
O Instituto Nacional de Investigação Pesqueira (IIP) revelou há dias que há exploração excessiva de recursos pesqueiros na região Sul do país devido à grande concentração de embarcações industriais e semi-industriais. Segundo aquela entidade do Estado, nesta região estão em actividade 20 embarcações, quando o recomendável seria apenas 15 navios.
A directora-adjunta do IIP, Isabel Chaúca, disse que aquela instituição está a tomar medidas de gestão da pescaria ao longo da costa nacional para fazer face à sobre-exploração dos recursos pesqueiros.“Temos um plano que indica onde devemos nos concentrar na actividade pesqueira e define o número de barcos que podem operar em cada região”, disse.
Aliás, a sobre-exploração não é só para o peixe. Outro recurso que está pressionado é o camarão de superfície, cuja captura está acima da sua capacidade, sobretudo no Banco de Sofala e na Baía de Maputo. Perante esta realidade, o IIP pretende reverter o quadro através de um maior controlo do licenciamento, entre outras medidas.
Segundo a fonte, actualmente operam em toda a costa moçambicana 34 embarcações na pesca semi-industrial à linha, dos quais 19 estão baseadas no Porto de Maputo e que realizam as suas actividades do extremo Sul de Maputo até ao rio Save.
Na região Centro estão em actividade 15 embarcações concentradas no chamado banco de Sofala, enquanto na zona Norte, apesar da abundância de recursos, não existe nenhuma embarcação licenciada.
A reversão destes números, de acordo com Isabel Chaúca, passa pela redução do número de embarcações que operam na região Sul de 19 para 14 semi-industriais e uma industrial. Para o Banco de Sofala o plano de gestão aprovado recentemente recomenda o licenciamento de apenas 12 embarcações semi-industriais e duas industriais.
Para a zona Norte, que ainda não está a ser explorada por embarcações desta dimensão, poderão ser licenciadas dez embarcações semi-industriais e uma industrial com vista a fazer o aproveitamento dos recursos existentes para o consumo interno e para incrementar as exportações.
“Não podemos potenciar mais a zona Sul, por isso procuramos ver onde há mais recursos para promover a pesca. Muitas vezes, por causa da área e dos custos operacionais os pescadores optam por pescar ao longo da costa”, sublinha.
CRUZEIRO DE PESQUISA
Num outro desenvolvimento, a directora adjunta do IIP revelou que de Julho a Setembro foi realizado um cruzeiro de pesquisa de pescado, nas regiões Centro e Norte, cujo objectivo era identificar os locais, quantificar a abundância ou não da pescaria existente e observar se este é acessível para a pesca à linha e anzol.
A pesquisa decorreu no âmbito do Projecto de Promoção da Pesca Artesanal (ProPESCA) e contou com o financiamento do Governo moçambicano em parceria com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrário (FIDA) e esteve orçado em 130 mil dólares norte-americanos.
A investigação esteve orientada a zonas de exploração moderada, mas com potencial para o aumento da produção dos chamados peixes de primeira, nomeadamente garoupa, cachucho, pargo, ladrão, entre outros.
“Em termos de extensão, o cruzeiro abrangeu a profundidade entre 10 e 250 metros, pois é sabido que a pesca artesanal explora áreas próximas da costa, por isso tentámos ver para além da costa para pesquisar o que tem naquelas áreas consideradas virgens”.
Isabel Chaúca disse que durante o período de análise do potencial existente na nossa costa foi possível recolher vários dados, incluindo informação ambiental e amostras que poderão servir para futuros estudos, ao mesmo tempo que foram capturados 1200 quilogramas de peixe diverso para determinar as taxas de captura, a partir das quais se poderá calcular o índice de abundância. “Das quantidades capturadas cerca de 70 por cento foram tiradas do Banco de Sofala que é uma área bastante produtiva”, aludiu.
