade e que seja capaz de evitar o surgimento de clareiras na plantação.
Soares Xerinda fala do tema com bastante propriedade porque é doutorado em Agro-ecologia pela Universidade de Pensylvania, Mestre em Ciências de Solo pela Universidade de Lincoln-Nebraska, ambas dos Estados Unidos da América.
Assim, de acordo com a fonte, o plano é preparar 10 mil hectares para a produção de arroz em moldes avançados. Só que, para tal, o Regadio precisa de 20 kits, constituídos por tractores e respectivas alfaias para o nivelamento de alta precisão, com tecnologia lazer para detectar e corrigir falhas como lombas e valetas que podem causar clareiras na plantação.
Com os 20 kits tecnológicos em mãos, o sonho de preparar os 10 mil hectares para a produção de 70 mil toneladas anuais de arroz pode ser atingido em dois anos. Com efeito, os 20 conjuntos de maquinaria podem nivelar cinco mil hectares por ano e essa intervenção é feita uma vez em cada quinquénio.
Entretanto, o representante da HICEP afirma que esta empresa não está parada. Adquiriu cinco kits de nivelamento que permitem preparar 700 hectares por ano, mas conta-se com um forte reforço do parque de máquinas que está a ocorrer em Chókwè a partir de vários intervenientes.
PARCERIAS E FOMENTO DO ARROZ
A par de uma nova abordagem que o HICEP está a encarar no processo produtivo, que consiste em sair de mero prestador de serviço de regadio para se lançar à produção directa e indirecta, esta empresa está a estabelecer uma série de parcerias estratégicas.
Aos seus cinco kits por si adquiridos já se juntaram 11 motoniveladoras da empresa TCO Reputação Moz,Lda o que aumenta a capacidade de preparação da terra para o arroz para 16 kits. A este passo, faltam apenas cinco kits para garantir a meta de preparar cinco mil hectares por ano e garantir que o topo da produtividade seja atingido num espaço de dois anos.
Com o equipamento já disponível, segundo Xerinda, em pelo menos três anos vai se conseguir atingir a meta de 70 mil toneladas anuais e o esforço que está a ser levado a cabo visa atrair mais parceiros para a prestação de serviços de mecanização de nivelamento de terras e que se envolvam eles próprios na produção agrícola.
Nesse âmbito, estão mobilizados sete entidades que juntaram seu equipamento para a prestação de serviço. Uma das importantes negociações, tendo em conta a situação de descapitalização em que se encontram os produtores, consistiu num arranjo para o pagamento em 50 cento do serviço para as empresas também suportarem as despesas operativas. Os restantes 50 por cento ficam por saldar depois da colheita.
Assim, neste processo, conseguiu-se mobilizar 35 máquinas agrícolas, das quais estão totalmente disponíveis 21 para a preparação da terra para o arroz.
ARROZSIMÃO, HUA EMACASSANE…
Mais adiante, Soares Xerinda afirmou que “a mecanização é apenas uma das condições necessárias para a subida dos níveis de produtividade e rendimento por hectare, condição essencial para o aumento dos níveis de produção do arroz”.
Ajuntou ainda que a qualidade da semente e variedades de alto rendimento são fundamentais. Segundo apuramos, o país já conta com pelo menos três variedades de arroz de alto rendimento que foram desenvolvidas em Chókwè e já estão aprovadas para a multiplicação, nomeadamente o arroz Simão, Hua eMacassane. O terceiro elemento, que também foi desenvolvido em Chókwè é o adubo.
BOOM AGRÁRIO
Soares Xerinda disse igualmente que a boa precipitação que garante água até aos finais do próximo ano, aliada a uma crescente resposta de potenciais investidores agrícolas, fazem antever uma subida nas safras vindouras, com previsão de 115 mil toneladas de produtos diversos.
A estratégia da HICEP inclui a mobilização de parceiros e investidores desde os da área de mecanização até aos do fomento e intervenção directa na produção agrícola.
No tocante à gestão de água, visitamos o curso do canal principal do Regadio, a partir da barragem de Macarretane, onde pudemos perceber de perto a tecnologia hidráulica ao serviço do controlo do caudal e garantia da irrigação.