Aliás, o Banco de Sofala tem uma plataforma continental extensa que requer custos operacionais que limitam as operações das embarcações e, para além disso, naquela área verifica-se uma grande exploração do camarão de superfície. “Entretanto temos muito peixe. A área tem capacidade de produzir grandes quantidades que podem servir para o aumento da produção no país”, referiu Chaúca.
Refira-se que no ano passado, 2015, o país produziu cerca de 256 mil toneladas de pescado diverso, de um potencial projectado de cerca de 310 mil toneladas, o que representa mais de 92 por cento de recursos a serem tirados tanto no mar como nas águas interiores por ano.
Moçambique tem
250 espécies de peixe
A directora-adjunta do IIP, Isabel Chaúca, disse que na costa moçambicana existem cerca de 250 espécies de peixes, mas são exploradas entre 60 e 80 espécies. No entanto, acredita-se que a maior proporção seja de peixes vermelhos, pargos, garoupas, serra e ladrão.
Como resultado da pesquisa feita de Julho a Setembro, o IIP acredita que “será possível ter a indicação das taxas de captura por área, profundidade e capacidade de avaliar a eficiência e selectividade dos anzóis que usamos na captura. Por outro lado, vamos fornecer a informação biológica sobre os tamanhos dos indivíduos, fase de reprodução e fase de captura”, sublinhou.
A nossa Reportagem apurou que com as informações obtidas no âmbito do cruzeiro, o IIP poderá ter elementos sobre as áreas com potencial, sobretudo em termos de qualidade e quantidade dos recursos disponíveis e de outros aspectos relevantes com vista a uma exploração sustentável dos recursos e maximizar a produção pesqueira.
domingoapurou que o IIP também realiza anualmente cruzeiros de monitoria para apurar a abundância do camarão de superfície, no Banco de Sofala, e estimar a quantidade de kapenta na albufeira de Cahora Bassa, em Tete. A escolha destes recursos resulta do facto de serem classificados como prioritários por impulsionarem as exportações.
“O kapenta está com um nível de exploração óptimo e as avaliações que têm sido feitas dão indicação das medidas que devem ser implementadas para garantir que se mantenha a exploração deste recurso neste nível”, frisou.
Apostar na aquacultura
O IIP entende que a alternativa para fazer face à sobre-exploração dos recursos pesqueiros é a aposta no fomento da aquacultura, pois o país dispõe de potencial no mar numa área de quase 78 mil hectares, onde podem ser construídos tanques de terra e outros 32 mil hectares para o cultivo em gaiolas.
“Por outro lado, existe um potencial de cerca de dez mil hectares para a produção de algas marinhas que podem servir de insumo para o cultivo de camarão, peixe e algas marinhas”, sublinhou.
No entanto, para águas interiores estão disponíveis cerca de 258 mil hectares, dos quais estão a ser explorados, até o momento, apenas 180 hectares e em termos produtivos, o potencial de produção para as águas interiores é de duas mil toneladas por ano que carecem de algum investimento.
“Estamos a promover a aquacultura comercial porque vimos que a produção individual não oferece grandes rendimentos. Também estamos a estimular o associativismo para termos uma aquacultura massiva e com bons rendimentos. A trabalhar com grupos podemos ter resultados almejados”, enfatizou.
Um dos principais constrangimentos na aquacultura reside na aquisição de ração e, para além disso, os produtores devem ter em conta a qualidade da água e terem o domínio das taxas de crescimento. A perspectiva, segundo apurámos, é de que a partir do Centro de Pesquisa da Aquacultura de Chókwè, em Gaza, sejam produzidas alevinos de qualidade e ração.
“A partir deste centro vamos promover a produção de alevinos melhorados e faremos o aperfeiçoamento genético de outras linhas para permitir que sejam cultivadas em qualquer ponto do país”, disse.
Refira-se que um tanque ideal para a aquacultura deve ter a capacidade para acolher cinco alevinos para que possam crescer até atingir entre 250 a 300 gramas.
Texto de Angelina Mahumane
dangelina.mahumane@snoticicas.co.mz