Decorre a reabilitação de canais, limpeza mecanizada e manual, numa azáfama que mostra uma grande animação e o subir das expectativas de boas colheitas. A primeira época de 2017, que coincidiu com o início da disponibilidade de água, embora em excesso para certas culturas, resultou na produção de 33 mil toneladas de produtos diversos.
Produção de semente
continua nossa fraqueza
A grande marca do momento do Regadio de Chókwè está na produção de tomate, embora a colocação no mercado deste produto ainda seja um desafio, com os produtores de Chókwè a serem prejudicados no mercado grossista do Zimpeto, segundo alguns produtores contactados nos seus campos agrícolas naquele regadio. Apesar disso, esta continua a ser a sua maior aposta.
Vimos vastos e intermináveis campos onde a azáfama é grande naquela que constituía a primeira sementeira depois do transbordo do rio Limpopo ocorrida nos primeiros meses deste ano.
Rosália Nhone é uma das três viúvas de um grande agricultor de Chókwè e revelou que todas as viúvas com os respectivos filhos trabalham numa vasta área que se perde no horizonte, todos concentrados neste momento no tomate.
Um dos constrangimentos que ainda deixa os produtores inseguros é o facto de os viveiros serem todos importados de um país concorrente, que é África do Sul “e não é raro um produtor chegar com um camião de semente toda contaminada”.
O PCA do Regadio, Soares Xerinda, que é um especialista da área, explicou que não é difícil que qualquer um, por má-fé, pegue num pulverizador e contamine caixas de mudas numa assentada. “É assim que a maior aposta neste momento é conseguir produzir semente em quantidade e qualidade para parar com as importações”.
Chókwè quer mercado para milho
O Regadio de Chókwè tem capacidade e quer produzir 20 mil toneladas de milho, mas há problemas sérios do mercado invadido por importações, o que faz com que haja problemas de colocação deste produto para apenas dois mil toneladas.
Sabe-se que o país importa anualmente cerca de 70 a 80 mil toneladas de milho e, de acordo com Soares Xerinda, nas negociações estabelecidas com as moageiras como a Companhia Industrial da Matola, percebeu-se que indústria nacional entendia que os agricultores pretendiam vender excedentes, o que significa milho retido em más condições de conservação e só vendido ao perceber que tem o bastante para a segurança alimentar.
“Estamos a produzir milho para abastecer a agro-industria moageira. Temos compromisso com Higest para mil toneladas, mas vamos produzir agora, em 2017, duas mil toneladas. Contactamos também a Companhia Industrial da Matola e outras para conseguir mercado para 20 mil toneladas de milho que podemos produzir no Regadio de Chókwè”, explicou.
Sobre a provável barreira em termos de preço, Xerinda explicou que, com base em dados de preços de importação de milho nos últimos 10 anos, Moçambique apresenta-se com vantagem comparativa durante o mês de Setembro, altura da sementeira na África do Sul, e Fevereiro que é antes da colheita naquele país.
No que toca à qualidade, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique já concebeu variedades de semente do milho do padrão que a indústria requer e com uma produtividade de 11 toneladas por hectare, embora o mercado para a semente seja também outro calcanhar de Aquiles. O regadio produziu 1200 toneladas de semente melhorada de milho no ano passado e só conseguiu vender 810 toneladas.
Segurança alimentar
pode ser em dinheiro
A actual abordagem da segurança alimentar, com apelos para que o camponês não venda toda a sua produção e que guarde para a sua segurança alimentar está a provar-se ineficaz – defende o Professor Doutor Soares Xerinda, PCA do Regadio de Chókwè.
Este pensamento atraiu a nossa atenção por confrontar toda a filosofia actual traduzida em discursos políticos sobre a matéria. Para aquele especialista e gestor agro-industrial, a segurança alimentar não se faz apenas com comida guardada em casa. A segurança alimentar do camponês pode ser convertida em dinheiro no seu bolso que até lhe permite não viver do milho ou feijão que produz, mas poder comprar peixe, arroz, óleo e outros bens de consumo.
Por outro lado, na sua opinião, o camponês não tem condições para conservar os seus próprios produtos até a campanha do ano seguinte, o que pode levar à deterioração dos seus produtos, ao ponto de perigar a sua saúde.
“O melhor é alguém competente comprar os produtos para melhor conservação ou transformar, como é o caso do milho que o camponês vai precisar de farinha já moída”, concluiu.
Texto de Francisco Alar



